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Brasileiros reconhecem racismo estrutural, mas resistência a apoiar cotas persiste

Estudo do Observatório Político Eleitoral destaca como informações concretas sobre desigualdades podem transformar percepções e impulsionar a agenda antirracista no Brasil
Cartas nas dependências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) destaca que racismo não é liberdade de expressão.

Cartas nas dependências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) destaca que racismo não é liberdade de expressão.

— Ana Maria Coutinho/UFRJ

5 de dezembro de 2024

A política brasileira reflete o racismo estrutural que permeia a sociedade. Embora a maioria do eleitorado, de diferentes espectros políticos e sociais, reconheça o racismo como um problema real, essa percepção nem sempre se traduz em apoio a medidas concretas de inclusão racial, como cotas para candidaturas negras. 

Esse cenário foi mapeado pela pesquisa Agenda Antirracista e a Política Brasileira, realizada pelo Observatório Político Eleitoral (Opel) com apoio da Friedrich Ebert Stiftung (FES-Brasil) e da Fundação Tide Setubal.

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O levantamento, realizado nas capitais Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro entre agosto e outubro de 2023, utilizou nove grupos focais para investigar valores e comportamentos do eleitorado sobre racismo, representatividade negra e eleições. 

Segundo os pesquisadores, a emergência da pauta antirracista na política tem confrontado a sub-representação de pessoas negras nos espaços de poder, mas ainda enfrenta resistências significativas.

Barreiras culturais e desinformação

Embora haja consenso sobre a existência do racismo, muitos eleitores resistem a políticas específicas, como cotas raciais. Para Mariane Almeida, pesquisadora do Opel, isso reflete uma compreensão limitada do objetivo das cotas. 

“Há uma dificuldade em associar o racismo à sub-representação política e em entender as cotas como instrumentos de correção histórica e promoção de equidade. Elas são frequentemente vistas como privilégios, e não como uma ferramenta de justiça social”, afirma, em entrevista à Alma Preta.

A resistência aumenta quando as cotas são apresentadas de forma genérica, acionando preconceitos sobre meritocracia e igualdade abstrata. Porém, quando os participantes dos grupos focais foram expostos a dados concretos sobre a desigualdade racial na política, muitos reconsideraram suas posições.

“Esse movimento mostra que a resistência não é uma contradição, mas um reflexo de uma compreensão incompleta. A apresentação de dados pode desarmar resistências iniciais e promover um entendimento mais profundo”, completa Mariane.

Efeitos da informação e estratégias de mobilização

O estudo revelou que a receptividade às cotas raciais aumenta significativamente quando o público é confrontado com estatísticas, como o percentual de pessoas negras na política em comparação à sua representatividade na população. 

Essa mudança indica que campanhas educativas, baseadas em dados concretos, são cruciais para ampliar o apoio às políticas de inclusão.

“O desafio não é apenas apresentar dados, mas fazê-lo de forma que desarme resistências iniciais e promova uma reflexão genuína sobre a necessidade de medidas como as cotas para construir uma democracia mais equânime”, relembra a pesquisadora.

Além disso, o relatório da pesquisa propõe estratégias para sensibilizar o eleitorado, como o uso de narrativas sobre justiça social, exemplos internacionais de sucesso e a ampliação do discurso para destacar que a inclusão racial beneficia toda a sociedade. 

“A linguagem também é um ponto-chave. Em vez de focar no termo ‘cotas’, devemos enfatizar conceitos como ‘equidade’ e ‘igualdade de oportunidades’, evitando reações defensivas”, sugere Mariane.

Apesar de 45% dos entrevistados declararem já ter votado em candidatos negros, a raça raramente é considerada um critério determinante. 

“A maioria dos eleitores prioriza propostas e ações locais, reforçando a ideia de que a competência deve ser o principal critério de escolha”, explica o relatório. Essa visão, ancorada em valores meritocráticos, dificulta a mobilização de apoio explícito às candidaturas negras.

Imagem de um homem negro votando na cabine eleitoral. Estudo revela que, embora o eleitorado brasileiro reconheça o racismo estrutural, a resistência às cotas na política ainda persiste.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Caminhos para ampliar o impacto das cotas políticas

Mesmo assim, a pesquisa destaca a importância de integrar organizações da sociedade civil, movimentos sociais e partidos políticos na construção de campanhas mais eficazes. 

A articulação entre dados e ações concretas pode fortalecer candidaturas negras e ampliar a conscientização sobre a agenda antirracista.

Embora Salvador, um importante polo político antirracista, não tenha sido incluída no estudo inicial, os organizadores planejam expandir a análise para outras regiões em futuras etapas. 

A pesquisa conclui que a luta por representatividade negra na política é um desafio que exige inovação, sensibilidade e construção coletiva, unindo diferentes atores em torno de uma agenda transformadora.
“Promover equidade na política não é apenas uma demanda de justiça para a população negra. É um passo essencial para uma democracia mais inclusiva e equilibrada, que atenda às necessidades de toda a sociedade”, finaliza a pesquisadora.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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