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É preciso voltar para a base e dialogar com o povo pobre e negro, afirmam ativistas

6 de dezembro de 2018

Principal tarefa posta para o movimento negro no próximo período é a maior aproximação com as bases sociais; ativistas também apontam outros desafios, como acompanhar a política institucional e participar das frentes democráticas

Texto / Pedro Borges
Imagem / Reprodução

O que a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para presidência da república e a vitória de governos estaduais com discursos conservadores, caso de São Paulo com João Dória (PSDB) e o Rio de Janeiro com Wilson Witzel (PSC), vão exigir da comunidade e do movimento negro? Para ativistas e intelectuais, as primeiras tarefas são entender a atual conjuntura e se reaproximar das bases sociais.

“É preciso fazer a recomposição do campo, entender o que houve e fazer o debate”, afirma Simone Nascimento, integrante do coletivo RUA – Juventude Anticapitalista.

Chefe do departamento de jornalismo da USP e integrante da Rede Antirracista Quilombação, Dennis de Oliveira acredita que depois da análise feita é necessário que os movimentos sociais, em especial o negro, se aproximem mais das bases sociais.

“A gente perdeu o debate ideológico, boa parte da população periférica votou na direita, e isso indica uma perda da nossa relação com o povo da periferia. É necessário que a gente retome as bases”.

A cidade de São Paulo, que registrou vitória de Bolsonaro (60,38%) sobre Haddad (39,62%), é um bom exemplo dessa situação. Apesar do professor ter superado o militar nas regiões mais periféricas e negras da cidade, Bolsonaro conseguiu votação expressiva nesses bairros.

Em Parelheiros, Haddad fez 55,5% contra 44,5% de Bolsonaro, números que se repetiram em Cidade Tiradentes, com 55,7% do professor contra 44,24% do militar. Em Piraporinha, pertencente à subprefeitura de M’Boi Mirim, Haddad também prevaleceu com 57,3% dos votos, enquanto Bolsonaro atingiu 42,63%.

Esses são os distritos mais negros da cidade, levando-se em conta os autodeclarados pretos e pardos: Parelheiros (57,1%), M’Boi Mirim (56%) e Cidade Tiradentes (55,4%). Os dados são resultado de uma pesquisa feita pela extinta Secretaria Municipal de Igualdade Racial (SMPIR) publicada em 2015 com base no Censo do IBGE de 2010.

Douglas Belchior, um dos coordenadores da Uneafro-Brasil, organização de cursinhos populares com 30 sedes pelo país, concorda com a necessidade de dialogar de maneira mais contundente com as periferias.

“A tarefa número é organizar dentro de casa, construir as pontes e as alianças nos territórios. É preciso reunir tudo o que vem acontecendo de pujante, de criativo, de resistência preta nas periferias”.

Outros desafios

O mais importante dos desafios colocados ao movimento negro, segundo Jupiara Castro, uma das fundadoras do Núcleo de Consciência Negra, localizado na USP, é a garantia da vida de pretos e pardos, principais alvos da violência urbana no Brasil.

“O desafio que está colocado para nós nesse período, que já se iniciou, é a preservação de direitos e da vida. Muito mais a preservação da vida, ainda mais quando estamos ameaçados de sermos executados e com permissão declarada do Estado”.

De acordo com dados do Atlas da Violência 2018, desenvolvido pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e FGV (Fundação Getúlio Vargas), houve 62.517 homicídios em 2016, o equivalente a 30,3 mortes a cada 100 mil habitantes. Desses, 71,5% eram negros.

Douglas Belchior também acredita ser necessário acompanhar o cenário político de perto no ano que vem. É nas esferas de poder do Executivo e Legislativo onde serão decididas medidas como a liberação do porte de armas, projeto que impacta de maneira direta a vida da população negra.

“É preciso acompanhar a política institucional, o que vai acontecer na ALESP, sobretudo em Brasília, porque eles vão vir cima para acabar com os nossos direitos”.

Dados do Mapa da Violência de 2015 apresentam que, das 39.686 vítimas de armas de fogo no país, 28.946 eram negros e 10.632, brancos

Impedir a aprovação de propostas conservadoras como a liberação do porte de armas não é uma pauta restrita ao movimento negro. O professor Dennis de Oliveira acredita ser fundamental o campo antirracista participar das frentes democráticas e ter maior êxito nas propostas que defende.

“É importante participar com força na frente democrática e lutar com força contra o fascismo. A tendência agora para os próximos quatro anos é a gente ter retrocesso de direitos”.

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