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“Não vamos desistir”, diz família de Victor Kawan, morto aos 17 anos por policiais

O adolescente estava na garupa de uma motocicleta pilotada pelo amigo quando foi morto em uma perseguição policial no Recife (PE); Ministério Público pede a prisão dos agentes

Familiares de Victor Kawan estão sentados em uma mesa mostrando camisa feita em homenagem ao jovem

Foto: Foto: Pedro Oliveira/Alma Preta Jornalismo

14 de outubro de 2022

Familiares de Victor Kawan Souza da Silva, de 17 anos, continuam lutando por Justiça pela morte do jovem negro, assassinado, segundo o inquérito, por dois Policiais Militares de Pernambuco (PMPE) durante uma abordagem em dezembro de 2021. Nessa terça-feira (11), parentes do adolescente e seus advogados reuniram a imprensa, em coletiva, para detalhar os próximos passos que serão tomados depois que o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) denunciou o caso à Justiça.

O encontro aconteceu no Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) – que apoia a família de Victor Kawan jurídica e psicossocialmente junto com o Projeto Axé, iniciativa que busca fazer o atendimento de vítimas de racismo. Na denúncia encaminhada na última sexta-feira (7), o MPPE pede a prisão preventiva dos dois policiais envolvidos na morte de Victor Kawan. 

De acordo com o documento, os cabos da PMPE José Monteiro Maciel de Lima e Clezia Patrícia de Souza Silva, do 11º Batalhão, devem ser presos por homicídio duplamente qualificado por motivo fútil e sem chance de defesa da vítima. A denúncia ainda será analisada pela Justiça, mas a família do jovem comemorou este primeiro passo, ressaltando que os autores do assassinato devem ser responsabilizados.  

“Esse pedido das prisões dos policiais é um avanço muito bom. Já estamos na expectativa de que seja realmente concretizado. Foi como se fosse um gás para nós porque acontece depois de dez meses que perdi o meu irmão. Dez meses que estou sem ele. Agora temos que esperar a decisão da juíza, mas lembrando que estaremos aqui ansiosos e não vamos desistir”, disse emocionada Mickaelly Rayane Souza da Silva, irmã de Victor Kawan.

Victor Kawan jovem negro morto por policiais Recife pernambuco2Família de Victor Kawan cobram a prisão de policiais à Justiça – Foto: Pedro Oliveira/Alma Preta

O Crime

A morte do jovem aconteceu no bairro de Sítio dos Pintos, Zona Norte do Recife, no dia 11 de dezembro de 2021. Victor Kawan estava na garupa da moto que Wendel Wilker Alves dos Santos, seu amigo, pilotava. Segundo a família, os dois iam em direção a uma farmácia, onde Wendel compraria remédios para a mãe. Durante o percurso, os policiais teriam pedido para que a moto fosse parada, mas o motociclista não teria obedecido por não ter carteira de habilitação. 

Câmeras de segurança e testemunhas que presenciaram a ação da PMPE afirmaram na época do ocorrido que eles começaram a ser perseguidos pelos dois agentes policiais. Durante a emboscada, vários tiros foram disparados. Victor Kawan terminou atingido no peito. Ele chegou a ser socorrido para uma Unidade de Pronto Atendimento, mas não resistiu ao ferimento e morreu no local.

A versão dos policiais é de que eles teriam recebido denúncias de populares da região que afirmavam que uma dupla de rapazes estariam praticando assaltos em uma motocicleta. Durante a diligência, os agentes teriam identificado os suspeitos, que, ao perceberem a presença do efetivo, teriam disparado tiros contra eles. Em seguida, uma troca de tiros teria acontecido. O depoimento dos oficiais, contudo, não foi confirmado pelas investigações da Polícia Civil de Pernambuco.

