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Entrevista: Luanna Teófilo e o Painel BAP

13 de maio de 2017

Luanna Teófilo conta um pouco de sua trajetória para o Alma Preta e explica em detalhes o trabalho desenvolvido no Painel BAP, painel de consumidores e comunidade voltada a consumidores e empreendedores negros. O projeto pretende ampliar as informações disponíveis sobre consumidores negros e auxiliar empresas a melhorar seus produtor e serviços para essa fatia da população.

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Entrevista / Vinicius Martins
Imagem / Arquivo pessoal/Luanna Teófilo

Primeiro, eu gostaria que você contasse um pouco da sua trajetória e falasse sobre você e suas experiências profissionais.

Eu sou formada em Direito pela Universidade Mackenzie e depois da universidade fui viajar e morar fora do Brasil, onde tive incríveis experiências de vida e as primeiras oportunidades profissionais em empresa digitais. Morando Argentina já há algum tempo, decidi me mudar para França para fazer um Mestrado em Linguística na Universidade Sorbonne, onde me inseri mais profundamente na cultura das startups. Comecei trabalhando com conteúdo e linguística computacional até que me interessei pela área de marketing e negócios digitais.

Mais especificamente, quais motivos te levaram a criar o Painel BAP?

Em 2011 eu me tornei Panel Manager e depois Business Developer de um painel de consumidores em Paris. Foi uma experiência maravilhosa em uma empresa moderna e multicultural onde aprendi muito e me apaixonei pelo negócio. Ao voltar para o Brasil em 2012, comecei a desenvolver uma startup de Desenvolvimento de Negócios chamada Doorbell Ventures e já tinha vontade de criar um painel de consumidores que fosse também uma comunidade. Enquanto trabalha em empresas internacionais, desenvolvi pela Doorbell uma rede de publishers, um e-commerce, entre outras ideias profissionais, criativas e intelectuais.

Depois de algumas experiências mal sucedidas trabalhando no Brasil e cansada do racismo corporativo, decidi que queria trabalhar somente no meu negócio. A gota d’água foi ter sido discriminada, humilhada e despedida de uma empresa multinacional por ter trançado meu cabelo. Decidi que não ía mais desperdiçar meu talento em ambientes tóxicos e preconceituosos e desde então tenho trabalhado com amor e dedicação no desenvolvimento e crescimento do Painel BAP.

Poderia explicar, nas suas palavras no que consiste o Painel?

O Painel BAP é uma plataforma onde pessoas de diferentes perfis participam de pesquisas de mercado remuneradas. Por ser o primeiro painel de consumidores afrobrasileiro, trabalhamos baseados em princípios africanistas que norteiam o modelo de trabalho e organização. A ideia é criar um sistema de prosperidade centralizado nas pesquisas mercadológicas que são ferramentas de marketing e representatividade muito importantes. Fazemos a ponte entre empresas que têm a necessidade de conhecer as demandas de seus clientes, pessoas que querem dar suas opiniões e afroempreendedores que oferecem seus produtos e serviços como recompensa pela participação das pessoas. O Painel BAP representa um sonho coletivo de criar algo que seja nosso e que faça a diferença no mercado e na sociedade.

Qual a importância desse projeto para você? O que almeja alcançar com esse trabalho?

Pessoalmente é a realização de um sonho e uma oportunidade de colocar todo meu talento, educação e experiência em prática longe dos preconceitos corporativos. A missão do Painel é mudar paradigmas de mercado e fortalecer a voz e a representação da comunidade preta de forma sistêmica, além de contribuir com a economia da população afrodescendente fortalecendo a base da nossa riqueza: os afroempreendedores. Um painel de consumidores com a maioria de participantes pretos possibilita que empresas possam saber o que pensam e querem os diversos perfis desta comunidade com tamanho potencial humano e econômico mas subaproveitada por causa do racismo estrutural brasileiro.

De que forma o Painel pode ser usado como ferramenta no combate ao racismo?

Cada vez torna-se mais intenso o crescimento de outros modelos sociais compatíveis com indivíduos e culturas pretas. Empreender não é apenas criar um negócio mas um modelo de sobrevivência e luta contra o racismo diário. Um sistema organizado de prosperidade como se pretende o Painel BAP parte de ideias modernas de sustentabilidade, inclusão, mas mais que tudo é uma forma de desenvolver novos mercados e criarmos modelos empresariais e sociais pretos. Um outro objetivo da Doorbell e do Painel BAP é apoiar projetos educativos e culturais para que possamos nos reeducar sobre nossa cultura, nossa história e pavimentar o caminho para o futuro de forma cada vez mais melaninada.

No site [do Painel BAP], há um link com uma referência à filosifia Ubuntu. Você também diz que pretende criar um sistema de prosperidade baseado nesse princípio. De que forma esse conceito influencia o seu trabalho e o projeto? Poderia falar mais detalhadamente sobre isso?

Ubuntu é mais do que uma filosofia, é uma princípio humanista que se manifesta de diversas formas. Nós, filhos da África, temos Ubuntu correndo em nossas veias, pois sabemos que nossa sobrevivência na terra depende de estamos conectados uns aos outros. Estudando sobre o lado filosófico de Ubuntu,a teoria do “sou porque nós somos”, tive contato com ideias e trabalhos acadêmicos sobre Ubuntu e sua aplicação aos negócios dentro do sistema capitalista e vi que era possível resgatar valores como solidariedade, coletividade, sabedoria ancestral, mesmo dentro de um sistema racista e cruel como vivemos, e como disso depende nossa sobrevivência na Terra. Somos mais fortes quando estamos juntos.

Um modelo de prosperidade sistêmico gera desenvolvimento e emancipação econômica muito importantes para todos os afrodescendentes. Ubuntu é saber que mesmo dentro deste sistema, podemos quebrar a ganância, a mesquinhez, o racismo estrutural através de novas atitudes, e essa será nossa grande vitória. No dia-a-dia no trabalho do Painel, o espírito de cooperação e o modo amoroso e unido como realizamos nosso trabalho e respeitamos a comunidade, clientes e parceiros, é uma grande expressão de Ubuntu.

Quais são os próximos desafios?

Estamos trabalhando para melhorar a experiência de nossos Membros e implantar o marketplace de produtos e serviços pretos em breve. Nosso objetivo é implementar um sistema mais robusto onde haja mais oportunidades de participação para os Membros para gerar um volume de transações que crie de fato um sistema de prosperidade dentro da comunidade preta em escala. A Doorbell já está participando de processos de aceleramento e rodadas de investimentos para startups. Nosso maior diferencial de mercado, além de ser um modelo comprovado,e a felicidade é poder contar com a nossa comunidade e crescermos juntos seguindo o ensinamento dos nossos ancestrais.

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