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“Estava a visão do inferno”, diz policial sobre o Massacre do Carandiru

2 de outubro de 2015

Entrevista: Pedro Borges / Edição de Imagem: Vinicius de Araújo

Policial que participou do massacre do Carandiru conta para o Alma Preta que houve um erro estratégico na operação, “Eu acho que não deveria ter sido a ROTA a entrar primeiro lá”.

Qual era o seu cargo na época? O que aconteceu no dia 2 de outubro de 1992?

Eu era Tenente na época. Eu trabalhava na ROCAM, setor da corporação que faz policiamento nas ruas com motos. Naquele dia, eu estava de viatura quando avisaram que estava acontecendo uma rebelião. Eu fui um dos primeiros a chegar, porque o meu pelotão estava na rua. Os batalhões de choque foram todos, foi a ROTA, Rondas Ostensivas Tobiar de Aguiar, e foi o 2° Batalhão de Choque.

Quando eu cheguei lá, os presos fizeram uma barricada. Hoje em dia não é mais assim, mas o presídio, a segurança externa, era a polícia militar que fazia. Tinha um batalhão destinado só para cuidar da detenção. Então eles estavam lá em volta e os presos já tinham feito uma barricada com fogo na entrada do Pavilhão 9. Estava um fogo muito alto, uma gritaria e eles jogando caco, privada pela janela, estava a visão do inferno.

Estava lá quem comandou, o Coronel Ubiratan, e definiu-se ali que quem ia entrar primeiro. Já tinha o GATE, Grupo de Ações Táticas Especiais, na época, mas a maior parte do efetivo que entrou foi da ROTA. Eu não entrei nessa primeira parte, eu fiquei lá do lado de fora. Houve barulho de tiro, bastante, vários tiros. Os presos então começaram a sair, aqueles que efetivamente não se envolveram no confronto.

Depois disso, eu entrei. Quando eu entrei, não tinha mais tiro, mas estavam lá, vários corpos no chão. O nosso trabalho lá era mais de acompanhar rescaldo. Eram vários corpos no chão, tanto que eles saiam em caminhões de lá para o Instituto de Criminalística, IC.

Eu não presenciei o confronto com tiro, eu não vi, mas eu ouvi falar como foi. Que houve um excesso é visível, você não precisa de uma investigação brilhante para apurar que houve um excesso.

Mas o principal problema que houve ali foi um erro de procedimento. Hoje jamais aconteceria com essa cara de novo. Eu acho que não deveria ter sido a ROTA a entrar primeiro lá. Não cabia a mim decidir, eu era Tenente e estava lá. Não participei desse processo de decisão do por que a ROTA foi primeiro, mas o que você vê que aconteceu depois foi, na minha visão, se tivesse sido o 3° Batalhão de Choque que tivesse entrado primeiro, eu acho que não haveria o número de mortes que houve. Certamente não haveria. A falha que eu acho que ocorreu ali foi no procedimento.

Por que foi decidido isso eu não sei dizer, mas na minha opinião foi uma decisão errada. Acho que foi o principal motivo de ter desencadeado o número de mortes tão grande.

Perícia aponta que a maior parte das mortes aconteceu com tiros no peito e na cabeça, em locais típicos de execução. Mesmo sem ter visto os tiros, quando você entrou, a sensação e as conversas entre os policiais indicavam para a execução dos presos?

Sim, era essa a sensação. Por que assim, os presos não receberam ninguém com flores lá. Foram correndo, foram para cima, tanto que assim, quando eu entrei, tinha óleo nas escadas porque eles devem ter pegado da cozinha. A situação realmente estava feia.

De início os policiais devem ter atirado para se defender quando os presos foram para cima, porque primeiro você está, imagino eu na situação, com pessoas com estiletes e vindo para cima. Você vai atirar. Mas que depois, né? 111 morreram. Será que aqueles 111 foram para cima? Será que houve a necessidade de matar os 111?

Tanto que os corpos que a perícia apurou, está apurado. Tem sinais de execução, e a perícia é uma ciência. Pode não ter chegado a quem executou, mas se chegou num corpo baleado com sinal de execução, isso é materialmente provado, está lá. Não tem como falar que não foi. Como aconteceu, eu não vi, mas que havia sinais de execução, havia. Não há como negar.

Eu acho que o Estado é responsável por quem está preso. Então o Estado não pode confinar pessoas em um lugar, não controlar e depois manda a polícia lá e ter um resultado daquele.

Você acha que houve orientação para essa execução, ou ela foi acontecendo lá dentro?