Coordenador do Projeto Axé e um dos advogados da família de Victor Kawan, Eliel Silva comenta que os dois policiais cometeram fraude processual para tentar induzir o juiz ao erro. “A denúncia faz menção ao crime de fraude processual, que é quando se muda o estado das coisas no local dos fatos na tentativa de induzir ao erro o juiz da causa. É tentar simular uma situação do que de fato aconteceu. Agora caberá à Justiça decidir e analisar a partir daquilo que foi robustamente documentado no inquérito policial e na denúncia do MPPE que os policiais agiram com extrema periculosidade e enorme potencial lesivo”.

“Victor Kawan era um menino de coração muito bom, sorridente, trabalhador, que tinha tudo pela frente, mas teve a vida tirada de uma forma brutal. Agora tenho um sentimento muito bom de que a Justiça está sendo feita. Poucas pessoas desacreditaram dizendo que esse processo não ia dar em nada porque meu filho era um negro, mas estamos vendo que foi um grande passo e o que a gente espera agora é a prisão desses policiais que cometeram essa covardia”, reafirma o pai, José Luiz Amâncio.

“O que a família espera é que se faça Justiça. Victor Kawan era meu anjo e, aos poucos, a Justiça está sendo feita. Não só a de Deus, mas também a da terra, porque a gente que é da família acredita muito e não vamos desistir”, comentou bastante emocionada Janaína de Souza, mãe de Victor Kawan. Os familiares usavam camisas que estampam a imagem do garoto com a seguinte frase: “Se amar é viver… Então, sei que estarei eternamente no coração de todos que convivi. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe? Por você, Victor Kawan! #FardaNãoéParaTodos #JustiçaPorVictor”.

Victor Kawan jovem negro morto por policiais Recife pernambuco3 1Familiares de Victor Kawan fizeram coletiva de imprensa para comentar denúncia do Ministério Público – Foto: Pedro Oliveira/Alma Preta

Tentativa de homicídio 

Além do homicídio duplamente qualificado, os policiais José Monteiro e Clezia Patrícia de Souza ainda são acusados pela tentativa de homicídio de Wendel dos Santos, que pilotava a motocicleta no momento da emboscada policial. Apesar do trauma de ter presenciado a morte do amigo, o jovem não foi atingido pelos diversos disparos feitos pelos agentes. 

Na ocasião, Marconi Alves, advogado da família, também esteve presente e disse que os parentes de Wendel também aguardam responsabilização. “Estamos na expectativa do recebimento da denúncia para que a Justiça possa receber e analisar seus integrais termos e requisitos da prisão preventiva. Desde então, a gente pode perceber que oficiais que deveriam ter a missão de zelar pela segurança pública preferiram tirar, assim, a vida de um adolescente e tentar tirar a vida de um jovem de 18 anos”, disse.

A Alma Preta Jornalismo cobrou um posicionamento das Polícias Civil e Militar de Pernambuco sobre os casos de Victor Kawan e Wendel dos Santos. Em nota, os órgãos encaminharam a mesma nota, emitida pela Secretaria de Defesa Social do estado. “Informamos que, na esfera de Polícia Judiciária, a  5ª Delegacia de Polícia de Homicídios/DHPP, responsável pelo caso, concluiu o Inquérito Policial, em junho de 2022, e o remeteu ao MPPE. Em consonância com o trabalho investigativo realizado pela PCPE, o MPPE ofertou a denúncia à Justiça”.

O texto continua dizendo que um processo interno contra os dois cabos da PM foi aberto e que ambos foram realocados para atividades administrativas. “No âmbito disciplinar, a Corregedoria Geral da SDS instaurou Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) em desfavor dos policiais militares envolvidos na ocorrência. O PAD foi instaurado após conclusão de Investigação Disciplinar, na qual se chegou a indícios de autoria e materialidade”, continua.

“As investigações prosseguem até a completa elucidação dos fatos, dentro da legalidade e da garantia à ampla defesa.  A corregedoria se pronunciará com a conclusão dos trabalhos. Os policiais encontram-se empregados em atividades administrativas”, conclui a nota.

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