Pesquisar
Close this search box.
Pesquisar
Close this search box.

Em alta, mercado de laces na internet ajuda a impulsionar negócios de mulheres negras

Apesar de parecer novo, o uso das laces — ou perucas realistas — remete à historicidade e tradições de povos africanos

Texto: Dindara Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem:  Dora Lia

Ilustração mostra olhos de mulher negra, que segura as laces na cabeça para ajustá-las.

Foto: Imagem: Dora Lia

31 de julho de 2023

Em cada esquina dos centros das grandes cidades é cada vez mais comum a presença de lojas de cabelos com uma variedade de tamanho, cor, modelo e textura. As chamadas laces — ou perucas realistas — também têm feito sucesso na internet e possuem uma especificidade por possuírem uma tela frontal que se assemelha ao couro cabeludo, o que dá uma naturalidade ao uso do acessório.

Com o crescimento desse mercado no exterior, mulheres negras brasileiras têm apostado nesse nicho e usam a tecnologia como uma forma de ampliar os seus negócios.

Era o ano de 2020 quando Andressa Sousa, de 22 anos, apostou na internet para revender uma lace que tinha comprado. No ano seguinte, após ficar desempregada por causa da pandemia, resolveu que iria trabalhar com o que mais ama: trocar de cabelos. E o que começou como uma forma de ganhar um dinheiro extra se transformou no que hoje é a sua principal fonte de renda: a Laces Glow.

andressa laces glowAndressa Sousa | Foto: Arquivo Pessoal

Com mais de 11 mil seguidores no Instagram e um site, a empresária chega a vender cerca de 50 laces por mês na sua loja virtual, com peças que variam de R$ 100 a R$ 480. Para a empresária e wigmaker — nome dado a quem confecciona laces e perucas de forma manual —, a internet foi responsável por  ela ter conseguido impulsionar o seu negócio para além das fronteiras da capital baiana, Salvador.

“Eu resolvi abrir o site porque é muito mais fácil, é mais automatizado. As pessoas fazem as compras e eu só embalo o pedido e envio. Agora tenho o alcance de muito mais clientes”, relata a empresária, que já atua no ramo há três anos e possui a maioria dos clientes no Rio de Janeiro.

Assim como Andressa, Ester Almeida, de 21 anos, também apostou no mercado de laces na internet. Com a Sther Laces aberta há cerca de quatro meses, ela resolveu investir no meio digital por não ter recursos para uma loja física.

Através da renda que recebe como promotora de cartões de crédito, ela investe na compra das laces e no impulsionamento do seu negócio por meio do tráfego pago, mecanismo que o Instagram disponibiliza para ampliar o alcance das publicações de uma empresa.

“[A internet] É uma balança. Ao mesmo tempo em que é muito bom, no sentido de alcançar várias pessoas e localidades que talvez com uma venda presencial eu não conseguisse, ao mesmo tempo tem essa barreira de pessoas que já tiveram complicações com vendas de internet e ficam meio receosas de comprar”, relata.

ester almeida sther lacesEster Almeida | Foto: Arquivo Pessoal

Laces: uma viagem na história

Longos, curtos, lisos, crespos, platinado ou vermelho, as laces dão um leque de possibilidades para mulheres negras que querem mudar o visual sem modificar seus cabelos naturais.

Apesar de não existirem dados específicos sobre o mercado de laces no Brasil, um levantamento realizado pelo Instituto Locomotiva, em 2019, mostra que as mulheres negras movimentam R$ 700 bilhões por ano no Brasil, o que equivale a 16% do consumo nacional. Além disso, 89% das consumidoras negras informaram que gostam de produtos que melhorem a sua autoestima.

Mesmo que os índices apontem um maior interesse das mulheres negras pelo mercado estético e o aumento de pesquisas relacionadas a essa temática, a doutora em ciências sociais Luane Bento, mestra em relações étnico-raciais e pesquisadora sobre cabelo e corpo negro há mais de dez anos,  destaca esse tipo de comércio ainda é liderado majoritariamente por pessoas não negras.

