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Janaína Damaceno: Identidade, representação midiática e boxe

24 de novembro de 2016

Entrevista: Pedro Borges / Entrevistada: Janaína Damaceno

Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF/UERJ). Doutora em Antropologia Social (2013) pela USP, Mestre em Educação (2008) e Bacharel em Filosofia (1999) pela Unicamp.

{payplans plan_id=15 SHOW}Realizou o pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, com o projeto “Uma Vida em Arquivos”, cuja temática era a formação de arquivos visuais e audiovisuais de movimentos sociais negros no Brasil, na África do Sul e nos Estados Unidos. Um dos resultados da pesquisa foi a realização do curso de extensão “Cinema Negro, Fotografia e Políticas de Representação”. Em março de 2014, participou das Jornadas Cinematográficas da Mulher Africana de Imagem em Burkina Faso. Em novembro e dezembro de 2014, realizou pesquisas no Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC) de Moçambique e na África do Sul. Desde novembro de 2013 é uma das coordenadoras do Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE).

P: Qual a importância de se ter um ídolo ou um ícone que seja a imagem e semelhança da pessoa? Qual a importância disso para a identidade dos seres humanos?

R: Vivemos numa sociedade de imagens e elas ajudam a construir a ideia que temos de nós mesmos e dos outros. Elas ajudam a construir nossas identidades porque este não é um processo solitário, ele é um processo solidário. O que dizem e como nos representam é central no processo de produção de identidades, e a cultura visual e audiovisual, pela sua centralidade em nossa sociedade, é um dos principais espelhos na construção das identidades sociais e individuais.

Então um ídolo ou ícone são importantes, pois servem de exemplo de conduta e de que é “possível chegar lá”. A questão em relação à representação do negro é mais tensa quando pensamos em relação à infância. Como crianças negras criam noções de si através do que é veiculado nos meios de comunicação? O que a TV diz sobre o que elas são? A TV brasileira, no geral, mostra às crianças e jovens negros que seus corpos e cabelos são abjetos, motivo de graça, de violência, piedade, de subalternidade, de sexualização exarcebada. Mostra para elas que não há muito para ser além disso, o que tem um impacto muito forte, por exemplo, na sua sociabilidade. Pois embora essas crianças vivam seu cotidiano fora dos estereótipos, os outros as tratam como se elas fossem um.

Tenho um exemplo pessoal. Na juventude eu admirava muito a Glória Maria, eu queria ser repórter, queria ser inteligente e bonita como ela mas, via-de-regra, as pessoas me chamavam de Globeleza. E me tratavam como se eu fosse apenas um corpo, sem direito à fala ou à inteligência. Então, a vida acaba sendo uma disputa pra você provar que não é um estereótipo.

P: Qual a importância dos ídolos para negros e negras? Qual a importância para a formação de uma identidade para esses grupos?

R: Mais do que ídolos ou ícones negros, é importante que haja uma maior gama de representação e protagonismo negro para que a escolha sobre um ídolo não seja tão restritiva quanto é hoje no caso de mulheres negras, por exemplo. A Globeleza não pode ser um ídolo para uma criança negra, não pode ser o nosso mais forte modelo de “beleza”, porque junto com ele vem um discurso de objetificação do corpo muito forte.

Sei que é uma oportunidade de trabalho para algumas mulheres, não as critico, mas o efeito “Globeleza” é devastador. Globeleza é um elogio sexual, não é um elogio ligado ao campo da beleza. Se assim fosse, sua aparição não estaria circunscrita ao período do carnaval, bem como não seria a exibição do corpo nu o principal a ser exposto. O que ocorre com as ex-globelezas? Alguma tem algum programa de televisão? Alguma foi integrada à dramaturgia? Devemos perguntar por que o símbolo do carnaval da Rede Globo é uma mulher, por que é negra e por que está nua. Por que há closes de sua genitália, seios e quadril? Isso é algum sinal de reverência à beleza negra? Não. Isso é apenas um modo de reverência a um objeto de consumo rápido, disponível para todos e facilmente descartável após o carnaval. 

Há preocupação em retratar uma beleza negra? Não, há uma preocupação em atender uma demanda do desejo masculino. Caso contrário, as Globelezas seriam porta-bandeiras (vestidas), baianas (vestidas) e outras personagens carnavalescas. Não apareceriam na TV apenas durante o carnaval e seriam integradas como destaque em outros momentos da programação. Mulheres brancas também são tratadas de modo subalterno e sexualizadas, isso é inegável. Mas qual símbolo de beleza feminina branca, de novela é retratada dançante, nua e muda num determinado período do ano?

