No Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, celebrado nesta quarta-feira (2), a ativista brasileira Luciana Viegas critica em publicação da Organização das Nações Unidas (ONU) abordagem tradicional das escolas em relação aos neurodivergentes. Diretora da organização “Vidas Negras com Deficiência Importam”, ela participou da Cúpula Global sobre Deficiência em Berlim e defende mudanças estruturais no sistema educacional.
Viegas recebeu seu diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) aos 25 anos, após identificar em si mesma comportamentos semelhantes aos do filho, diagnosticado na infância. Seu relato revela como o racismo estrutural distorce a percepção médica. Características típicas do autismo foram frequentemente interpretadas como “agressividade” em sua trajetória.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
A ativista relata casos em que testes descartavam o autismo quando ela demonstrava compreensão sobre racismo, mesmo apresentando dificuldades em reconhecer expressões faciais — uma contradição que expõe a limitação dos critérios diagnósticos.
“Raça molda como vivenciamos o mundo. A experiência de um autista negro é radicalmente diferente da de um branco”, afirma em publicação da Organização das Nações Unidas (ONU).
O fracasso do modelo educacional atual
O sistema escolar recebe críticas contundentes de Viegas. Ela denuncia a obsessão pela oralidade, que exclui sistematicamente autistas não verbais. “Quem não fala não é considerado gente no sistema atual”, lamenta, citando as dificuldades enfrentadas por seu filho.
A abordagem clínica predominante nas escolas é outro alvo de sua crítica. Em vez de focar no que os alunos autistas “faltam”, Viegas defende que a educação deveria identificar e desenvolver suas potencialidades. O modelo comportamental atual, que reprime diferenças em nome da padronização, é apontado como uma fonte constante de sofrimento para neurodivergentes.
A ativista propõe que as escolas precisam abandonar abordagens puramente médicas e abraçar a neurodiversidade. Isso significa valorizar múltiplas formas de comunicação e criar espaços que acolham diferenças cognitivas.
Autismo e racismo na educação
Um estudo estadunidense publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders (em português, Revista de Autismo e Transtornos do Desenvolvimento) revelou que crianças negras são 2,6 vezes menos propensas a receber um diagnóstico de autismo na primeira consulta em serviços especializados, em comparação com crianças brancas. Tampouco o comportamento é observado por educadores, por exemplo.
A falta de formação específica dos educadores e a ausência de políticas públicas eficientes resultam em um ambiente pouco acolhedor. Muitas famílias relatam que, além das dificuldades relacionadas ao autismo, precisam lidar com preconceitos raciais que impactam o comportamento dos profissionais e colegas de classe.
Luciana Viegas aponta a necessidade de um currículo mais inclusivo e de ações afirmativas para que crianças negras autistas tenham garantido o direito à educação de qualidade. Viegas defende a ampliação de programas de formação para professores e a adoção de práticas pedagógicas que considerem as especificidades de alunos autistas dentro de um contexto racializado.
Texto com informações da Organização das Nações Unidas.