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Lavadeiras negras do Seringal Mirim foram apagadas pelo racismo ambiental

O Seringal Mirim foi uma comunidade formada por mulheres negras e viúvas do Maranhão e do Amazonas, e que sobreviviam da lavagem de roupas para a elite manauara a partir dos anos 1940
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Foto: Reprodução

9 de janeiro de 2023

Antes da desapropriação do terreno, o Seringal Mirim foi um abrigo para o nascimento de manifestações do sincretismo da cultura de matriz africana com símbolos religiosos católicos e indígenas. “É muito triste porque o Seringal Mirim poderia ser o segundo quilombo urbano da cidade de Manaus, a história da população preta se perdeu com a destruição do seringal”, afirma à Amazônia Real a professora, historiadora e feminista Francimar Santos Júnior, mais conhecida como Francy Júnior, neta da lavadeira amazonense Joana Conceição Júnior,  a “Mãe Pequena” ou Dona Jota, que morava próximo ao Seringal Mirim”.

A historiadora afirma que a falta de apoio do poder público à preservação da história e dos costumes da comunidade negra do Seringal Mirim foram atos de racismo ambiental, “uma tentativa de higienizar o espaço retirando quem a sociedade considera inferior”, diz, destacando: “Quando chega o progresso em algumas comunidades, as primeiras pessoas que são levadas são as empobrecidas e as mulheres negras”.

O primeiro território quilombola urbano de Manaus – e o segundo do Brasil – é o Quilombo Barranco de São Benedito, localizado na Praça 14 de Janeiro, no bairro da zona sul de Manaus. O quilombo foi oficializado pela Fundação Palmares em 2014. Segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), os descendentes de Dona Maria Severa Nascimento Fonseca lutaram pelo reconhecimento do território por mais de 100 anos. Leia mais no final deste texto.

Com o governo de Jair Bolsonaro (PL) a situação ficou mais grave para os quilombolas. Segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), 1.796 processos estão aguardando a titulação no Brasil e apenas 19 comunidades quilombolas da Amazônia Legal foram tituladas. No Amazonas, são três quilombos que aguardam pelo reconhecimento do território. Leia a reportagem especial do site Alma Preta, que é parceira da agência Amazônia Real no projeto financiado pelo Programa de Apoio ao Jornalismo (PAJor) da Repórteres Sem Fronteiras.

Do Maranhão para Manaus

Local onde era o Seringal Mirim, hoje uma praça ao lado de uma subestação de energia Local onde era o Seringal Mirim, hoje uma praça ao lado de uma subestação de energia (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O Seringal Mirim foi criado como um campo experimental para ser laboratório a céu aberto para o tratamento da seringueira, árvore de onde é extraído o látex (borracha natural) para os alunos da antiga Universidade do Amazonas, hoje Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em 1923. O projeto foi incentivado pelo proprietário do terreno, o comendador José Cláudio Mesquita.

Segundo Francy Júnior, com a quebra do mercado da borracha (de 1879 a 1945) na Amazônia, o projeto da universidade foi abandonado. Naquela época, Manaus viveu o apogeu da economia do látex. Nos anos 40, ela diz que Helena Cidade Araújo, esposa do político Rui Araújo (1900-1969), trouxe do Maranhão mulheres negras e viúvas e suas famílias para ocupar as casas de madeira do Seringal Mirim. Mas outras mulheres afrodescendentes, que já viviam no Amazonas, também foram viver no seringal. No estado, as pessoas escravizadas foram declaradas livres em 10 de Julho de 1884.

“Elas eram as lavadeiras do Seringal Mirim, que serviam a nata da sociedade: barões da borracha, políticos e empresários amazonenses. No seringal existiam os igarapés do Pico das Águas, do São Jorge e do São Raimundo, que facilitavam a vida não das lavadeiras pretas, mas das pessoas que entregavam as roupas nas trouxas onde elas iam buscar para lavar e engomar”, conta a historiadora.

