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“O mercado ajuda a cristalizar a desigualdade”, explica doutora em antropologia

11 de agosto de 2018

Em entrevista ao Alma Preta, Jacqueline Moraes Teixeira, doutora em antropologia e professora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), aborda diversos aspectos pelos quais mulheres negras têm mais dificuldades para conseguirem se firmar no mercado de trabalho

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Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Pexels

Em 31 de julho, o Alma Preta publicou a reportagem “Por que mulheres negras são pouco valorizadas no mercado de trabalho?”, na qual abordou diversos aspectos relativos à baixa remuneração que elas recebem mesmo exercendo cargos iguais aos de pessoas de demais grupos raciais e de gêneros, assim como por que têm presença ínfima em cargos de liderança em corporações.

Nesta mesma matéria, Jacqueline Moraes Teixeira, doutora em antropologia e professora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), explicou à reportagem do Alma Preta quais são os aspectos preponderantes dentro desse panorama e que são evidenciados por meio de pesquisas e dados estatísticos.

Leia a seguir a entrevista na íntegra.

Alma Preta: Como a construção histórica e social do Brasil faz mulheres negras serem vistas como profissionais que devem entrar apenas em postos de trabalho voltados ao ambiente doméstico?

Jacqueline Moraes Teixeira: Esse ponto remete ao imaginário da inserção de mulheres negras no mercado de trabalho em linguagem que rememora muito a nossa economia escravocrata, que permeou a história brasileira por mais de três séculos. É como se a cada dez anos de vida do Brasil como nação, sete anos desse processo tivessem sido vividos em processo escravocrata.

Ainda temos herança muito perversa nesse processo, e os processos de socialização e de reconhecimento da mulher negra no mercado de trabalho remetem muito a posições de cuidado e de trabalho performado dentro da casa grande, em que essas mulheres eram responsáveis pelo serviço doméstico e pelos cuidados com os filhos de famílias brancas e por todas essas questões.

Este é um ponto superinteressante, pois não significa que dentro do processo escravocrata brasileiro, mulheres negras não tenham atuado em outros postos de trabalho – colheita, no [ciclo do] café ou em engenhos de cana-de-açúcar. Elas trabalharam também dentro desses espaços, porque escravos que não trabalhavam no trato com a casa grande trabalhavam na lavoura, mas a gente tem, de alguma maneira, o imaginário que relaciona a mulher negra ao espaço de serviço doméstico, pois foi uma espécie de “tecnologia” de aceitação da mulher negra dentro do formato de nação que o Brasil passa a ter durante o período republicano.

À medida em que começamos a passar pelo período republicano, no final do século XIX, é como o trabalho doméstico nas casas de pessoas brancas fosse o contexto “aceitável”, com todas as aspas possíveis, da mulher negra dentro do processo de construção de uma nação republicana. Toda a nossa linguagem de trabalho está muito permeada pelo imaginário constituído no fim do século XIX e no diálogo totalmente direto com a nossa economia escravocrata.

AP: Dentro da herança escravocrata que ainda temos, como o racismo estrutural ainda atinge mulheres negras de modo ainda mais intenso em comparação com homens negros?

JT: Mulheres negras são, praticamente, a base da nação. Numericamente, é um grupo étnico-racial e de gênero maior. Há, proporcionalmente, mais mulheres negras do que brancas no Brasil, assim como mais mulheres negras do que homens negros e brancos. Mas, de alguma maneira, há processo de invisibilização de mulheres negras, que ainda as distanciam muito de lugares importantes de fala e de trabalho. É bem interessante pensarmos isso atualmente, pois se o fizermos estatisticamente, quando vemos a porcentagem de mulheres negras, elas passaram a ter mais acesso aos estudos – à formação nos ensinos médio e superior – do que havia há 15 anos. Mas, por outro lado, esse mesmo número não permitirá que se produza diferenciação no modo como a mulher negra cresce no mercado de trabalho.

