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Na agenda da prefeitura, bloco ‘nega maluca’ desfila com estereótipos racistas em Angra dos Reis

Prática que inclui blackface é caracterizada pelo tom depreciativo à mulher negra através do uso de enchimento nos seios, na bunda e o tom avermelhado nos lábios

28 de fevereiro de 2020

O mês do carnaval está chegando ao fim e a temporada de festas de 2020 foi marcada por fantasias e blocos de rua que reproduzem estereótipos racistas. Em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, um dos blocos que integrou a agenda oficial da prefeitura foi o “Nega Maluca”.

Por meio da Fundação de Turismo de Angra dos Reis, a gestão da cidade garantiu apoio financeiro para 56 dos 72 blocos que se apresentaram,. Cada bloco recebeu um auxílio de R$ 1,5 mil a R$ 8 mil para realizar seu desfile. O bloco “Nega Maluca” saiu às ruas do centro da cidade em 20 de fevereiro.

Nas redes sociais, uma moradora criticou a apresentação do bloco e lembrou que é comum na cidade. “Na minha infância, vi várias pessoas brancas se fantasiarem de pretas na cidade e aquilo me incomodava. Um tempo atrás minha filha chamou atenção de uma pessoa da nossa família que tinha o costume de se fantasiar de nega maluca. Na discussão, a pessoa se defendeu ao afirmar que o bloco era uma tradição em Angra. Caras pessoas brancas, não há tradição que deva se perpetuar onde existe dor”, escreveu.

Por quê é racismo?

A “nega maluca” é uma prática de blackface que consiste em pintar a pele de preto e reproduzir estereótipos ligados aos negros. Com a personagem, esses estereótipos aparecem em tom depreciativo à mulher negra através do uso de enchimento nos seios, na bunda e o tom avermelhado nos lábios.

A prática do blackface surgiu em Nova York, nos Estados Unido, em 1830, como uma forma de ridicularizar a população negra. A atitude ganhou força no teatro, quando os brancos se apresentavam em espetáculos depreciativos sobre comportamentos associados aos negros.

O Alma Preta procurou a Prefeitura de Angra dos Reis e questionou se o bloco “Nega Maluca” foi um dos 56 beneficiados financeiramente. A reportagem também questionou se o fato de a “nega maluca” ser uma personagem racista foi levado em consideração pela curadoria.

Em nota, a gestão da cidade informou que o bloco “Nega Maluca” recebeu um apoio de R$ 6 mil para realizar seu desfile. A prefeitura também afirmou que o “bloco é um dos mais tradicionais de Angra dos Reis, com mais de 40 anos de existência”.

Ainda segundo a assessoria de imprensa, a gestão municipal “não interfere nos nomes e temas escolhidos pelas agremiações, o que garante o direito à liberdade de expressão”.

  • Nataly Simões

    Jornalista de formação e editora na Alma Preta. Passagens por UOL, Estadão, Automotive Business, Educação e Território, entre outras mídias.

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