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Campanha arrecada fundos para viagem de pesquisadores negros a Harvard

Os pesquisadores Ananda Vilela, Inês Borges, Jade Lôbo e Nycolas Candido foram selecionados para o Segundo Encontro Continental de Estudos Afrolatinoamericanos, em Harvard, nos EUA

Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Foto: Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

21 de novembro de 2022

Como forma de arrecadar fundos para participar de um encontro internacional na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos (EUA), quatro pesquisadores negros criaram uma campanha online intitulada “Leve quatro jovens negres para Harvard”.

Ananda Vilela, Inês Borges, Jade Lôbo e Nycolas Candido são estudantes de pós-graduação nas áreas de Ciências Humanas e Sociais e foram selecionados para o Segundo Encontro Continental de Estudos Afrolatinoamericanos, organizado pelo Instituto de Pesquisa Afrolatinoamericana (ALARI) da Universidade de Harvard, em Cambridge, nos EUA.

O evento, que acontece de forma presencial a partir do dia 7 de dezembro, reúne pesquisadores negros, latinos e indígenas e discute perspectivas transversais afro-latino-americana com pesquisas distribuídas em diversos painéis. Os trabalhos de Ananda, Inês, Jade e Nycolas serão apresentados no painel “Raça e racismo nas relações internacionais”.

Natural de Ilhéus, na Bahia, a pesquisadora Jade Lôbo, doutoranda em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora de pesquisa do IDAFRO, contou à Alma Preta Jornalismo que o arrecadado na campanha irá auxiliar nas despesas da viagem, como transporte, estadia, alimentação, hospedagem, entre outros. A estimativa de custo é de quase R$ 60 mil.

Jade Lôbo, que irá apresentar sua pesquisa sobre “Relações Internacionais e Genocídio Negro: Um estudo de caso da Imigração Haitiana”, fala sobre as expectativas de participar do evento e os desafios de ser uma pesquisadora negra dentro das áreas de produção do conhecimento no Brasil.

“É um sonho e, ao mesmo tempo, um grande desafio porque enquanto intelectuais negros nós somos extremamente desrespeitados, descredibilizados pelas nossas instituições de ensino, sofremos racismo de professores e colegas. Diversas vezes ouvimos pesquisadores negros escrevendo sobre sua negritude, sobre a sua própria cultura e religião seria de fato acadêmico”, aponta a pesquisadora.

Para Lôbo, participar do evento como um dos pesquisadores representa a construção de um futuro por pessoas negras. “Ver o nosso trabalho ter esse tipo de alcance e credibilidade mostra a possibilidade de um futuro negro porque nós estaremos debatendo possibilidades de pensar esse futuro também”, completa.

Nycolas Candido, mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e monitor voluntário no projeto educacional Preparatório Comunitário Paulo Freire, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, fala sobre a importância de construir pontes para fortalecer a presença de pessoas negras no campo científico.

“A nossa intervenção nesses espaços precisa ser não só para dizer que nós também podemos, mas que nós podemos ocupar os lugares que dizem o que é legítimo ou não para poder mostrar que as nossas formas de legitimidade também tem que disputar espaço. Por isso, eu acho essencial construir pontes para que esse tipo de ocupação seja possível”, comenta.

Segundo a doutoranda e mestre em Relações Internacionais, Ananda Vilela, a presença de pesquisadores negros é, para além de alterar o perfil de quem compõe as salas de aula, modificar os conteúdos produzidos dentro desses espaços.

A pesquisadora utiliza o termo “forasteiras de dentro”, cunhado pela professora e pesquisadora norte-americana Patricia Hill Collins, para falar sobre as barreiras impostas à população negra dentro da academia.

“O conceito apresenta a ideia de que somos ‘outsiders’ dentro da academia. ‘Outsiders’ porque o espaço não foi construído para nós, mas estamos dentro trazendo perspectivas para além do mundo brancocêntrico, permeado agora pelas nossas vivências e experiências enquanto pessoas negras no mundo. Temos a possibilidade de construir conhecimento a partir das nossas cosmopercepções do mundo, e demonstrar que esse lugar também é nosso”, destaca Vilela.

