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Massacre da Candelária

23 de julho de 2015

Texto: Pedro Borges

Dia 23 de julho de 1993.

Não sei há quanto tempo estou aqui. Deitado em um jardim ao lado de outros da pele preta, essa é a única data que me recordo.

Afinal, seja aqui ou ali, pouco importa. Os dias são iguais. As noites também.

E um é idêntico ao outro. Com ou sem luz, não há diferença entre o sol e a lua.

Preciso mesmo sobreviver. Preciso mesmo não sonhar.

Os sonhos atrapalham.

Quero sair daqui e ter filhos. Quero viver muito. Quero passar dos 20 anos.

Mas isso tudo é muito difícil.

A cada grupo de 100 mil jovens com 19 anos, 62,9 são mortos por armas de fogo no Brasil. Aqui, os revólveres mataram 5.068 jovens brancos e outros 17.120 jovens negros.

Sou o alvo favorito.

Mas é melhor nem pensar nisso.

O que sei é que hoje é sexta-feira. O céu preto está pintado pelas estrelas, pelos bares e pelos carros.

A praça está agitada.

A Igreja aponta 11h da noite. Melhor descansar. Melhor fugir do frio e assim acordar amanhã cedo. O pessoal da rua logo nos acode para não atrapalharmos o comércio.

Preciso me deitar no chão sepulto e me libertar. É hora de sonhar, aquecer.

Não! Não creio!

O sonho de hoje me reservou o mesmo do dia-a-dia. Desgraça.

Começo a ter pesadelos. O tremular dos meus olhos me despertam. Não sei mais se sonho. As luzes fortes brilham em minha pele parda.

As luzes continuam estáticas. A desconfiança cresce.

Mas dura pouco.

Homens encapuzados atiram. O disparar dos gatilhos também esclarecem o ambiente. A claridade agora rasga a nossa pele preta.

São 23 horas e 43 minutos. Éramos 70. 8 morreram. Nesses últimos instantes de vida, vejo a minha personalidade se misturar ao chão e formar uma poça.

Uma marca jamais apagada, porém logo esquecida.

Lembrança ao Massacre da Candelária no Rio de Janeiro.

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