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Apesar da censura, jogadores e torcedores protestam na Copa; veja o que já aconteceu

Mobilizados pela campanha One Love, em prol dos direitos da comunidade LGBTQIAP+, e por outras causas sociais, eles enfrentam censura da Fifa e se manifestam no Catar

Vinícius de Araújo/Alma Preta Jornalismo

Foto: Vinícius de Araújo/Alma Preta Jornalismo

23 de novembro de 2022

A Copa do Mundo do Catar tem sido palco para debates sobre a garantia dos direitos humanos em eventos e organismos internacionais. Após a ameaça de punição por conta do uso de braçadeiras da campanha ‘One Love’, que seriam utilizadas por seleções em prol das causas LGBTQIAP+, diversos outros relatos de desrespeito aos direitos fundamentais vieram à tona. Integrantes de coletivos humanitários e LGBTs ligados ao futebol consideram que a Federação Internacional de Futebol (Fifa), entidade máxima deste esporte, está sendo conivente com tais violações, apesar de em seu estatuto conter a garantia da luta contra a discriminação.

Onã Rudá, fundador do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+, que reúne os coletivos e torcidas dos clubes de futebol Brasileiros, e da Torcida LGBTricolor, do Esporte Clube Bahia, disse à Alma Preta Jornalismo que existe um silêncio da Fifa diante do desrespeito a uma série de questões ligadas aos direitos humanos. Seguindo ele, nem as pessoas do setor de diversidade da entidade têm acesso ao que realmente está acontecendo.

“A leitura que eu faço é que a Fifa não está comprometida em quase nada com o que pactuou. Pessoas estão sendo barradas nos estádios com as bandeiras LGBTs e têm relatos de cidadãos do país dizendo que se sentem orgulhosos pois o ocidente não representa a humanidade. A avaliação é que o Catar não era um país que estava apto a receber a Copa”, analisa.

Nesta quarta-feira (23), os jogadores da seleção da Alemanha colocaram as mãos sobre suas bocas durante a foto do time antes do jogo contra o Japão. O ato representa o cerceamento gerado pela proibição da Fifa ao uso da braçadeira ‘One Love’.

Rafael Fonseca, goleiro do time de futebol LGBT Bravus, afirmou que como todo grande evento que é patrocinado, as pessoas acabam tendo que mudar a sua própria opinião, mas não porque elas querem, mas por uma questão legal. Ele diz que, infelizmente, ainda se vê muitos países que têm uma visão muito turva e dura em relação aos LGBTs e outras minorias, como se fosse um crime, uma doença, um problema humanitário que deveria ser resolvido.

“Isso é prejudicial para eles, mas principalmente para nós, pois eles abriram as portas para todo tipo de pessoas do mundo e as proíbem de ser quem elas são. Infelizmente, a gente vive isso em vários lugares, até no Brasil existem pessoas que pensam da mesma forma”, ressalta. 

Para Fonseca, o fato de existir jogadores que estão enfrentando essa questão já demonstra que a humanidade está evoluindo de alguma forma. “Ainda vai demorar muito tempo para sermos um mundo igualitário, mas o que a gente pode ver é que existem pessoas, que mesmo não sendo LGBTs, entendem que a igualdade deve ser para todos”.

Manifestações em campo 

Assim como o simbolismo de uma braçadeira, bandeiras ou cartazes, diversas outras formas de manifestações em prol de grupos minorizados sempre estiveram presentes no futebol. Reinaldo, artilheiro do Atlético Mineiro na década de 1970, foi considerado à época o ‘rei’ da luta pela igualdade racial em campo, ele tinha como marca o punho erguido, herança dos Panteras Negras aos movimentos negros muindiais. 

Na Copa de 1978, que ocorreu na Argentina, país que estava sob o comando dos militares, Reinaldo foi levado ao então presidente Ernesto Geisel. Segundo comentaristas, Geisel disse: “Filho, dedique-se a jogar futebol. Só isso. A política, você deixa para nós”. Porém, ao marcar um gol contra a Suécia, ele ergueu o punho outra vez e não jogou mais um minuto sequer, assistindo a Argentina comemorar seu primeiro título.

Tal ato ainda é controverso e, apesar de os órgãos que gerenciam o esporte permitiram manifestações em prol dos direitos humanos, o punho fechado ainda é tratado, em muitos casos, como gesto político. 

Para Onã Rudá, o que a Fifa deveria ter feito com relação às abraçadeiras em prol dos movimentos LGBTs era tratar essa manifestação como um ato de direitos humanos, e não um ato político, assim a Inglaterra e outros sete países não seriam punidos e não teriam os seus direitos de expressão questionados. 

No entanto, em detrimento do “mundo perfeito” de um país árabe onde o respeito às diferenças é quase um decreto de morte, no segundo dia da Copa, a política chegou aos estádios do Catar. 

No jogo entre Inglaterra e Irã, as duas equipes protestaram. Na seleção iraniana, os jogadores ficaram em silêncio durante a execução do hino nacional, em sinal de apoio às manifestações contra o regime de Ali Khamenei. Nas arquibancadas, torcedores mostraram faixas e cartazes pedindo direitos para as mulheres, com o slogan “Woman Life Freedom” (Mulher, Vida e Liberdade). 

O atacante Harry Kane, capitão da seleão inglesa, utilizou outro modelo de braçadeira, com os dizeres “No Discrimination” (Sem discriminação). Ele era um dos capitães que usaria o objeto com o arco-íris da campanha ‘One Love’. 

A Fifa e as controvérsias humanitárias 

Estimativas de organismos internacionais apontam que pelo menos 6 mil trabalhadores estrangeiros morreram nas obras da Copa do Mundo. A Anistia Internacional divulgou, em 2021, um levantamento feito com dados oficiais do Catar apontando que 15,8 mil estrangeiros poderiam ter morrido no país entre 2011 e 2020, mas nem todas as mortes estavam relacionadas à obras para o evento.

Na manhã desta terça-feira (22), o jornalista recifense Victor Pereira, que está no Catar e levou a bandeira de Pernambuco para o país sede, foi abordado agressivamente por funcionários e cidadãos no Estádio Lusail. Ele teve a bandeira do estado tomada à força, pois os guardas confundiram, por conta do arco-íris, com uma bandeira LGBT.

O estatuto da Fifa, editado em 2018, indica que a entidade se esforçará para garantir o respeito aos direitos humanos e ressalta que garantirá a luta contra a discriminação de “qualquer país, indivíduo ou grupo de pessoas devido à raça, cor da pele, origem étnica, nacional ou social, gênero, deficiência, idioma, religião, posição política ou qualquer natureza, poder aquisitivo, local de nascimento ou origem, orientação sexual ou por qualquer outro motivo”. De acordo com o órgão, quem infringir essas regras será punido com suspensão ou expulsão.

Por outro lado, a Fifa deixa evidente em seu estatuto a proibição de manifestações políticas e religiosas em campo. Entretanto, “este mesmo estatuto prevê o respeito aos direitos humanos reconhecidos pela comunidade internacional”.

Leia mais: Copa Preta: Asamoah Gyan e a vilania de um herói nacional

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