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BA: Clipe de pastor é denunciado por associar orixás à violência armada

"Dizem que a Bahia é de todos os santos, mas ela é do Espírito Santo”; “Não tem Oxumaré e nem Exu Caveira", são alguns dos trechos da música

Imagem mostra um grupo armado dentro de um carro

Foto: Foto: Reprodução/Redes sociais

15 de julho de 2022

Povos de axé e lideranças religiosas de matriz africana encaminharam uma denúncia ao Ministério Público da Bahia (MP-BA) por causa do videoclipe de um pastor evangélico que usa letras que associam orixás a um cenário de violência e guerra de facções em comunidades de Salvador.

Intitulada “Pra Trás da Cruz”, a música é do pastor evangélico Irmão Júlio e o clipe simula uma guerra de tráfico e violência armada em uma comunidade da capital baiana. A letra traz rimas com nomes de bairros de Salvador e cita os orixás em contraponto à presença da religião cristã e do neopentecostalismo na Bahia.

“Dizem que a Bahia é de todos os santos, mas não é verdade, ela é do Espírito Santo”; “Não tem Oxumaré e nem Exu Caveira, meu Deus manda em São Tomé e também lá na Engomadeira. Pra trás da cruz, eu profetizo que a Bahia é de Jesus”, são alguns dos trechos da música.

Segundo o Ogã [cargo no candomblé] e fundador do programa “Voz do Axé”, Alan Oliveira, ele tomou conhecimento do clipe após a circulação em grupos. Ele disse que chegou a entrar em contato com os responsáveis para apontar possível intolerância religiosa no conteúdo, no entanto, disse que não foi atendido e chegou a ser intimidado.

Foi só após a repercussão do caso e a apresentação da denúncia no MP-BA, que o pastor evangélico Irmão Júlio, que é influenciador nas redes sociais, removeu o clipe do YouTube. A Alma Preta Jornalismo teve acesso a um vídeo em que o pastor pede desculpas e disse que foi “infeliz” em apenas um trecho do clipe.

“Eu vim aqui para pedir perdão ao pessoal de matriz africana, dizer que minha intenção não foi essa. […] Já tirei o vídeo do ar e confesso que fui infeliz em um ‘pedacinho’ do clipe. […] A minha intenção foi só pregar a palavra e levar a palavra de Jesus Cristo”, diz o pastor.

Apesar do vídeo ter sido apagado em outras plataformas, até o fechamento da matéria, o conteúdo continua disponível na rede social do pastor no Kwai. A Alma Preta não conseguiu contato com o pastor evangélico.

Para Alan Oliveira, a música é um desrespeito às comunidades de matriz africana e representa o avanço do cenário de intolerância religiosa na Bahia.

“Quando ele viu que ia dar visibilidade e ele viu que poderia dar problema a ele — não só eleitoral mas também judicial — ele resolveu se retratar, mas isso não é suficiente. Ele tem que pagar, tem que saber o que é intolerância religiosa, a igreja dele tem que saber”, afirma o comunicador.

Uma das representantes da denúncia, Kota Gandaleci, da Senzala de Nsumbu, aponta que as desculpas não são suficientes para apagar os danos aos povos de axé e que a música é uma representação das violências cotidianas que as comunidades de terreiro sofrem.

“Em pleno século 21, as pessoas não entenderam nada sobre a importância de ter uma cultura de paz, das palavras do próprio Jesus — que eles tanto dizem ser seguidores. […] No entanto, a gente vê essa barbaridade, essa falta de respeito com toda a comunidade de terreiro”, ressalta a líder religiosa.

Gandaleci também destaca que atitudes como essa só reproduzem e incitam os ataques às manifestações religiosas africanas.

“O mundo é grande e há espaço suficiente para a diversidade de pensamentos e credos. Agora assim, não há no mundo espaço para atitudes preconceituosas, discriminatórias, que desumanizam, que causam um genocídio não só físico, mas também cultural e religioso para grupos como as comunidades tradicionais de terreiro”, pontua.

Praticante do candomblé, a co-vereadora e também uma das figuras à frente da denúncia, Gleide Davis (PSOL-BA) aponta que para além desses casos, é preciso revisar as brechas no sistema judiciário que fragilizam a proteção das comunidades tradicionais de religiões africanas.

“Algo que eu percebo é que ainda faltam muitas brechas nas leis que foram criadas em relação à liberdade de expressão e à intolerância religiosa e cabe a nós, enquanto sociedade civil, povo de terreiro, pensar na implementação dessas leis para que essas brechas deixem de ser mascaradas. Se fere um culto, então não há democracia, não há liberdade de expressão”, comenta a parlamentar.

Para ela, as estratégias de proteção também devem ser pensadas sob o viés de combate ao racismo estrutural dentro da própria Justiça.

“A gente precisa pensar nessas ações, pensar justiça, mas também em como essa justiça tem diversas falhas, que também é racista e existem brechas na lei que são propositais. A gente precisa ir criando formas, meios, ações para que a gente vá quebrando gradualmente esse racismo, que é estrutural”, finaliza.

Posicionamento

Em nota, o Ministério Público da Bahia informou que o vídeo já foi retirado do ar e as medidas administrativas e judiciais já foram tomadas “para preservação dos dados referentes à postagem”. O órgão também comunicou que as medidas são sigilosas.

Leia também: Conservadores organizam evento que nega racismo no Brasil: “serviçais da branquitude”, diz Douglas Belchior

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