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Angela Davis: As mulheres negras trans são os alvos principais de violência

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23 de outubro de 2019

Durante sua agenda no país, a norte-americana mostrou preocupação com a população trans

 Texto / Lucas Veloso | Edição e imagem / Pedro Borges 

 A filósofa e ativista norte-americana, Angela Davis, 75, está cumprndo uma agenda no Brasil. O país é o que mais mata transexuais no mundo, segundo dados da ONG Transgender Europe divulgados em novembro passado.

Durante seu encontro com jornalistas, Davis compartilhou alguns momentos de sua vida e abordou temas que julga importantes serem tratados dentro do feminismo negro, entre eles, a participação das mulheres transexuais na sociedade e a violência com que o país trata essa população.

Para a filósofa, o combate à violência de gênero precisa focar nas mulheres negras trans.“Quando as mulheres negras trans forem finalmente livres, isso significará que o mundo será livre”, definiu. “Quando falamos ‘vidas negras importam’ não estamos falando de um grupo específico, estamos falando de humanidade. E o mesmo argumento se aplica à comunidade trans.”

Na quinta-feira passada (17), o Alma Preta noticiou a morte da jovem Lorena Vicente, estudante do Ensino Para Jovens e Adultos (EJA). Com 23 anos, ela morreu após ser espancada no Jardim São Luís, na Zona Sul de São Paulo.

Na entrevista sobre o caso, o professor de história, Severino Honorato, destacou que Lorena era uma aluna dedicada e carinhosa. “Ela participava do sarau da escola, gostava de abraçar os professores e ouvia os nossos conselhos. Perdemos nossa Lorena, que só queria ser feliz”, resumiu.

‘Vidas negras importam’

Entre as experiências em São Paulo, Angela teve a oportunidade de conhecer a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL). A parlamentar foi a primeira mulher transexual da Assembleia Legislativa de São Paulo. “Eu não acho que isso já aconteceu em outro país no mundo”, observou Angela.

“Eu fiquei muito comovida ao ouvir sobre o trabalho que ela tem feito”, elogiou. “Aqueles de nós, que vêm trabalhando contra a violência do Estado, a violência policial, a violência carcerária, tem que reconhecer que as mulheres negras trans são os alvos mais consistentes de violência”.

Segundo o “Dossiê dos Assassinatos e Violência 2018“, foram 167 pessoas trans assassinadas no país no ano passado. O Rio de Janeiro foi o que mais matou trans, com 16 assassinatos. Em seguida, aparece a Bahia, com 15 casos, e o terceiro fica São Paulo, com 14. Depois aparece o Ceará, com 13 assassinatos e o Pará, com 10.
A maioria das vítimas transgêneras são negras. Os números mostram que elas representam 82%. Sobre a faixa etária, 60,5% das vítimas tinham entre 17 e 29 anos e as ruas foram os locais onde aconteceram 60% dos casos.

O ano de 2017 foi recordista em números de denúncias. Foram 193 assassinatos. Os dados foram coletados na última publicação do Atlas da Violência, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

De acordo com Angela, a preocupação com o fim da violência aos negros precisa levar em conta a violência de gênero, mais precisamente aquela focada nas mulheres negras trans. Para ela, essa é uma dimensão importante do feminismo.

Comunidade LGBT+. no Brasil

No Brasil, os discursos da norte-americana impactaram no movimento LGBT+. A publicitária e ativista Neon Cunha relembra que em 2017, a filósofa mostrou comprometimento com a discussão.

“Que tal seria se, digamos, uma mulher trans negra que luta contra a violência, que luta contra o sistema prisional, que tal se essa mulher ocupar o lugar simbólico da categoria mulher?”, questionou na época. “Parece que nós sempre aceitamos como norma as pessoas que já tem privilégios. Por que é que nós não podemos aceitar que as pessoas que tiveram que lutar por reconhecimento, lutar por sobrevivência, lutar por liberdade é que devem tornar-se a norma, o símbolo ao qual devemos aspirar?”.

Para Neon, não dá para apontar para a falta do debate como exclusividade da comunidade negra, pois é um questão de preconceito estruturante. Ela defende a necessidade de pontuar a transgeneridade como condição no gênero, o que faz apontar todas as violências baseadas no gênero.

“É uma questão que todos os movimentos sociais vão ter que estar atentos. E a partir disso, pensar em como garantir dignidade às vidas mais precarizadas e vulnerabilizadas, decorrência da constante desumanização. Neste sentido, os apontamentos de Angela vêm a somar”, conclui.

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