Apesar de haver aumento na formação dessas mulheres, não há aumento de postos de trabalho para mulheres negras. Por mais que tenha havido aumento da quantidade de mulheres negras no ensino superior, a gente não consegue perceber isso resultar em aumento significativo na quantidade de postos de trabalho para pessoas de ensino superior, mais mulheres negras ocupando esses esses espaços. E a gente não consegue perceber isso, ainda em melhorias de condições de remuneração. Elas ainda têm salários inferiores em relação aos outros perfis étnico-raciais e de gêneros.

AP: Segundo o IBGE, 39,8% de mulheres negras compõem o grupo social que está submetido a condições precárias de trabalho e, em contrapartida, elas recebem, em média, 43% do rendimento de um homem branco, mesmo tendo ensino superior. Como o racismo estrutural está ligado a tal disparidade?

JT: A relação disto acontece de duas maneiras: estes dados que você citou, que são da pesquisa do PNAD [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios], fazem comparativo de 2004 a 2014. Houve crescimento nesse período de formação, ou seja, as pessoas passaram a estudar muito mais, e houve aumento de ocupação de vagas em alguns postos de trabalho em praticamente todos os perfis étnico-raciais. A gente consegue perceber aumento de porcentagem de homens negros e mulheres negras, percebe-se aumento significativo de porcentagem para mulheres brancas e, obviamente, a porcentagem maior para homens brancos.

Quando isso é traduzido em valores, ou seja, o salário médio destas pessoas, a diferença chega a ser assustadora. Se olharmos para o percentual de crescimento, ou seja, a quantidade de mulheres e homens negros que passaram a estudar e a ter ensino superior, e a ocupar determinados postos de trabalho, a gente perceberá que essa porcentagem aumenta bastante e de maneira significativa, mas o salário não aumenta na mesma proporção. Então, para a mesma função, por exemplo, a pesquisa dirá que o salário de um homem branco para esta função seria de R$ 2,3 mil; de uma mulher branca, de R$ 1,6 mil; de um homem negro, de R$ 1,3 mil; e de uma mulher negra seria de R$ 945 – em torno de um salário mínimo.

Pode-se perceber que mesmo quando há aumento dos índices de acesso ao ensino superior, e que isso é aumentado a partir de políticas de alcance da população negra, que por todas as questões históricas, sempre esteve à margem de todas as políticas [pública]. As políticas dos últimos anos foram muito significativas para a inserção de mulheres negras dentro de formação educacional, como ensino superior, mas, mesmo quando isso é feito, não é possível traduzir em remuneração salarial. As pessoas continuam ocupando espaços de menor remuneração mesmo tendo boa formação ou, mesmo ocupando o mesmo tipo de cargo, tendo remuneração inferior.

Esta é uma característica superviolenta e que está relacionada ao processo de racismo institucional que, na verdade, qualifica o trabalho e, consequentemente, atribui valor a determinadas funções, mas, ainda assim, o faz de acordo com o nível de formação de candidatos a vagas, mas reserva certos postos para determinados perfis raciais. É possível ver na internet a quantidade de pessoas, em especial mulheres negras, que têm uma série de problemas para serem admitidas em determinadas funções por causa do cabelo, vestimenta ou até mesmo por causa de características físicas.

Há, ainda, processo e linguagem de mercado de trabalho que admite, em determinadas funções, em especial quanto a mulheres negras, voltadas ao trabalho em setores de serviços, e considera que essas mulheres e esses corpos, mesmo obtendo a mesma formação, possam ocupar cargos profissionais de maior visibilidade e relevância dentro de determinadas configurações de mercado.

Imagem: Pexels

AP: Quão drástico é levar em conta todas as barreiras que você mencionou, inclusive características físicas, que o grupo formado por 10% de pessoas mais pobres no Brasil têm 64,6% de pessoas negras, considerando a questão de mulheres negras serem a base social do país?

