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Pandemia afeta economia quilombola e prejudica turismo nos territórios

Do Sul ao Nordeste brasileiros, atraso na aplicação das vacinas contra a Covid-19 é atualmente o principal fator para os danos financeiros das comunidades tradicionais

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/ Acervo Pessoal

Imagem mostra sala com itens de artesanato produzidos pelo quilombo da Restinga, no Paraná

30 de abril de 2021

As comunidades quilombolas enfrentam dificuldades financeiras principalmente pelo atraso da vacinação contra a Covid-19 em seus territórios. Com a diminuição das vendas do artesanato e do comércio de alimentos oriundos da produção agrícola e da pesca – frutos de conhecimentos ancestrais -, programas como o  auxílio emergencial e o Bolsa Família são essenciais para a sobrevivência desses povos tradicionais.

No quilombo da Restinga, no Paraná, vivem  em média 65 pessoas e o artesanato é o carro-chefe da economia local. Peças produzidas em crochê ou em palha de milho são divulgadas nas redes sociais com o objetivo de fortalecer a venda dos itens. Tapetes, sacolas, cestos e porta-copos são confeccionados manualmente por 10% dos quilombolas, como complemento de renda. 

A presidente da Associação Quilombola e Afrodescendente da Restinga, Cláudia Rocha, conta que antes da pandemia era possível promover feiras livres no centro de Curitiba, na praça Zumbi dos Palmares. Ela lembra que o lucro na época era de, em média, um salário mínimo com a venda de artesanatos. Agora “não está entrando quase nada”, conta a líder quilombola.

A comunidade não recebe apoio governamental para auxiliar na produção. Para transportar os itens de artesanato para outros municípios, Cláudia explica que é necessário contar com a ajuda da própria população.

No quilombo paranense, a Covid-19 também afetou as oficinas promovidas pelos artesãos mais velhos. Para evitar a contaminação dos idosos, apesar da primeira dose da vacina já ter iniciado, os cursos foram cancelados até a imunização ser concluída. A previsão é de que ocorra até o final de junho.

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Itens de artesanato produzidos pelos artesãos do quilombo de Restinga, no Paraná. Foto: Acervo do quilombo

Do outro lado do Brasil, no Nordeste, o artesanato, a agricultura e a pesca são as principais atividades econômicas da comunidade quilombola Ilha da Maré – Praia Grande, na Bahia. A quilombola Lucyete Neves explica que uma das maiores dificuldades para o lucro é a falta de planejamento nas funções.

“É difícil saber a produção real e o lucro, pois não existe fiscalização ou monitoramento para essas atividades. Fazemos tudo por conta própria”, relata.

Segundo Lucyete, a pesca e a agricultura servem mais para garantir a sobrevivência interna dos cerca de 4 mil quilombolas residentes no local. A renda é complementada com a comercialização dos balaios, vendidos até hoje em feiras livres. Ela lembra que antigamente eram plantados alimentos de acordo com a época do ano e que os peixes consumidos na comunidade também eram provenientes das estações. Agora, cada um faz o seu plantio de acordo com o que as condições financeiras permitem.

Contudo, a quilombola pondera que há um senso de comunidade muito grande entre a população.  “Aqui não tem emprego e sobrevivemos graças ao auxílio emergencial, que tem sido de grande ajuda para os pescadores. Contamos apenas conosco”, salienta. Por lá, a primeira dose da vacina contra a Covid-19 já foi administrada e não há previsão para a segunda dose.

Pandemia paralisa turismo em território quilombola

A atual situação do Quilombo Massarandupió, também no estado baiano, é mais um exemplo de como a pandemia afetou a economia das comunidades tradicionais. Na localidade, a vacinação contra a Covid-19 sequer começou.  O quilombo exerce atividades voltadas para o turismo, como venda de artesanato e de comidas típicas, além da agricultura familiar.

Com as restrições de distanciamento social, a quilombola Neide Muniz explica que as vendas caíram consideravelmente e é impossível se manter apenas com essas atividades, o que força os quilombolas a procurarem outras fontes de renda fora do território. Segundo ela, os conhecimentos ancestrais, da pesca, agricultura e produção de farinha são essenciais para a sobrevivência dos moradores e sem eles seria impossível seguir em frente.

Outra comunidade dependente do turismo e que foi prejudicada pela pandemia de Covid-19 é o quilombo Caiana dos Crioulos, localizado na serra paraibana. A campanha de vacinação no território atendeu, até o momento, apenas remanescentes com idade acima de 50 anos.

A partir da percepção do número de visitas recebidas por ano, a associação quilombola decidiu apostar em visitas monitoradas, em que é cobrado um valor simbólico. As visitas normalmente são solicitadas para pesquisas acadêmicas.

Conforme o fluxo de visitantes aumentou, os remanescentes saídos do território à procura de oportunidades em outros municípios retornaram à sua terra natal, conta a quilombola e empreendedora Edinalva do Nascimento. Ela diz que as famílias começaram a acreditar no potencial dessas visitas e, a partir disso, iniciou-se a montagem de barraquinhas nas portas de cada casa da comunidade.

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Barraca de produtos típicos do quilombo Caiana dos Crioulos, na Paraíba. Foto: Acervo do quilombo

O projeto, denominado “Vivenciando Caiana”, é composto por roda de conversas focadas nas histórias ancestrais e também por apresentações culturais, capoeira, roda de ciranda, venda de artesanato e culinária típica. No cardápio, os pratos oferecidos são: galinha de capoeira; molho de peixe com quiabo e malassada de ovo; feijoada, bolo pé de moleque, maxixada e farofa grilada.

A partir do sucesso,  a ex-líder Edinalva abriu um restaurante no intuito de perpetuar a gastronomia do quilombo. “Somos uma comunidade com mais de 300 anos e que tem muita cultura a oferecer. Aí surgiu a pandemia, um período difícil que nos impede de desenvolver qualquer atividade lucrativa desse tipo, já que somos uma população vulnerável ao vírus”, pondera a quilombola.

Apesar da pausa nos eventos, Edinalva conclui que as atividades turísticas fortalecem a memória ancestral e fazem com que os quilombolas não deixem a luta e o conhecimento passados pelos antepassados escravizados caírem  no esquecimento.

A Alma Preta Jornalismo entrou em contato com as secretaria de saúde dos estados da Bahia e da Paraíba para repercutir as informações sobre a vacinação nos territórios quilombolas citados. Até a publicação deste texto, não houve resposta. Caso os órgãos respondam, o texto será atualizado.

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