Francy relata que a mudança dessas mulheres do Maranhão para o seringal em Manaus serviu tanto aos interesses dos “mais endinheirados da cidade” como para a criação de uma forte cultura quilombola urbana em Manaus. “Lá elas se enraizaram e levaram todo aquele acúmulo cultural que elas tinham”, diz.

A professora Francy Júnior no local onde era o Seringal Mirim, hoje uma praça ao lado de uma estação de energia A professora Francy Júnior no local onde era o Seringal Mirim, hoje uma praça ao lado de uma estação de energia (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O Seringal Mirim tornou-se então abrigo para o nascimento de variadas manifestações culturais. “Todas essas manifestações são oriundas da memória e cultura preta. A população preta chega e vem carregada de simbologias e história, e tudo aqui vem sendo transformado. Assim aconteceu com o boi, com as brincadeiras de rua que tínhamos”, explica Francy.

“Lá nasceram danças e brincadeiras de rua, lideradas por essas lavadeiras negras, como o Cordão das Lavadeiras,  que se tornou um bloco de carnaval e, posteriormente, a Dança do Papagaio e as cirandas. Foi criado também no Seringal Mirim o Terreiro de Santa Bárbara, templo de candomblé que resiste no local há pelo menos 114 anos”, diz a historiadora, que destaca a falta de pesquisa sobre a história das mulheres.

“Nós perdemos a memória de todas essas mulheres do Seringal Mirim: Mãe Maria Estrela, a Joana Galante; elas já partiram. Eram elas que tinham essa memória”, diz Francy Júnior.

O legado das mulheres 

Dona Elizabeth Júnior que morou no Seringal Mirim Dona Elizabeth Júnior que morou no Seringal Mirim (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Antonia, Ambrozina, Joana, Maria Estrela, Margarida, Mansur e Mariquinha são os primeiros nomes de algumas das mulheres lavadeiras do Seringal Mirim que estiveram à frente da manutenção de suas tradições e sobrevivem na memória de seus descendentes, como conta Elizabeth Júnior dos Santos, 74 anos, a Dona Beta, filha de Joana da Conceição Júnior e de Veriano Paulo da Silva, o seu Leleca. Ela é sobrinha das lavadeiras Antonia e Maria Estrela,  dona do terreiro do tambor de mina, Santa Bárbara.

Dona Beta lembra dos festivos religiosos da comunidade. “Quando eu era criança adorava frequentar o batuque”, diz sobre o terreiro.

Ela conta que as brincadeiras e as reuniões eram uma forma de lazer para as crianças naquele tempo e se ressente da destruição da memória do seu povo. “Ali é uma história de anos e anos, de mulheres trabalhadoras que criaram seus filhos na base da lavagem de roupa. Essas mulheres criaram e educaram seus filhos sozinhas enquanto trabalhavam”.

Sobrevive na memória de Francy Júnior o senso de comunidade entre as pessoas que ali moravam. “Eu passava por lá e ia parando porque todos se conheciam e eu chamava todas aquelas mulheres lavadeiras de tias. A população preta, quando vivia assim organizadamente, tinha esse cuidado, essa lembrança é muito afetiva para mim”, recorda.

A historiadora destaca a importância do resgate da memória do Seringal Mirim como quilombo urbano de Manaus: “Eu sempre coloco isso porque onde se unia a população preta, se tinha história, se tinha memória, se tinha cultura. Quando trouxeram  a população preta para ser escravizada aqui, trouxeram vários grupos justamente para não se comunicarem por meio da fala, mas se comunicaram por meio das danças, das memórias afetivas e das brincadeiras de terreiro”, conclui Francy Júnior, também militante dos Direitos Humanos e das Mulheres.

