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“É urgente encarar a cidade a partir do racismo estrutural”, diz coletivo de arquitetas

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25 de agosto de 2018

Em entrevista ao Alma Preta, o grupo Arquitetas Negras fala sobre o modus operandi excludente na estrutura dos grandes centros urbanos e como essa estrutura mantém pessoas negras e periféricas afastadas das áreas centrais

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Texto / Thalyta Martins
Imagem / Rovena Rosa / Agência Brasil

O Alma Preta publicou esta semana a reportagem “Direito à cidade ainda é um privilégio”, que retrata a estrutura excludente por meio da qual pessoas negras e moradoras de regiões periféricas têm acesso dificultado às áreas centrais de cidades, como é o caso de São Paulo.

A equipe de reportagem entrevistou Gabriela de Matos e Bárbara Oliveira, do grupo Arquitetas Negras para falar a respeito do tema, sobre aspectos subliminares que reforçam a estrutura excludente e sobre o que pode ser feito para democratizar o acesso à cidade e para melhorar a infraestrutura em bairros periféricos.

Confira a entrevista a seguir.

Alma Preta: A dinâmica das cidades funciona para todos?

Arquitetas Negras: Não. O funcionamento das cidades está diretamente condicionado às desigualdades socioeconômicas, vindas de herança histórica escravocrata bastante forte. As maiores cidades brasileiras, por exemplo, apresentam cenários mais controversos e excludentes, o que deixa a questão “cidade para quem?” permeando as mentes que buscam entender e ajudar a solucionar esses problemas urbanos. É fundamental abrir o questionamento sobre para quem a cidade está voltada, uma vez que:

“A arquitetura, o urbanismo e o paisagismo são os fenômenos que exprimem de modo emblemático as encruzilhadas em que as sociedades contemporâneas se encontram: […] as cidades como cenários privilegiados, dinâmicos e energéticos, onde os conflitos e o caos atuais se manifestam, mas também dotadas de grandes possibilidades de melhora e de transformação[…]. É por isso que sociólogos, antropólogos, geógrafos, biólogos, economistas, pensadores, artistas e críticos literários vêm tomando a arquitetura e a cidade como referência privilegiada de suas reflexões e interpretações.” (MONTANER, Josep Maria. MUXI, Zaida. Arquitetura e política, ensaios para mundos alternativos. São Paulo, 2014. p. 41).

É crucial fazer a leitura de que 70,8% das pessoas em situação de extrema pobreza no Brasil são negras, de acordo com o relatório de 2016 da ONU. Então, a discussão sobre o funcionamento das cidades, no sentido democrático e justo, não deve deixar de lado questões de classe, de gênero e, principalmente, de raça.

Dentro deste panorama é preciso entender a importância de quem trabalha com planejamento urbano, arquitetura e gestão de políticas públicas, já que são campos que não estão dissociados:

“…Se a política é a organização social de um grupo que se desenvolve em um espaço, o lugar no qual esse espaço é criado será integrador ou segregador, inclusivo ou excludente, estará orientado de acordo com a aspiração à redistribuição da qualidade de vida ou com a perpetuação da exclusão e do domínio dos poderes. É por isso que a arquitetura é sempre política.” (MONTANER, Josep Maria. MUXI, Zaida. Arquitetura e política, ensaios para mundos alternativos. São Paulo, 2014. p.65-66).

AP: Como essa dinâmica atinge pessoas com menor poder aquisitivo?

AN: A dinâmica excludente, vista na maior parte das cidades brasileiras, fica ilustrada, por exemplo, por meio do desequilíbrio na promoção de infraestruturas, uma vez que as periferias não recebem o mesmo tratamento das áreas consideradas “nobres”. É possível ver bairros abastados que recebem, por exemplo, iluminação pública periodicamente revisada, enquanto outros sofrem na escuridão. Criando áreas segregadas, reforçadas também pelo sistema de segurança pública, que é pautado no racismo para delimitar quem é ‘ameaça’ de quem é “cidadão de bem”, já que um homem negro da periferia não conseguirá percorrer pelas ruas da mesma forma que um homem branco de classe média, aos olhos deste sistema e de toda a sociedade do contexto.

De acordo com Montaner e Muxi (2014), considerando também o crescente movimento de fronteiras urbanas criadas por ricos, isto é, o desenho de urbanização fechada que surge a partir de justificativa de promover mais “segurança” por meio do isolamento de classes sociais privilegiadas, controlando e limitando a permeabilidade de cidadãos mais pobres.