“Hoje existe uma indústria cada vez mais especializada na venda de produtos de cabelo sintético, porém os donos não são a população negra. A gente ainda fica ali na ponta, sendo a pessoa que faz a trança, que coloca a lace, que na verdade consome”, avalia Luane, autora da monografia “Para ficar bonita tem que sofrer!”: A construção de identidade capilar para mulheres negras no Nível Superior.

luane bentoLuane Bento | Foto: Arquivo Pessoal

A pesquisadora também chama atenção para a falta de estudos sobre o impacto da indústria de fibras na saúde da população negra. “Como se percebe que a população negra consome e tem uma preocupação, você vai ter vários industriais pensando. A grande questão para mim é que muitos dos produtos que nos são vendidos não têm uma preocupação com a nossa saúde nem com o impacto gerado no meio ambiente”, alerta.

Apesar de parecer novo, o uso de perucas e fibras por mulheres negras está ligado a diferentes culturas africanas e definia, por exemplo, status social, etnia, posição em um grupo, entre outros.

Entre os Himbas, grupo étnico localizado na Namíbia, no noroeste da África, as mulheres utilizam a pele e cabelos em um tom avermelhado oriundo de uma pasta chamada “Otjize”. Já em pesquisas sobre o Egito Antigo, é possível identificar que as perucas de faraós e rainhas eram elaboradas com diversos materiais.

“Eu não adoto essa perspectiva de que o uso das laces é uma dificuldade de lidar com a sua estética. Eu vejo como uma possibilidade, mais um recurso, e se a gente for olhar para a nossa história — que a gente pouco conhece — veremos que muitas civilizações colocam extensões, cabelos de lã para aumentar a trança e elementos da natureza”, pontua Luane.

mulheres himba flora pereira da silvaMulheres Himba | Foto: Flora Pereira da Silva

Confecção e cuidados com as laces

Até chegar ao processo da venda, a rotina de uma vendedora digital inclui alguns desafios como montar cenário, fotografar o produto, analisar o seu público, publicar, acompanhar os comentários, entre outros.

Para Andressa Sousa também existe o processo da confecção manual das laces. Com o uso de uma micro agulha, ela insere a fibra, fio a fio, em uma tela presa a um molde. Esse processo, segundo a wigmaker, leva de uma semana a dois meses, a depender do modelo escolhido pela cliente.

“Tem modelos com a repartição fixa que dá para fazer tranquilamente em uma semana, mesmo se eu já tiver outras encomendas, mas o modelo com repartição livre e que às vezes tem a cabeça toda, daria a um a dois meses porque é muito trabalho”, relata a empresária.

Segundo as especialistas ouvidas pela Alma Preta Jornalismo, alguns cuidados são essenciais para manter a lace conservada, como identificar o tipo de fibra já que algumas perdem a durabilidade com o uso diário; o modelo; o modo de lavar e secagem, em que o mais recomendado é a secagem natural na sombra.

Para Andressa Sousa, as laces possibilitam uma maior versatilidade sem agredir os fios naturais. “As pessoas falam que a gente tenta esconder o nosso cabelo mas existem laces de black, de cabelo cacheado e usamos também. Por baixo da lace, o meu cabelo está super bem hidratado, bem cuidado e protegido. Hoje eu consigo mudar do loiro para o ruivo em minutos e eu não preciso tocar no meu cabelo”, reflete.

Já Ester Almeida, também empresaria do ramo, enxerga as laces como uma entre várias possibilidades de se identificar em tons de cabelo e texturas negadas às mulheres negras. “Sempre foi dito para nós, mulheres negras, que ou a gente tinha o cabelo alisado ou tinha que assumir o black. Eu acredito que é bem mais que só um cabelo, é sobre você se sentir poderosa, auto confiante e confortável com qualquer tipo de cabelo”.

  • Dindara Paz

    Baiana, jornalista e graduanda no bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade (UFBA). Me interesso por temáticas raciais, de gênero, justiça, comportamento e curiosidades. Curto séries documentais, livros de 'true crime' e música.

Leia Mais

Quer receber nossa newsletter?

Destaques

AudioVisual

Podcast

EP 153

EP 152

Cotidiano