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Nem pós-moderno ou governista. Apenas Prounista.

26 de novembro de 2015

Texto: Stephanie Ribeiro / Ilustração: Vinicius de Araújo

O PROUNI (Programa Universidade para Todos) foi criado pelo Ministério da Educação (MEC), no governo de Luis Inácio Lula da Silva em 2004. Exatamente 10 anos depois, o projeto registrou um total de 635.992 inscritos segundo o MEC, número que representa um aumento de 50% em relação ao ano anterior. Esses dados demonstram que a população mais pobre brasileira vem se interessando cada vez mais pelo acesso à universidade. Outra prova disso é que em 2014 a maioria das inscritas eram mulheres e negras.

Dada esta breve introdução, quero evidenciar que esse texto é conseqüência do constrangimento que alunos prounistas passam em determinados encontros com alunos de universidades públicas. Mal-estar causado pelas criticas ao programa e pelas acusações de que somos “governistas e pós modernos”. Essa fala, muito comum em uma determinada vertente da esquerda brasileira, faz critica ao PROUNI, programa que funciona basicamente por dar bolsas de estudos a alunos de baixa renda em universidades particulares, tudo custeado pelo governo federal. Isso seria, então, reverter verba pública para instituições de ensino privado.

As pessoas que partem do principio de constranger prounistas dizem que a universidade pública é de todos e que deveríamos lutar juntos para estarmos nela.  Nem preciso dizer o quão fantasiosa é essa ideia de que as universidades públicas são de todos, quando a USP (Universidade de São Paulo) tem mais orientais do que negros no seu corpo discente, e estamos no Brasil, país com a maior população negra fora do continente africano. Os vestibulares de universidades públicas filtram facilmente a entrada de negros e/ou pobres desses espaços. Por isso, lutar para estar ali não é fácil como parece nas frases de efeito.

Seria uma solução construir mais universidades, seria uma solução não ter vestibulares, seria uma solução não existir o capitalismo e nem a meritocracia. Seria. Mas exatamente agora, para a maioria das mulheres negras que tem conquistado o acesso à universidade por meio deste programa, qual seria a solução rápida para que esse avanço seja mantido, mesmo com a “destruição” que alguns almejam do PROUNI?

Talvez seja a revolução, porém eu escuto sobre ela desde que entrei na universidade e estou quase me formando e não vi nada que caminhasse para isso.

“Ahh, mas olhe os adolescentes tomando as escolas brasileiras, poderíamos fazer o mesmo”.

Sim, poderíamos, entretanto, há anos não fazemos nada além de falar em cima de palanques nos nossos CAs (Centro Acadêmico) e DCEs (Diretório Central dos Estudantes). Continuamos disputando cargos e espaços para os nossos interesses partidários e não para que o acesso de mulheres negras, grupo mais marginalizado socialmente, seja feito na universidade pela porta da frente e não só com vassouras pelos fundos.

Eu não deixo de fazer críticas ao PROUNI, afinal são incomparáveis as chances de ensino que as universidades públicas e as grandes particulares propiciam aos estudantes em relação às pequenas, que estão surgindo aos montes por ai. Porém os alunos de grandes públicas poderiam estar se aproximando dos muitos jovens que estão correndo atrás de um futuro melhor por meio de um diploma, ao invés de simplesmente ficarem gritando: O Prouni é um lixo, acabe com isso!

Fico bem chateada quando percebo que é não só uma visão privilegiada como também silenciadora dos prounistas brasileiros, estudantes que passam por inúmeras adversidades nas universidades particulares. Esses são espaços que não estão preparados para alunos de baixa renda, seja pela falta de moradia, restaurantes populares ou de outras bolsas para permanência digna.

Em curto prazo, o Prouni vem funcionando como uma medida paliativa. O programa tem problemas que poderiam ser pautas dessas reuniões estudantis, se a real preocupação fosse com nós e não com a política partidária. Fico me questionando, até quando as pessoas que dizem querer o fim do capital vão ignorar o racismo. Se a maioria das inscritas são mulheres e negras, é porque está havendo uma pequena mobilidade social/racial onde as mais marginalizadas estão com acesso ao mínimo de dignidade, que é a continuidade de seus estudos para além do ensino fundamental e médio.

Para as pessoas que me chamam de governista, queria que elas tivessem tido como única saída esse programa para acessar um curso elitizado e concorrido como o meu, sem poder contar com aulas em cursinhos por tempo indeterminado. E mesmo assim escutar de professores que “Prouni é uma mamata”, ignorando que nós bolsistas estejamos entre as melhores notas e com os melhores desempenhos acadêmicos nas universidades, independentemente das adversidades financeiras.

Falta a esquerda brasileira um pouco de pé no chão e estudo sobre a realidade. É muito fácil se pautar na teoria de somente homens brancos barbudos e ignorar a realidade descrita por Carolina Maria de Jesus.   Espero de verdade não ter que saber que nós prounistas seremos constrangidos não só pelos anti cotas, anti bolsas, anti democracia da direita brasileira, mas também pelos anti realidade da esquerda nacional. Esses têm medo da onda negra e mostram maior proximidade com a direta que nos repudia, do que com alguns de nós negros que em poucos anos conseguiram sair das senzalas e alcançar diplomas.

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