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Dez contos de autores negros para você conhecer

17 de julho de 2020

Entre as obras estão textos de Abílio Ferreira, Conceição Evaristo, Lia Vieira, Fabio Mandingo, Nei Lopes e Raquel Almeida

Texto: Akins Kintê | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução

O poeta Akins Kintê selecionou para o Alma Preta dez contos escritos por autores negros e que fazem parte da sua biblioteca pessoal. Entre as obras, estão textos de Abílio Ferreira, Conceição Evaristo, Lia Vieira, Fabio Mandingo, Nei Lopes e Raquel Almeida. Confira:

1 – “Sob a alvura das pálpebras”

De autoria de Cuti e publicado no livro Quizila, de 1987, é um texto que eu decorei e gosto de recitar nos saraus. Ao meu ver tem ritmo e musicalidade na trama “Meu avô me disse que matasse a princesa”. Na história, o personagem mata a princesa e voltando para o “quilombo do meu avô, o coração de nós todos, um pouco acima da barriga e do lado esquerdo sempre” vive uma aventura, cobrado pelos que bajulam a princesa e perseguido pelos traidores.

2 – “Ana Davenga”

O conto é de autoria da brilhante Conceição Evaristo e foi publicado no livro Olhos D’Água, de 2017, e também no Volume 18 dos Cadernos Negros. Spike Lee precisa urgentemente ler esse conto, nas beiradas de campo, nos bailes, eu gosto muito de ler para a rapaziada, esse Davenga é um pouco dos nossos caras, rápido a gente se vê no personagem e o ambiente também é presente em nós. É a rua, o samba, o corre, a luta, o amor, o gozo/choro de Davenga, o drama de Ana Davenga. Já aviso, é um conto forte, tem treta tensa.

3 – “Latasha”

Escrito por Raquel Almeida, o texto faz parte do livro Contos de Yônu, de 2019. É lindo de ler. “Latasha” quer dizer “surpresa”. Na história, existe um casal que se aventurou a morar onde não mora ninguém, onde o transporte público é osso e subir o morro é árduo. Você vai se identificar com esse conto, com as tretas do casal, os momentos bons cantarolando o samba até chegar em casa. É um conto cheio de ternura e mágoa porque se relacionar é mil grau mesmo e o conto traz um desfecho que… Latasha… tem que lê, pelamô.

4 – “A torcida que levanta, derruba”

Allan da Rosa escreveu esse conto para o livro Reza de Mãe, de 2016. Nós que estamos morrendo de saudade da beira campo, em tempos de pandemia, ler essa prosa de da Rosa é sentir a saudade bagunçando o meio campo do peito, e a zaga essa face, periga deixar escorrer umas lágrimas, não tem a ver com entregar o jogo, é que o conto que o Allan nos conta traz não só essa guerra maravilhosa de uns 70 minutos, mas tem a gana da beira de campo, da torcida, da disputa do Cantagalo X Chaparral e treta no coração do Riva, se pá jogando por um amor, contra um ex-amor. Vai lendo. Allan “deitou” nessa escrita, como a gente gosta de falar do varzeano que joga muito.

5 – “Meu encontro com John Coltrane”

Esse conto de Lia Vieira está no Volume 42 dos Cadernos Negros, de 2019. Sou suspeito pra falar sobre essa autora, os contos dela nos Cadernos Negros anteriores e o livro “Só as mulheres sangram” é de uma elegância maravilhosa. Navegar por seus escritos é subir morro, entrar em cadeia, ir na escola de samba, sua prosa traz amor, denúncia e nesse encontro com o jazzista John Coltrane, passeamos com ela em Manhattan, Nova York. No clube Village intimista, ela consegue concentrar sua atenção no diálogo do Coltrane com o sax, fazendo isso inspirou o sopro do tocador, e por que não um café após apresentação? Se estender na noite, ao som de discos de jazz, e um papo delicioso nesse encontro.

6- “Ojuoyin”

De autoria de Fábio Mandingo, o conto faz parte do livro Morte e vida Virgulina, de 2013. Vai vendo esse diálogo:

“- Mas você ia largar a faculdade?
– Pós-Graduação.
– Hum, como eu tô atrasado, nem vestibular fiz ainda…
– É vocês tão sempre atrasados.
– ?
– Os homens negros. Nós mulheres negras sempre vamos na frente”.

O conto todo, se você perceber, tem essa ginga da capoeira, não só a musicalidade, mas o jogo angoleiro. Quando você for ler, deixa o ritmo do berimbau adentrar seu peito, corra os olhos palavra a palavra na intenção da ginga que o mandingo, mandingueiro sugere.

7 – “O último ensaio antes da estreia”

Escrito por Cristianne Sobral, no livro Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção, de 2011, é un ensaio tenso, porque a estreia você sabe, pode ser a última de sua vida, pode ser que se acendam as luzes da ribalta, e na platéia ninguém note sua ausência. “Interpretava o texto farmacêutico a moda textocentrista: sem uso de expressões mais consistentes, nem muitos gestos, em tom declamatório.”

A Cristiane Sobral traz no conto o drama de uma mulher negra que no seu último ensaio vive a intensidade da entrega para o espetáculo. Pelo que lemos, não tem como voltar atrás! É dali pra dura e real apresentação. A vida é um sopro, a arte também é um sopro e o último ensaio também um sopro e, quando lemos o conto, esse sopro se eterniza.

8 – “Disritmia”

De Elizandra Souza, no livro Filha do Fogo: 12 Contos de Amor e Cura, de 2020. Zaji é a personagem que na dança, no andar de bicicleta e mesmo “na fase de abrir suas pétalas, ela insistia em continuar apenas botão, entregando-se somente os chamegos dos orvalhos que secavam ao amanhecer”. Elizandra traz uma prosa linda de ler, essa personagem mulher, que ela desenha no texto, busca passo a passo se soltar ao vento, a música da vida. Elizandra é poeta nata nos saraus e nesse lindo conto conseguiu depositar a sensibilidade da sua poesia.

9 – “Sujeito homem”

Esse conto é de autoria de Nei Lopes, na obra 20 Contos e Uns Trocados, de 2006. A primeira vez que li essa história foi naquela antologia Terras de Palavras. Fui tirando foto e mandando o texto para um malandro do bairro Eliza Maria, ele chapou no texto também, trocamos mil idéia sobre samba, sobre a malandragem dentro do universo desses becos e vielas. “Meu filho era sujeito homem, acabaram com seu corpo, mas a alma continua de pé, olhando pelo morro.” É assim que o Nei começa o conto, que no faz subir o morro com ele, entrar em escola de samba e debater mil problemática da vida.

10 – “Doda”

Escrito por Abilio Ferreira e publicado no Volume 10 dos Cadernos Negros, em 1987, o conto se passa no Bexiga, em alguns dias que antecede o carnaval. Doda, sendo torturada periga nem desfilar. Ela é filha da Bela Vista. E no carnaval, a gente sabe, vale tudo. Nessa trama, Abilio constrói um universo peculiar do mundo da rua do samba, o destaque que ele dá pra Doda, nesse desfile que é a vida, é de grande magnitude. Para a gente que é do universo dos carnavais, ligado nas ruas e contra as torturas desgracentas da polícia, se identifica do início ao fim. Ainda quero ler esse texto lá na frente da Vai-Vai. Tem tudo a ver com samba, negritude e literatura.

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