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O que o Olubajé representa para quem é de candomblé?

Comemorado em todo o Brasil no mês de agosto, trata-se de uma cerimônia em homenagem ao orixá Omolu, que tem como intuito agradar essa divindade ofertando-lhe comidas
Ilustração mostra o orixá Omolu, homenageado no Olubajé, dançando em meio a pipocas.

Foto: Foto: Nathi de Souza/Alma Preta Jornalismo

21 de agosto de 2023

“Tem uma cantiga em iorubá que diz assim: ‘è arayè Olubajé, Olubajé ajeun nbó’. Significa ‘povo da terra, o senhor aceitou comer, vamos comer e adorá-lo’. Omolu é o senhor da terra. E a terra é a maior boca do mundo. Se alimentamos a terra, ela nos alimenta de volta. Esse é um dos significados do Olubajé”. É o que diz o babalorixá e historiador Amaro Silva.

Comemorado anualmente no mês de agosto na maioria dos terreiros de candomblé do Brasil, o Olubajé – o grande banquete do rei – é uma cerimônia em homenagem ao orixá Omolu, que tem como intuito agradar essa divindade ofertando-lhe comidas.

Segundo Amaro, esse festejo é um dos mais importantes para os povos de terreiro, pois é durante o período do Olubajé que podem ser reveladas situações de rivalidade, conflitos, doenças, pragas e, ao mesmo tempo, a cura e o perdão.

“É uma das cerimônias em que se tem mais cuidado, pois os alimentos ali oferecidos são muitas vezes responsáveis pela saúde, pelo livramento da morte e das doenças. Omolu é o orixá que caminha nesses universos, e carrega os mistérios que transitam entre a saúde e as doenças”, avalia o babalorixá, que também é filho de Omolu.

“Silêncio, ele está entre nós”

A iyalaxé Marcela Ferreira, estudante de sociologia, explica que durante o mês em que se comemora o Olubajé, todas as ações dos adeptos do candomblé são pensadas justamente a partir do exemplo que Omolu – orixá homenageado – demonstra, mesmo em atitudes simples, como sua saudação.

“Cada orixá possui uma saudação específica. A de Omolu ou Obaluaê é ‘Atotô’, que significa ‘silêncio, ele está entre nós’. Para quem é de axé, portanto, esse é o mês de refletir sobre as nossas ações e trabalhar em silêncio pelos nossos objetivos”, elucida.

Marcela diz que um terreiro de candomblé é uma sociedade à parte do resto do mundo, mas que durante o período que marca o Olubajé, isso se torna mais nítido: as comidas, tão importantes para o culto, são feitas em silêncio, fofocas são evitadas, o respeito aos ensinamentos provenientes dos mais velhos é mais valorizado, entre outras coisas.

Omolu, segundo ela, não é a divindade do panteão africano que oferece saúde aos seus. Na verdade, a iyalaxé explica que o correto é pedir ao orixá que ele retire as doenças, pois essa ambiguidade faz parte de seus domínios. “Omolu é a dualidade que há nos nossos sentimentos, afinal, não existem sentimentos bons ou ruins, tudo depende de um ponto de vista, do ambiente em que fomos criados. Logo, para esse orixá, vai germinar o que permitimos no nosso coração, que é terra fértil. Que seja saúde ou doença, desde que nossa intenção esteja voltada para o lugar certo”, resume.

A origem do banquete

Amaro Silva diz que a palavra Olubajé é de origem iorubá, e significa significa “Olú”, aquele que; “Ba”, aceita; “Je”, comer. E o banquete surge a partir de um itãn, ou lenda, que os adeptos do candomblé conhecem bem.

Comidas servidas no ritual do Olubajé | Créditos: Adeloyá MagnoniComidas servidas no ritual do Olubajé | Foto: Adeloyá Magnoni

Segundo o babalorixá, Xangô, um rei muito vaidoso, deu uma grande festa em seu palácio e convidou todos os orixás, menos Omolu, pois as suas características físicas, relacionadas à pobreza e doença – devido às chagas no corpo – não agradavam a divindade.

“No meio do grande cerimonial todos os outros orixás começaram a notar a falta de Omolu, e começaram a indagar o porquê da sua ausência, até que um deles descobriu de que ele não havia sido convidado”, conta Amaro. Ele diz que de acordo com o itãn, todas as divindades do panteão africano se revoltaram e abandonaram a festa indo a casa de de Omolu se desculpar.

“O rei da terra se recusava a perdoar aquela ofensa até que chegou a um acordo: daria uma vez por ano uma festa em que todos os orixás seriam reverenciados e servidos, com exceção de Xangô. Nascia assim a cerimónia do Olubajé”, completa o sacerdote.

Amaro destaca que cada terreiro conta a história do seu jeito, pois no candomblé os conhecimentos são passados principalmente na cozinha e na oralidade. “Cada um mexe a panela do seu jeito e todos estão certos. O importante é entender que Omolu/Obaluaiê é homenageado a partir desta lenda e que o único orixá que não permanece na sala até hoje durante o Olubajé é Xangô. O resto é história”, pondera.

Deburu: a pipoca que cura

No ritual do Olubajé, são servidas comidas típicas de todos os orixás. De acordo com a iyalaxé Marcela Ferreira, no entanto, um alimento simples não pode faltar, afinal, trata-se da iguaria ofertada ao anfitrião Omolu: a pipoca, também chamada de deburu (ou doburu).

Ela conta que há momentos em que o orixá dança no salão, jogando essas pipocas para o ar, o que para quem está presente é um momento de muita emoção, segundo a iyalaxé

“O Olubajé como um todo é belíssimo, mas quando pai Omolu, meu pai, lança suas pipocas ao ar, parece que ele está limpando todo mundo ali, levando embora as doenças que temos no corpo e na alma. É algo muito bonito de ver”, descreve.

Orixá Omolu manifestado | Créditos: Redes SociaisOrixá Omolu manifestado | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O itãn que representa a relação do orixá Omolu com a pipoca diz que chegando de viagem à aldeia onde nascera, Omolu viu que acontecia uma festa com a presença de todos os orixás. Mais uma vez, segundo Amaro Silva, a divindade africana não podia entrar na festa devido à sua aparência.

“Então ele ficou espreitando pelas frestas do terreiro. Ogum, ao perceber a angústia do orixá, o cobriu com uma roupa de palha que ocultava sua cabeça e chamou ele a entrar e aproveitar a alegria dos festejos. Apesar de envergonhado, entrou, mas ninguém se aproximou dele”, conta o babalorixá.

Segundo a lenda, Oyá, conhecida também como Iansã, viu tudo acontecer e compreendia a triste situação de Omulu. “Oyá esperou que ele estivesse bem no centro do barracão, chegou então bem perto dele e soprou suas roupas, levantando as palhas que cobriam suas feridas”.

Nesse momento, segundo a lenda, as feridas de Omolu pularam para o alto, transformadas numa chuva de pipocas que se espalharam brancas pelo barracão. “O deus das doenças transformou-se num belo jovem e encantador. E isso nos ensina muito. Às vezes nossa beleza e essência não vai ser vista por todos, e sim por quem se permite nos enxergar de verdade”, finaliza o babalorixá.

  • Caroline Nunes

    Jornalista, pós-graduada em Linguística, com MBA em Comunicação e Marketing. Candomblecista, membro da diretoria de ONG que protege mulheres caiçaras, escreve sobre violência de gênero, religiões de matriz africana e comportamento.

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