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Keron Ravach, de 13 anos, é a mais jovem vítima fatal da transfobia no Brasil

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7 de janeiro de 2021

Natural da cidade de Camocim, no interior do Ceará, a adolescente foi morta a socos, pauladas e chutes na primeira segunda-feira de 2021; 14 transexuais foram mortas no estado nordestino somente no último ano

Texto: Victor Lacerda I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução/Internet

Já na primeira semana de 2021, uma menina de apenas 13 anos entrou para o quadro de transfeminicídios no Brasil como a mais jovem vítima de violência. Keron Ravach, natural da cidade de Camocim, no interior do Ceará, foi golpeada com socos e chutes até a morte na madrugada da segunda-feira (4). O corpo da jovem foi encontrado em um terreno baldio no bairro Apossados. Keron faria 14 anos no próximo 28 de janeiro, um dia antes da data em que se celebra o Dia da Visibilidade Trans no país.

De acordo com informações do jornal local O Povo, o delegado que acompanha o caso, Herbert Ponte, titular da Delegacia de Camocim, afirma que o principal suspeito do homícidio é um jovem de 17 anos, apreendido quase um dia depois do crime. Segundo o delegado, o adolescente já apresentava antecedentes de violência dentro da própria casa. Relatos à Polícia Civil asseguraram ao titular que o suspeito já havia tentado matar a própria mãe há alguns meses.

A primeira versão apresentada sobre o transfeminicídio foi que o jovem de 17 anos havia contratado Keron para um programa sexual, mas eles se desentenderam ao finalizar o ato. Em contrapartida, amigos da vítima contaram, que esse não era o estilo de vida levado pela adolescente. Tímida, segundo os colegas mais próximos, conciliava seu tempo entre ir à escola, jogar bola com os colegas e tomar banho de mar. Com aproximadamente 10 irmãos, a jovem havia perdido a mãe vítima de um aneurisma cerebral há quase um ano e sonhava em ser conhecida nas redes sociais.

Em resposta ao jornal, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) do Ceará descartou que o crime tenha ocorrido em razão da orientação sexual da vítima. O caso segue em investigação pela Polícia Civil e foi encaminhado ao Poder Judiciário.

Repercussão

Passando pelo processo de transgenerização, Keron Ravach não foi reconhecida socialmente em nota de pesar da Escola Ensino Fundamental Francisco Ottoni Coelho, localizada no Bairro da Boa Esperança, também em Camocim, onde estudava. A instituição lamentou o falecimento da jovem e diz estar indignada com o caso. “Neste momento de dor e indignação, toda a comunidade escolar se solidariza com os familiares, amigos e colegas e expressa as mais sinceras condolências”, diz o comunicado.

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA) expressou a indignação da instituição contra o crime via redes sociais. “Quem defende a criança LGBTI+? Pessoas interditando os direitos de pessoas trans em defesa ‘da criança’ e enquanto isso a Keron de 13 anos foi torturada e assassinada de forma cruel no Ceará”, afirma a publicação.

A Associação complementou sua posição sobre o caso e abriu para discussão o número de mortes por transfeminicídio no país e suas motivações. “Esse é o e resultado de um cenário que alimenta discursos cissexistas como o da ‘ideologiia de gênero’, dizer que ‘não existem crianças trans’, implementação de políticas lgbtifóbicas, transfobia institucional, disseminação de transfobia nas redes, agenda de ódio anti-trans, aparelhamento de conselhos tutelares, dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, transfobia no ambiente escolar, retrocesso em políticas públicas e na herança do ódio transfóbico passada de geração em geração. São tantas mortes, de tantas formas! Não é só quem aperta o gatilho ou dá a facada!“, reforça o texto.

Transfobia em números

Ao todo, 14 pessoas trans foram mortas no estado cearense em 2020. No ano anterior, o estado ocupou o 2º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans, segundo relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA).

Ainda em novembro do ano passado, a revista Exame divulgou o dossiê Observatório de Assassinatos Trans, que apontava o Brasil como o país que mais mata transsexuais no mundo pelo 12º ano consecutivo.

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