Como no caso de Alphaville, em São Paulo, é possível ver um exemplar urbano que vai contra ao compromisso internacional dos direitos humanos de 1948. Até alguns espaços públicos de lazer não foram devidamente pensados para atender e integrar a variedade de classes sociais. Muitos passam pela ótica cada vez mais estigmatizada de serem espaços marginalizados, sem a oferta de usos mistos que promovem uma maior vitalidade. Outros já são mais voltados para grupos com maior poder aquisitivo, reforçando uma forte hierarquia espacial.

AP: As grandes cidades têm dinâmica de transporte muito grande entre centro e periferia. Quando o acesso ao centro é permitido aos grupos marginalizados?

AN: O sistema de transporte público evidencia também tais exclusões na malha urbana, pois é pensado para criar dificuldades na entrada de grupos sociais menos favorecidos em bairros mais ricos, considerando também a péssima qualidade dos coletivos, em detrimento dos altos valores das tarifas. Levantam e reforçam barreiras, criando zonas segregadas, habitado por pessoas com perspectivas pautadas na discriminação social e racial.

Para sair de zonas periféricas mais afastadas até o centro, muitas pessoas precisam, diariamente, para trabalhar, enfrentar longas jornadas em até mais de um ônibus (muitas vezes lotados em horários de pico), e também integrando com outros modais, como o metrô. A permissão para a entrada nestas zonas segue ao cumprimento, na maioria, de funções vinculadas à forte herança histórica escravocrata. É muito comum, por exemplo, ver mulheres negras periféricas saindo cedo de suas casas para o trabalho no centro histórico ou em bairros mais privilegiados, cumprindo papéis de serviço, como diaristas ou babás, retornando já durante a noite, cansadas, muitas até abdicando da criação de seus próprios filhos pela sobrevivência.

Este fluxo fica mais restrito quando os moradores da periferia pensam em lazer: desprovidos de espaços de permanência e equipamentos de esportes de qualidade nas proximidades, quando pensam no deslocamento para outros bairros que possuem parques e praças, sentem a dificuldade ao enfrentar mais de um coletivo para ir e voltar. O próprio sistema de mobilidade desestimula a locomoção para outros fins além do trabalho, já visando manter grupos propositalmente separados.

AP: Qual o papel do racismo na construção desta dinâmica?

AN: Este sistema de opressão estrutura diretamente a dinâmica urbana das cidades, uma vez que como herança de um processo histórico que durou quase quatro séculos e que explorou por meio da escravidão de milhões de pessoas negras, sem a devida reparação profunda e adequada, culmina nas feridas sociais, econômicas e políticas abertas notadas até hoje em todas as escalas que compõem a cidade.

A lógica da casa grande e da senzala foi ampliada e reconfigurada no desenho contemporâneo que promove zonas privilegiadas para uns e as sobras para outros:

“Uma indicação de como os valores da casa grande, inculcados na vida brasileira, se perpetuam, isto é, de como a paisagem social brasileira ainda se organiza em torno da casa grande, aparece, por exemplo, nas expressões “meninos de rua”, “moradores de rua”, etc., largamente empregada no Brasil contemporâneo. A rua é, nesse sentido, o espaço que resta, que sobra, para aqueles que são marginalizados pela sociedade brasileira. É, pois, o espaço do desprestígio, do que anotem lugar, dos que nascem é vivem socialmente bastardos.” (LEITÃO, Lúcia. Quando o Ambiente é hostil. UFPE. 2009. p. 43)

Do passado colonial para os moldes urbanos no século XX – e que se faz bastante atual, podemos destacar, então, os escritos de Carolina de Jesus, que conseguiu ilustrar a desigualdade dentro da cidade de São Paulo entre os anos 1950 e 1960, com bastante propriedade, no livro “Quarto de Despejo”, nome que faz menção de forma metafórica a favela como o cômodo em questão.

“Às oito e meia da noite, eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com barro podre. Quando estou na cidade, tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de ‘viludo’, almofadas de ‘sitim’. É quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.” (JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo. 1960. p. 33)

Por fim, é urgente encarar a cidade a partir do racismo estrutural, para realmente superar as limitações correntes e promover cidades mais integradas. Existe um abismo entre o direito à cidade e a vivência no cenário urbano entre diversos grupos, que é visto nas promoções desequilibradas de espaços e serviços de qualidade para todos e todas. É preciso de imediato descolonizar a gestão urbana para atender às demandas de um modo mais abrangente e democrático.

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