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Maurício Pestana: empreendedorismo negro

Imagem: Reprodução/Shutterstock

Foto: Imagem: Reprodução/Shutterstock

6 de dezembro de 2016

Entrevista: Pedro Borges / Entrevistado: Maurício Pestana

Pesquisa Sebrae aponta que, pela primeira vez na história, há mais empreendedores negros do que brancos. Qual o perfil desse empreendedor negro? Qual a diferença entre o atual estágio de empreendedorismo negro e branco?

{payplans plan_id=15 SHOW}Ele é um micro e pequeno empreendedor. É importante ressaltar que há uma diferença entre pequeno e médio e às vezes as pessoas confundem. Não significa que somos a maioria entre os donos de pequenas e médias empresas. O empreendedor é aquele que toca seu próprio negócio ou tem até um funcionário. Ou seja, nós somos a maioria nesta categoria, mas não significa que somos a maioria entre os donos de médias e pequenas empresas. Estamos falando de cabeleireiros, de pessoas que montam uma pequena oficina de costura ou distribuidora de produtos para cabelo, e que muitas vezes precisam se virar sozinhas. Já o empreendedor branco em geral, por ter uma questão econômica e social mais elevada, já começa seu negócio em condição mais favorável e em pouco tempo poderá crescer, contratar funcionários e investir mais. Esta é a grande diferença.

Nos EUA, os empreendedores negros têm peso significativo na economia daquele país. Os EUA são um exemplo a ser seguido nesse caso? O que há de bom e ruim na experiência norte americana de maior envolvimento de negros no mercado?

Antes de compararmos os Estados Unidos com o Brasil, temos que colocar questões históricas, sociais e econômicas em pauta. Em primeiro lugar: os EUA inventaram o capitalismo, ao contrário daqui, onde o sistema é extremamente atrasado e amarrado. Depois, por conta da segregação racial, os negros norte-americanos foram obrigados a criar um mercado praticamente paralelo para poderem sobreviver. E essa diferença cultural, histórica e econômica entre brancos e negros os EUA, acabou contribuindo para o desenvolvimento econômico da população negra. Já no Brasil, isso não acontece. A sociedade brasileira é miscigenada, espalhada e possui outras interfaces raciais que dificultam um maior desenvolvimento dos negros no mercado.

Quais medidas a prefeitura de São Paulo têm tomado para aumentar a inserção do negro no mercado? Quais são os passos futuros a serem tomados?

A Prefeitura, e em especial a SMPIR, tem realizado diversas ações neste sentido. Tanto que uma das metas que tracei, visando contribuir para o desenvolvimento da comunidade negra da cidade, foi construir uma semana inteira de atividades e atrações para comemorar o Dia da Consciência Negra, por meio da contratação de técnicos, produtores, artistas e empreendedores de segmentos historicamente excluídos.

Do ponto de vista mais amplo, a gente teve o SP Diverso, no qual participaram empresas que trabalham com ações afirmativas e políticas de inserção, além daquelas que procuram fazer negócio com grupos historicamente excluídos. Também formamos um comitê na Secretária com executivos de grandes empresas nacionais e multinacionais para discutir iniciativas voltadas à inclusão no negro no mercado de trabalho formal. Fora isso, a própria Prefeitura flexibilizou os processos de licitação de até 80 mil reais para que pequenas e médias empresas pudessem participar da concorrência, isso gerará um fator a mais de oportunidades para os grupos historicamente excluídos.

Acredito que o objetivo para o futuro é fazer com que todas estas ações façam realmente parte da cultura de nossa cidade e da agenda da prefeitura de São Paulo.

Enquanto houve melhoria da renda e da maior inserção do negro no mercado como empreendedor, houve também aumento nas taxas de encarceramento e homicídio desta população. Por quê?

Há um recrudescimento por parte dos mais conservadores, não só no Brasil, mas no mundo, com relação aos negros, estrangeiros e a qualquer pessoa dos grupos ditos historicamente excluídos, que ocupem uma relação de destaque.

A maior presença do negro dentro do mercado enquanto protagonista pode ser uma saída para resolver os grandes problemas da população afrodescendente, como saúde, educação e a preservação da vida?

Não tenha dúvida. A partir do momento em que ocuparmos mais espaço nas universidades, na indústria, comércio e cargos de decisões, a desigualdade tende a reduzir.

Por exemplo, algumas pessoas costumam dizer que o presidente Barack Obama não foi um cara privilegiado pelo sistema de cotas e questionam a necessidade de ações afirmativas para o desenvolvimento da população negra. Pois eu digo que as cotas foram importantes, sim. Quando ele chegou à Presidência o povo norte-americano já estava acostumado a ver presidentes de empresas negros, reitores de universidades negros e negros em outras posições de destaque no mercado, muito por conta do sistema de cotas.
Aqui no Brasil, embora eu lute para que isso aconteça o mais rápido possível, quando um negro ocupa uma posição de destaque, isso ainda causa um estranhamento.{/payplans}

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