JT: Ainda vivemos um contexto social muito marcado por um processo de desigualdade ligado à questão racial. Nesse processo, pessoas negras e até mesmo indígenas acabam sendo empurradas às margens, o que acontece em todas as instâncias: na distribuição de serviços públicos ou no acesso à educação, por exemplo.

Isto reverbera na distribuição de vagas e de cargos dentro do mercado de trabalho, que é um espaço de performação da desigualdade produzida por todas essas políticas e instâncias sociais, como educação, saúde, acesso a políticas públicas, mobilidade, moradia. O mercado de trabalho é configurado dentro da demanda de todas essas instâncias também.

Se a população negra, no caso as mulheres negras, que, economicamente, continuam a ser a base dessa população, se sempre tiver menos acesso a políticas educacionais, ao sistema de saúde, ela é empurrada cada vez mais à margem das grandes cidades e têm de se submeter a serviços e trabalhos com remuneração muito menor e com condições de trabalho e condições de trabalho pouco reconhecidas ou até mesmo com bem menos regulação, exatamente porque esse processo todo é traduzido em tratamento que estabelece o tempo todo relação entre a segregação que acontece em todas essas instâncias e como o mercado de trabalho traduz essa segregação em remunerações e em postos de trabalho.

Passa-se a eleger postos de trabalho com remuneração maior e, consequentemente dentro da cadeia de disposições sociais, começa-se a privilegiar determinados perfis de pessoas para a ocupação dessas funções, uma vez que para ocupá-las, as pessoas precisam ter melhores condições de formação educacional, mobilidade e moradia. De alguma maneira, o mercado acaba, talvez, ajudando na cristalização do processo de desigualdade que se dá em inúmeras instâncias.

O ponto mais interessante nesse contexto, em que temos um problema político extremamente sério, que é o genocídio da população negra, que afeta homens negros de um jeito e mulheres negras de outro. O modo como políticas educacionais foram conduzidas nos últimos anos, especialmente no ensino superior – cotas étnico-raciais e outras políticas de ações afirmativas educacionais -, permitem mulheres negras chegarem com mais facilidade ao ensino superior e o concluírem. Mas isso não é o suficiente para elas terem melhores remunerações e ocuparem melhores condições de trabalho.

Percebemos que, mesmo com o aumento de formação, ou seja, mesmo que algumas pessoas tenham passado a ter melhor formação e a acionar melhores condições educacionais, não é suficiente para se traduzir em melhor remuneração e melhores condições no mercado de trabalho.

AP: Quais medidas podem ser tomada por meio de políticas públicas, iniciativas de empresas e demais ações, para a redução da disparidade social entre a população negra, em especial mulheres negras, e demais grupos étnicos?

JT: Uma medida superimportante, que já é adotada em algumas empresas multinacionais em outros países, como EUA e Índia, pensar em políticas afirmativas para o mercado de trabalho. Algumas empresas têm tentado, no Brasil, fazer treinamentos de conscientização para, inclusive, fazer os RHs ficarem mais humanizados e terem mais sensibilidade para compreender porque, em determinadas situações, como qualquer pessoa em posição de avaliação seleciona determinados perfis de pessoas em detrimento de outras, e em processo de seleção que está sempre conectado com a questão racial – pessoas brancas são mais selecionadas para determinados cargos e funções do que pessoas negras.

[É necessário] pensar mesmo nas grandes empresas de onde vem a porcentagem de pessoas negras e quais cargos essas pessoas ocupam nessas empresas. Deve-se tentar pensar que é necessário criar mecanismos de representatividade em todas as instâncias dessas empresas, com pessoas negras em cargos de diretoria e de liderança, para pessoas com a mesma formação poderem ter chances de ocupar as posições pelas quais foram formadas dentro do mercado de trabalho.

Esta é uma medida superimportante, que já é aplicada no Brasil, a partir de lei federal em determinados concursos públicos, nos quais é necessário haver porcentagem para cotas étnico-raciais. Mas é superimportante, como acontece em determinadas regiões do mundo, que empresas pensem em medidas de representatividade também.

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