Já a administradora e mestranda em Economia do Desenvolvimento pela PUC-RS, Inês Borges, questiona as desigualdades em relação ao incentivo científico voltado para pessoas negras. Para ela, a campanha visa a possibilidade de novas perspectivas de produção.

“Um outro ponto importante para a reflexão é o quanto a política de cotas é questionada. Essa política visa quebrar uma barreira de acesso construída historicamente por uma história escravocrata. Por que as políticas de incentivo como as bolsas da CNPQ não são questionadas? Quem são as pessoas agraciadas com essa bolsa? Qual é o recorte da sociedade incentivado a estudar?”, questiona a pesquisadora.

“É desse lugar de incentivo que buscamos este financiamento coletivo e principalmente porque não é inteligente pensar o Brasil majoritariamente sobre o prisma de um recorte social”, completa Inês Borges, que estuda a temática de Desigualdades Digitais.

Conheça a trajetória profissional dos pesquisadores que fazem parte da campanha:

Ananda Vilela

Ananda VilelaAnanda Vilela | Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Doutoranda e mestre em RI pelo Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio. Bolsista Faperj Doutorado Nota 10 com a pesquisa “Amefricanizando o internacional: rupturas afrodiaspóricas à lógica moderno/colonial” em que investiga a contribuição de Lélia Gonzalez e Abdias Nascimento para a construção da área de RI. Faz parte do grupo de pesquisa ¡DALE! – Decolonizar a América Latina e seus Espaços e do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos de Gênero e Raça – NEGRA. Tem como área de interesse estudos sobre raça e racismo, decolonialidades, pós-colonialidades, teoria de relações internacionais, descolonização da produção de conhecimento e interseccionalidades.

Inês Borges

Inês BorgesInês Borges | Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Administradora, especialista em transformação digital, possui 13 anos de experiência no mercado de Saúde Suplementar. Hoje atua em projeto de impacto social e é fundadora da D9656. Tem formação específica para desenvolvimento de Lideranças Negras e Combate a Desigualdade de Gênero. Mestranda em Economia do Desenvolvimento pela PUC-RS e estuda a temática de Desigualdades Digitais: A influência dos Fatores Socioeconômicos no Processo de Inclusão Digital.

Jade Lôbo

Jade lobo siteJade Lôbo | Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Coordenadora de Pesquisa do IDAFRO. Doutoranda em Antropologia Social na UFSC, foi schorlaship student no Afro-Latin American Research Institute at Harvard University adquirindo o Certificado em Estudos Afro-latino-americanos. Tem experiência na área de Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, atuando principalmente nos seguintes temas: relações étnico-raciais, maternidades negras, povos tradicionais, desigualdade de gênero, afroperspectivismo, contra-colonização e cosmopolíticas afroindígenas. Autora do livro: “Para Além da Imigração Haitiana: Racismo e Patriarcado como Sistema Internacional”. Editora e Coordenadora da Revista Odù: Contracolonialidade e Oralitura. Pesquisadora-escritora convidada pela Faculdade Direito da Oxford University: Border Criminologies Faculty of Law University of Oxford

Nycolas Candido

Nycolas CandidoNycolas Candido | Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Mestre em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio, sendo aprovado em primeiro lugar no processo seletivo realizado pela instituição em 2019. Bacharel com dignidade acadêmica em Relações Internacionais pelo IRID/UFRJ. Autor do capítulo “Um Ensaio Impossível”, publicado no 3º volume do livro “Metodologia e Relações Internacionais: debates contemporâneos” da Editora PUC-Rio. Participou do projeto educacional Preparatório Comunitário Paulo Freire, localizado em Belford Roxo, Rio de Janeiro, como monitor voluntário. Ele desenvolve pesquisa nas áreas de: Educação-Pedagogia, Produção de Conhecimento, Economia Política Internacional e Segurança Internacional.

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