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“O colorismo é uma das faces do racismo estrutural”, diz ativista

23 de junho de 2018

O fotógrafo Roger Cipó fala sobre como pessoas negras de pele clara são “aceitas” na sociedade e como elas sofrem também preconceito pela origem racial

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Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Pexels

Foi publicada na sexta-feira (22) a reportagem “Precisamos falar sobre colorismo”, na qual foram abordados aspectos e nuances diversos relativos à discriminação racial e como a lógica racista se torna mais intensa conforme mais escura for a pele de determinada pessoa.

Roger Cipó, fotógrafo e pesquisador sobre a construção da imagem nas religiões de matriz africana, falou com o Alma Preta a respeito do tema e sobre a relação do colorismo com a construção sociorracial na sociedade.

Confira a entrevista a seguir.

Alma Preta: De modo geral, como o colorismo interfere na vivência de uma pessoa cuja pigmentação da pele é menor em comparação com uma pessoa que tem a pele mais escura?

Roger Cipó: Pensar na nossa sociedade, pautada nesse racismo de cor, do racismo pautado na quantidade de melanina, a gente sabe que quanto mais retinta, maior a violência que acomete. Isso em todos os aspectos, seja na violência nossa, nas injúrias, seja no lugar no qual está falando, de onde a gente tem falado. Pelo racismo ser um crime estrutural, as questões de quem são mais ou menos retintas são colocadas de formas muito claras nessa estrutura. Isso significa que quanto mais escura a tonalidade de pele for, menos a pessoa será vista como humana e menos será vista nos diferentes espaços. Passa muito por isso, por essa invisibilidade das pessoas retintas. Quando a gente chama essa conversa e chama as pessoas mais claras repensarem isso, não é um questionamento à negritude, mas é um olhar de reflexão para pensar como a branquitude e as estruturas criadas pelo racismo nos distanciam e nos classificam à medida que a gente escurece, a gente é diferenciado, e à medida em que a gente vai clareando, a gente é, de forma errônea, ‘aceito’

AP: Questão de passabilidade pela cor da pele, correto?

RC: O clareamento é resultado de processo de embranquecimento, ocorre e a gente não pode invisibilizá-lo e nem responsabilizar as pessoas claras por esses ‘privilégios’ – não gosto de usar o termo ‘privilégios’ para pessoas negras de pele clara, mas são outros acessos e outras formas de negociação, não por aceitabilidade, mas por ser aceito.

AP: Como o fato de uma pessoa negra de pele clara ter traços que lhe mostram como uma pessoa negra a torna alvo do racismo estrutural?

RC: Branco sempre sabe quem é preto e é preto quem se confunde e fico pensando se isso é verdade porque, certamente, essa violência estrutural acomete pessoas de cor clara. Inclusive, os questionamentos na comunidade preta acontecem a partir dessa estrutura. À medida em que a gente clareia, a gente passa a ser aceito em alguns lugares ou não, mas é uma aceitação sob os moldes da estrutura branca. É uma aceitação com várias negações. É uma aceitação que te pede brancura e para alcançar um lugar que não é um lugar desses corpos pretos, socialmente falando, pensando em uma sociedade racista. São lugares por direito à humanidade e à cidadania, mas em uma estrutura dessa que não nos cabe e acolhe de forma alguma, penso que esses corpos são, ainda assim, não são vistos como brancos e, por isso, sofrem também esse tipo de violência.

AP: Como o colorismo serve como instrumento para validar o racismo estrutural?

RC: O colorismo é uma das faces do racismo estrutural, pois é parte de processo de branqueamento da nossa população. Nós, enquanto pretos, claros ou retintos, não podemos perder isso de vista – e isso é também parte do processo de extermínio da população preta e afrodiaspórica brasileira. Isto passa, inclusive, pela negação em dos nossos corpos em vários momentos, pela criação de negritude aceita na mídia e nos espaços ditos hegemônicos e pela popularização de alguns corpos e fenótipos pretos, ao manter os corpos retintos na invisibilidade.

Não haver discussão sobre o colorismo, para a gente entender onde nós somos colocados e o que a gente faz para romper com essas caixas e nos pensarmos enquanto povo preto, tanto claro, como retinto. Devemos entender que a gente passa por diferentes experiências sociais e que, em uma sociedade racista que tem a branquitude como ideal, pessoas pretas retintas serão cerceadas, silenciadas e invisibilizadas em espaços hegemônicos.

AP: Como a construção sociocultural faz uma pessoa se reconhecer como negra?

RC: A nossa educação, que é pautada no racismo, nos educará para a brancura. Em uma sociedade na qual ser preto e se reivindicar como pessoa preta é algo nocivo, pois a gente está falando de um contexto que extermina corpos pretos todos os dias. Existe um processo grande que passa desde a identidade e a autodeclaração como pessoa preta, ainda que com traços e epiderme clara. Isso abrange também a violência quanto à identidade a até mesmo a violência que não te trata como preto retinto, nem como branco. Ou seja: trata como pessoa preta e te discrimina por isso.

Quanto à nossa família, apesar de sermos de maioria negra, a gente está falando de como a consciência negra não é unanimidade na maioria do nosso povo brasileiro, pois boa parte ainda está sob prisma pautado pela televisão – e levar isso em conta é pensar na cultura hegemônica branca, uma vez que o branco é o ideal de beleza.

Esta família, que não tem consciência negra estabelecida, poderá colaborar para a pessoa negra clara se reivindicar ou pensar em si como pessoa negra ou não. Tudo isso está ligado à forma como a gente constrói a nossa identidade. Mas, independentemente de como essas pessoas constroem as próprias identidades, o racismo estrutural as lerá pessoa como preta por causa dos traços, olhar e contexto social em que vive.

Imagem: Pexels

AP: Nas últimas semanas, a escalação de Fabiana Cozza para interpretar Dona Ivone Lara no musical “Dona Ivone Lara – Um Sorrido Negro”. Mesmo Fabiana Cozza sendo uma mulher negra, houve tentativa de embranquecer Dona Ivone Lara?

RC: Certamente, sim. É importante dizer que a tentativa de embranquecer Dona Ivone Lara não é de Fabiana Cozza, nem a acusação de embranquecimento é para ela. Quando a gente fala de racismo estrutural, é necessário pensar em estruturas – e fazê-lo é pensar na estrutura do musical neste caso. Se a gente pensar em uma sociedade artística, que historicamente embranquece os nossos personagens e apaga os nossos corpos, e pensar na cultura e esse tipo de produção como manutenção da nossa sociedade, o grande perigo era pensar em Dona Ivone Lara associada a um corpo que não está ligado àquele corpo retinto.

Pensar também que embranquecer Dona Ivone Lara neste momento é ignorar que ela foi uma mulher retinta e sofreu todos os traumas e violência que o racismo estrutural reserva para pessoas de pele retinta. Este foi o meu posicionamento nesta questão – em nenhum momento foi contra Fabiana Cozza e a gente não discutiu a capacidade artística dela. A gente precisa sempre discutir a capacidade que os grandes produtores de arte no Brasil têm de embranquecer as nossas narrativas. A minha pergunta é: embranquece para quem?

A gente teve uma grande oportunidade para pensar em todas as estratégias que a arte promove há muitos anos para corroborar para esse processo de embranquecimento e apagamento de corpos pretos na sociedade brasileira. Isso é perigoso.

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