Não acho que teve orientação. Não dá para saber o que passa na cabeça de cada um, mas eu acho que entrou uma companhia, formada por um capitão e dois pelotões. Cada pelotão tem vinte, vinte e cinco policiais mais ou menos, comandados por um tenente. Então digamos que tenham entrado quatro ou cinco pelotões da ROTA, cada um comandado por um tenente. A partir do momento que o Tenente atirou, ai passa a acontecer mesmo. Fica difícil controlar. Fica impossível. É lógico que eles têm a autoridade deles, mas não dá para ver o que cada um está fazendo, ou o que ele mesmo fez. Ele é o comandante, então, se ele fez alguma coisa, quem está atrás vai no mínimo fazer igual.

Mas que os próprios policiais que entraram podem ter entrado com esse ânimo, podem. Porque é o que eu falo, é difícil numa situação dessa de confronto, você de alguma forma não levar para o pessoal. Você está sendo agredido. Então, que parte dos policiais podem ter ido com esse ânimo sim, agora orientação não.

Você pode descrever como estava o cenário lá dentro? O que te chocou quando você entrou?

Na hora que a gente entrou, a gente estava fazendo rescaldo. A gente ia de cela em cela para esvaziar, tirar os presos e tinha sangue no chão, mas assim, tinha misturado com água, porque eles quebraram canos lá dentro. Então tinham cinco dedos de água misturados com sangue, uma cena dantesca.

Dava até aquela impressão que era só sangue, cenário bem chocante, vários presos mortos no corredor. Tinha um determinado corredor que eram mais, que era difícil até você encontrar um espaço para pisar no chão. Uma cena bem feia e sem luz.

Quando eu fui para lá eram umas 3h da tarde. A hora que teve a primeira entrada mesmo, que teve tiro, eram umas 4h, ou um pouco mais, mas era dia claro. Foi anoitecendo, e a gente entrou no final da tarde. E não tinha luz lá dentro, cortaram luz, então a cena era bem chocante mesmo, muito feia.

Em um andar tinha mais, mas em todos tinham mortos no corredor. Nas celas, a gente encontrava alguns presos vivos, porque o que eu acho que aconteceu, o que eu ouvi, é que alguns presos se trancaram nas celas. Então quem morreu é quem estava fora. O preso, na sua maioria, não queria o confronto, ainda mais quem já estava lá há mais tempo e já tinha presenciado alguma rebelião. Eles sabem como acaba.

Estava há pouco tempo uma controvérsia sobre o uso de bala de borracha. Se na ação do Carandiru tivesse a bala de borracha, muito menos gente teria morrido. Então assim, não tem nada a ver com a história, mas assim, por isso que eu digo, não havia os equipamentos que há hoje, treinamento era diferente, eram outros tempos, mas eu acho que foi principalmente um erro de procedimento. E depois que entra o número de policiais que entrou, num lugar grande, fica difícil controlar.

Nunca tinha acontecido aquilo antes. Por isso que eu te falei que a coisa vai acontecendo, vai tomando um efeito bola de neve. Certamente faltou controle, senão não teria morrido aquele número de pessoas. Não posso falar quem não controlou quem, mas faltou controle para ter acontecido aquilo. Não precisa ser muito inteligente para saber.

O dia 2 de outubro de 1992 ficou marcante para você?

Ficou. Nossa…por tudo o que eu vi lá. Lembro que eu tinha entrado para trabalhar às 7h da manhã e sai às 6h do outro dia, vendo aquela desgraça toda, analisando corpo. Queira ou não, foi uma ação violenta. Até ali você não sabe direito o que aconteceu e o que pode acontecer.

Mesmo depois, você continua lidando com eles lá. É lógico que depois que a gente entrou, eu não vi ato de hostilidade dos presos, até porque eles deviam estar com muito medo. Mas de qualquer maneira era uma situação tensa. Você não sabe o que pode acontecer, você pode estar em uma cela escura, você não sabe quantos tem lá dentro, você pode mandar sair, sai um daqueles que pensa, “ah, já estou aqui mesmo”. Não era impossível um preso que já não estivesse mais suportando a própria vida pensar, “vou, mas vou levar um comigo”. Podia acontecer. A situação era bem tensa.

Mas você tem que fazer o trabalho, você vai e faz. Foi muito cansativo e marcou. Ninguém nunca tinha visto alguma coisa parecida. Choca, choca, não tem jeito, você ver o ser humano naquela condição.

Só de você ir lá, numa visita normal, só para conhecer, era horrível. O cheiro da cozinha era ruim. O lugar que tinha o pior cheiro lá era a cozinha. Só de você ver aquela rotina, já era chocante. Quando eu fiz a visita, já sai deprimido.

Na época não existia avaliação psicológica, mas depois daquilo certamente alguns não dormiram. Eu não fiquei chocado, mas você fica por muito tempo com aquilo na cabeça lembrando. E além de tudo estava escuro, parecia cena de filme de terror.

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