Mais do que uma simples prática esportiva, o Jiu-Jitsu pode ser uma poderosa ferramenta de empoderamento para a infância negra. Em um país marcado pelo racismo estrutural, que afeta desde cedo a construção da identidade, iniciativas da sociedade civil desempenham um papel fundamental na construção de referências positivas e na ocupação segura de espaços.
A exemplo do NIA – Ninho de Infância Afrikana, referência no cuidado e fortalecimento da infância negra, que anunciou o lançamento de um novo projeto voltado para o desenvolvimento físico, emocional e identitário das crianças negras, que consiste em aulas de Jiu-Jitsu para crianças pretas e pardas de 3 a 12 anos.
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Fruto de uma parceria com a renomada Diego Bispo Academy, o projeto será realizado na Casa NIA, localizada no bairro Cidade Nova, Zona Central do Rio de Janeiro, com duas turmas em horários distintos, às terças e quintas-feiras. As crianças que já participam do projeto contam com valores especiais, enquanto as demais pagam o valor integral.
As aulas serão ministradas pelo professor Marcos Rodrigues, seguindo a metodologia desenvolvida pelo campeão mundial de Jiu-Jitsu, Diego Bispo, aplicada hoje em academias nos Estados Unidos. Além disso, Bispo acompanhará diretamente o andamento do projeto.

Quilombo contemporâneo de acolhimento e potência
Mais do que ensinar técnicas de defesa pessoal, a proposta é criar um ambiente de acolhimento, reconhecimento e valorização da negritude. Para Vanessa Andrade, fundadora e co-CEO do NIA, a escolha do Jiu-Jitsu como ferramenta pedagógica é estratégica. “Nossa intenção é cultivar nas crianças a confiança ancestral, a sabedoria estratégica e a suavidade consciente diante das adversidades”, explica.
Na visão de Vanessa, o tatame se transforma em um território simbólico — mais do que dominar uma técnica, meninas e meninos negros aprendem a reconhecer sua centralidade no mundo e a transformar contextos hostis em cenários de afirmação e poder.
A parceria com a Diego Bispo Academy fortalece ainda mais essa missão. Campeão mundial, Diego Bispo é, segundo Vanessa, um exemplo vivo dos princípios da Afrocentricidade. “Sua metodologia une corpo e mente, valorizando a estratégia, a serenidade e a disciplina — pilares essenciais para a formação de crianças negras conscientes, fortes e resilientes.”
O projeto vai além de ser apenas um esporte; ele busca criar um ambiente seguro o qual as crianças negras possam ser desafiadas de maneira respeitosa, desenvolvendo disciplina, coragem, inteligência emocional e autoconfiança.
Para a fundadora, é urgente criar espaços que acolham e fortaleçam a identidade negra desde a infância. Andrade destaca ainda, com base nos pensadores Amos Wilson e Frantz Fanon, que as teorias ocidentais negligenciam as especificidades da infância negra. “Precisamos afrocentrar o olhar sobre a criança negra, reconhecendo sua história, cultura e potências”, afirma.

Nesse sentido, o projeto se configura como um verdadeiro quilombo contemporâneo — um território de paz, segurança emocional e fortalecimento. Os impactos esperados vão além das quatro linhas do tatame.
Para as crianças, a expectativa é que o Jiu-Jitsu contribua para o desenvolvimento de autoconfiança, equilíbrio emocional e segurança na trajetória escolar e comunitária. “Queremos apoiar a formação de crianças e adolescentes saudáveis, fortalecidos emocionalmente e protegidos dos riscos sociais que historicamente afetam nossa juventude”, reforça Vanessa.
O NIA surgiu em 2023 como um espaço coletivo, dedicado ao cuidado e fortalecimento da infância negra. Alicerçado em educação, cultura e afeto, o NIA promove a valorização da identidade, a autoestima e o senso de pertencimento de crianças negras e suas famílias.
Para inscrições nas aulas de Jiu-Jitsu, acesse aqui.