P: Nos EUA, alguns dos grandes ícones negros eram os boxeadores. Mohammed Ali e Rubin Carter eram os grandes nomes do boxe. Todos, porém, tiveram as suas imagens desconstruídas pela mídia americana. Carter foi injustamente presos e Ali teve a permissão de lutar cassada. Quais são as consequências disso para a identidade do negro?

R: E mesmo assim, Ali foi eleito o atleta do século! Há consequências, pois as questões de representação afetam de fato a vida das pessoas. Mas veja que curioso o caso de Ali, pois ele permanece como um exemplo para todos, principalmente, porque as pessoas reconhecem que houve uma campanha muito forte contra ele na mídia devido às suas convicções políticas. Ninguém se esquece de como foi emocionante ver Ali acendendo a pira das Olimpíadas de Atlanta em 1996. Ele é literalmente um exemplo de luta, a despeito de toda a campanha que a mídia americana tentou contra ele.

Rubin Carter não teve a mesma sorte e sua trajetória é marcada por imensas injustiças. Uma consequência direta é o recado de que você não está pronto, de que ocorra o que ocorrer, não importa quão bom você seja, você vai sempre falhar. É uma pressão muito grande. É uma ideia de que não adianta você se esforçar porque no final você vai falhar. É como se o negro não estivesse preparado psicologicamente para “dar certo”. Há um adágio no Brasil para esta ideia. Bom, isso reflete uma ideia de que o negro não tem capacidade de gerenciar a sua própria vida, de que não é racional, etc.

P: Isso pode ser definido como racismo? Por quê?

R: Sim, isso faz parte de um regime racista de representação que sugere que o negro não pertence ao mundo do pensamento. Por isso eu acho que é importante que haja ídolos e ícones, mas creio que no campo da produção audiovisual é mais importante que as personagens tenham densidade, história e família. 

Não podemos cair, como diz Stuart Hall, na ideia de que os personagens negros tem que ser um modelo de conduta e bondade. O que é necessário é mostrar uma complexidade, profundidade e que os personagens não sejam estereotipados. Modelos adultos de referência são importantes, sobretudo, para as crianças. Mas focar em ídolos pode se tornar uma armadilha.

P: Essas situações acontecem com frequência também no Brasil? Você lembra de alguns exemplos? Como isso se dá aqui?

R: O mais interessante é que isso é construído de modo que, muitas vezes, não conseguimos identificar o racismo. É como se ele fizesse parte de uma mensagem subliminar. É o caso de um comercial como o do Fiat Fiesta Upgrade. 

 O que significa upgrade aqui? A formação de publicitários, cineastas e outros trabalhadores da mídia é lamentável quando se trata da atenção à diversidade. Ela reflete não apenas o meio de onde estas pessoas são oriundas – uma classe média que tem pouco contato com pessoas negras de forma não subalterna – mas também um intenso desejo de continuar reproduzindo isso, visto que raramente encontramos nos currículos dos cursos de comunicação social disciplinas que discutam a temática da diversidade, ou mesmo, da responsabilidade social dos trabalhadores da área de imagem. 

Então eles acabam reproduzindo apenas o mundo que conhecem desde crianças e que exclui aqueles que não são semelhantes a eles. Muitos podem dizer que a sub-representação de negros está ligada apenas ao desejo do empresariado, mas isso é meia verdade. A cultura publicitária brasileira não é muito distinta disso. Embora mais da metade da população seja negra e consuma os produtos que são apresentados nos meios de comunicação, a família ideal ainda é branca, as crianças são brancas e quando aparecem em comerciais, os negros são apenas paisagem. Perceba, por exemplo, que raramente eles têm fala na publicidade brasileira. Isso é escandaloso, principalmente, quando levamos em consideração que as concessões para a televisão são públicas, logo deveriam expressar, mesmo na propaganda, um compromisso com a diversidade brasileira.

Sim, essas situações são frequentes. Em seu aniversário de 150 anos, a Caixa Econômica fez um comercial em que retratava Machado de Assis como um homem branco. Dias depois, devido às denúncias de diversas entidades do movimento negro e da Seppir, eles refizeram o comercial com um homem negro, mas com uma maquiagem que, de certo modo, o embranquecia.

Essa é uma maneira de invisibilizar a presença negra não apenas no audiovisual, mas em nossa história. É como se fosse possível recriar um mundo ideal onde todos os brasileiros são brancos. Esse tipo de representação não é invisibilidade e apagamento, mas um desejo de reconstruir um Brasil branco, mesmo que de forma simbólica. O que quero dizer que isto não é só apagamento do passado, mas uma pretensão, um projeto de futuro. Você me entende? É necessário perguntar quem idealizou e realizou esta propaganda e porque lhe pareceu tão natural fazer o que fez.{/payplans}

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