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Empreendedoras negras se reinventam diante da pandemia

Em meio a crise sanitária que acentuou a instabilidade econômica, empreendedoras de Pernambuco falam sobre como estão driblando as dificuldades para garantir a sobrevivência e criar novas estratégias para os seus negócios

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagens: Stúdio Maíra Lourenço e Poli Cozinha 

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31 de março de 2021

Em meio a instabilidade econômica acentuada pela pandemia da COVID-19, há mais de um ano pessoas autônomas e microempreendedoras tiveram que criar mecanismos e pensar novas estratégias para não verem as portas de seus negócios fecharem definitivamente. O mês de Março, que nas previsões socioeconômicas mais positivas teria um cenário de redução da crise sanitária, com o agravamento dos casos, se revelou como o período mais desafiador para quem sobrevive de seu próprio negócio. Para mulheres negras, que não contam com tanto capital, o momento tem sido de pensar novos caminhos.

Com base nos dados do Expresso Empreendedor, órgão que cuida exclusivamente da formalização necessária e evolução de pequenos negócios em Pernambuco, no ano passado, o estado já totalizava o montante de 348 mil microempreendedores regularizados. A estatística também aponta que cerca de 3 mil pequenos negócios foram abertos nos meses que a pandemia, de fato, chegou na região, o que indica uma reação popular diante da redução de empregos formais e os percalços causados pelas medidas restritivas instauradas mundialmente. 

Ter autonomia sobre a receita gerada mês a mês requer muito foco e criatividade para driblar as dificuldades no cenário atual e não desistir, principalmente quando se coloca em cheque a questão racial. É o que afirma a esteticista e trancista recifense Maíra Lourenço, 24, que abriu seu negócio há pouco mais de três anos e, no ano passado, pelos apelos de distanciamento social e o aumento de número de casos de pessoas infectadas na capital e Região Metropolitana, viu o seu centro de beleza, recém aberto, fechar as portas. 

“A pandemia afetou muito a minha área, sendo muito prejudicial. O que aconteceu com meu espaço de trabalho físico firmou o quanto me desestabilizou financeiramente. Nesse meio tempo de perder algo que eu havia investido bastante, entendi que não podia sofrer por muito tempo com essa frustração. A solução foi, com todos os cuidados necessários, passar a atender em casa e me descobrir de outras formas, como me reinventar na internet, que tomou uma proporção muito maior no comércio, nessa época que não podemos sair de casa. Me adaptei para trazer o meu negócio para o on-line e levei, por exemplo, workshops de aprendizagem de técnicas, e eu aumentei o fluxo de conteúdo para fortalecer o meu trabalho”, revela a microempreendedora. 

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“A mulher preta naturalmente é uma grande empreendedora”, afirma a trancista e esteticista Maíra Lourenço

Maíra ainda relembra e ressalta o porquê do ingresso ao empreendedorismo, mesmo antes da pandemia. Ela revela que, mesmo com formação necessária para conseguir emprego na área administrativa, só viu oportunidade de trabalho uma única vez, quando passou no processo seletivo para ser operadora de telemarketing. 

“A mulher preta naturalmente é uma grande empreendedora. Essa visão de mercado de trabalho traz uma perspectiva muito reduzida para nós. Mesmo tendo curso e qualificação para outras oportunidades melhores de trabalho, não me foi aberto esse espaço para ser contratada e me desenvolver profissionalmente. Não só comigo isso acontece, com outras tantas mulheres. Muitas vezes entramos nesse ramo por precisarmos disso, por tudo, desde o básico, girar em torno de ter renda, ter dinheiro. Por isso continuo tocando meu negócio e, mesmo em meio ao caos e as notícias diárias, busco me refazer sempre”, defende. 

Os desafios também têm sido encarados com muita resiliência pela culinarista afro-brasileira, criativa e regional Pollyana Santos, 41, responsável pelo empreendimento ‘Poli Cozinha’, que passou a fazer entregas das refeições de autoria própria com o seu espaço físico fechado para consumo no local. A empreendedora afirma ter tido que enxugar gastos e procurar uma outra casa, onde pudesse morar e atender a demanda de sua cozinha que já estava aberta há 9 anos no Recife. 

“Nessa segunda onda da pandemia, tudo parece estar ainda mais difícil. O preço da gasolina subiu esse ano, o gás está altíssimo, o contágio pela COVID-19 se apresenta muito mais violento do que o ano passado, fatores que fortalecem o medo e a insegurança. Para fechar as contas do mês, por exemplo, tive que abrir a campanha ‘Poli Cozinha 10’, para atingir a meta de dez pedidos com um cardápio que tenha mais o gosto dos clientes. Isso foi uma forma de ter segurança para sair em busca e comprar os insumos de forma mais econômica”, pontua a culinarista. 

Sobre a perspectiva de reabertura ou expansão da nova casa, situada em Olinda, Poli afirma não ter capital de giro e critica os auxílios ao comércio através da política de empréstimos viabilizados pelos municípios e o governo estadual. “É bem complicada essa forma de ajuda, principalmente um ano após o início da pandemia aqui. Como é que nós vamos fazer isso sem estarmos ganhando dinheiro e tendo outros compromissos para quitar? Tudo ficou atrasado com esse cenário e o orçamento apertadíssimo”, reflete e conclui. 

Auxílio 

Em anúncio feito na última terça-feira (30), o prefeito do Recife, João Campos (PSB), afirma que a capital vai prestar assistência financeira para pequenos comércios através do Programa Municipal de Crédito Popular. O ‘Cred Pop’, como é chamado, dá a margem de até quatro meses para o início do pagamento do valor repassado, tendo a taxa de 0,99% ao mês e a possibilidade de parcelamento em até 12 vezes. Com isso, os microempreendedores do município poderão ter acesso não a um auxílio, mas, sim, a um cadastro de solicitação de empréstimo, que passará por avaliação, com teto avaliado em até R $3 mil. O governador Paulo Câmara (PSB), também anunciou neste mês uma linha de crédito avaliada em R$50 mil por empresa, recurso viabilizado pela Agência de Empreendedorismo de Pernambuco, a AGE. Diferente do empréstimo da capital, a carência para o início do pagamento do repasse será de seis meses com a possibilidade de parcelamento em 2 anos e meio.

Para Pollyana, no entanto, a notícia não gerou muito ânimo. “A gente precisou muito de ajuda no início da pandemia, quando acumulamos dívida. Agora, um ano depois, eu não me sinto segura para pegar um empréstimo. Quem já tá cheio de dívida vai pagar outra dívida como?, questiona a empreendedora que tem dois filhos para sustentar. 

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