Veja a entrevista:

A resistência do terreiro 

Pai Ribamar de Xangô, atual babalorixá do Ilê Axé Opo Mesan Orun do Seringal Mirim Pai Ribamar de Xangô, atual babalorixá do Ilê Axé Opo Mesan Orun do Seringal Mirim (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

No fim dos anos 1970, a área do Seringal Mirim, onde existiam mais de cem árvores de seringueiras (Hevea brasiliensis), foi transformada em reserva fundiária estadual e destinada a instalação do Museu do Seringueiro, projeto que nunca chegou a ser desenvolvido pelo poder público. A exploração imobiliária expulsou aos poucos os moradores da comunidade e foi construída no local a Subestação de Energia do Seringal Mirim da antiga Eletronorte, subsidiária da Eletrobrás.

O Terreiro de Santa Bárbara permanece como um local de resistência fundado em 1908, onde existia o Seringal Mirim. Comprovação da presença de manifestações de origem africana no Amazonas, o terreiro foi liderado primeiramente por mulheres, sendo elas Maria Estrela, Antônia Lobão, Rosa Bahia, Otília Nonato, Quentina, Astrogilda e Leonésia, o grupo que fundou a casa. Hoje o barracão é comandado por Pai Ribamar de Xangô, neto de Otília Nonato, iniciado no candomblé aos 12 anos de idade.

O Terreiro de Santa Barbára carrega a tradição do folclore maranhense, trazido por mulheres e homens negros que se instalaram no Seringal, e se tornou o espaço comum onde os moradores da comunidade podiam celebrar suas crenças. Francy Júnior lembra com carinho o ato de estar no terreiro e ter contato com as mulheres mais velhas de sua geração: “Essa lembrança é muito afetiva para mim, das festas e de estar no terreiro e conhecer as velhas, dançar embaixo das saias delas e tudo mais”.

Os festejos sincretizados obedeciam um calendário anual, repletos de novenas e procissões a santos como São Jorge, Santa Bárbara, São Marçal e São Pedro. Pai Ribamar de Xangô faz questão de reverenciar o papel das mulheres na história do Terreiro Santa Bárbara.

“Quem fez a história daqui foram as mulheres e quem fundou foram elas também, com a ajuda dos homens que mantinham a ordem, faziam a matança e coisas pesadas assim, mas as mulheres fizeram a frente até 1985 no terreiro e de lá pra cá eu assumi”, diz.

Em relação ao preconceito, o pai de santo diz que a comunidade sempre sofreu e foi renegada até mesmo no reconhecimento oficial de sua história, que hoje está retratada apenas em velhas fotografias dos antepassados penduradas em uma parede do templo. “O único memorial que tem aqui são aqueles retratos que nós guardamos. Quando se fala em candomblé e umbanda, as pessoas não olham para a gente com bons olhos, portanto não se preocupam em fazer memorial. A gente tem que fazer o nosso próprio memorial, deixar a memória escrita pelas paredes”.

O primeiro quilombo urbano

Veja a entrevista:

Keilah Fonseca, presidente da Associação Crioula do Barranco de São Benedito, afirma que a comunidade é certificada pela Fundação Palmares e Ministério Público Federal desde 2014 e vivem no território 145 famílias. “Nós temos muito orgulho das mulheres e dos homens que vieram antes para construir nosso Amazonas. Nós tivemos desde quituteiras, lavadeiras, mulheres que foram parteiras e amas de leite. Hoje a nossa comunidade resiste com muita luta contra o preconceito racial, social e econômico para manter suas tradições e nossos festejos folclóricos e carnavalescos, além da procissão de São Benedito, que é um ato ecumêninco que acontece todos os anos na Semana Santa”, afirma. (Colaboraram Kátia Brasil, Cristina Camargo, Iris Brasil e Lívia Lemos) 

A reportagem especial Lavadeiras negras do Seringal Mirim faz parte do projeto Amazônia Negra, Quilombolas e Pessoas Apagadas pela História, uma parceria das mídias independentes Amazônia Real e Alma Preta com apoio do Programa de Apoio ao Jornalismo (PAJor) da Repórteres Sem Fronteiras.

Leia também: Com Bolsonaro na presidência, apenas 19 comunidades quilombolas da Amazônia Legal foram tituladas

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