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Para especialista, economia instável prejudica os mais pobres e negros

30 de setembro de 2019

Ipea reduz previsão de crescimento da economia em 2020 para 2,1%; Em 2019, resultados oscilaram

Texto / Lucas Veloso | Edição / Pedro Borges | Imagem / Reprodução 

Rosana dos Santos mora em Taboão da Serra, cidade na Grande São Paulo. Desempregada e mãe de três filhos, atualmente está à procura de uma ocupação para conseguir pagar as contas de casa.

Para o economista e mestre em economia política, Marcos Henrique do Espirito Santo, Rosana é o retrato das pessoas que mais são atingidas pela instabilidade da economia, as pessoas negras e pobres.

No segundo trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) no país rendeu R$ 1,78 trilhão. O resultado foi 1% acima do registrado no mesmo período em 2018, e 0,4% superior ao primeiro trimestre de 2019.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) prevê que PIB brasileiro deve ter um avanço de 0,2% no terceiro trimestre, em relação ao segundo trimestre do ano. Na comparação com o terceiro trimestre do ano anterior, o Ipea espera crescimento de 0,7%. O instituto manteve a sua projeção de alta de 0,8% no PIB de 2019.

Os mais afetados

O Brasil é um país desigual, segundo um estudo, divulgado em 2017 pela Oxfam. O levantamento mostrou que seis brasileiros concentram, juntos, a mesma riqueza que a metade dos 100 milhões mais pobres do país, ou seja, a metade da população brasileira.

Neste sentido, Henrique afirma que o sistema escravocrata no Brasil deixou sequelas, visíveis nos dias atuais, perceptíveis na vida dos negros brasileiros, os mais vulneráveis na sociedade.

“O escravismo é outra particularidade nossa. Faz parte de um país com 500 anos, sendo que 388 sob trabalho escravo”, relembra. “E ainda hoje, como trabalha a nação brasileira? Na força e no ombro escravizado, com violência e repressão. Historicamente é assim com os negros”.

Ainda, segundo números da Oxfam, os negros só ganharão os mesmos salários dos brancos em 2089.

Com base nestes dados, Marcos Henrique acredita que os baixos índices do PIB afetam principalmente as populações mais pobres do país.

Ele pontua que o Brasil nasceu com o objetivo de manter a expansão europeia e que isso não permitiu o desenvolvimento de um projeto de país, inclusive na questão econômica.

Marcos Henrique responsabiliza o governo Bolsonaro, mais especificamente, as áreas sob o comando do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, pelo fato de não terem um plano para retomada saudável da economia.

“Temos um ministro ultra-liberal, sem proposta de retomada, mas que acredita na venda de todas as empresas e no fim da nossa rede de bem estar social, criada na década de 80, e que amorteceu algumas crises que vivemos”, critica. “Guedes prevê uma destruição completa do estado”, complementa.

O desemprego, a miséria e os acessos à educação e renda são pontos ligados diretamente com a economia e afetam diretamente os afro-brasileiros, na avaliação do especialista.

“Quando a gente vê o retrato da base social, são as pessoas negras as mais atingidas, devido a nossa história. Quando os resultados ruins aparecem, elas é quem pagam a conta, pois são as mais vulneráveis”, observa o especialista.

Para ele, o Brasil precisa de uma mudança profunda, que possa dar conta dos problemas estruturais, como o racismo.

“Não dá para resolver questões estruturais com Reforma da Previdência, por exemplo. Isso é superficial, ideológico. A economia deve servir as pessoas e portanto, as pessoas são mais que números, e mais que planilhas”.

Economia parada

Segundo Marcos Henrique, o Brasil está passando por uma estagnação econômica. Ele diz que, ao contrário do que diz na voz dominante da economia, por meio da mídia e de especialistas, o país está longe de uma recuperação econômica.

“É verdade que a gente não está com o PIB negativo, desde 2017, depois de duas retrações, mas isso não quer dizer que estamos em recuperação”, afirma. “A gente está voltando devagar. O Brasil vai crescer menos de 1% em 2019, segundo previsões, depois de um período com mais de 7% negativo acumulado”, completa o especialista.

O economista explica que o país só vai retomar os níveis de 2014, antes da crise, que começou no terceiro trimestre, em cerca de 4 a 5 anos, se o ritmo continuar o mesmo. “A economia está em coma. A inflação está baixa porque tem pouca demanda, bem como os juros. Isso é insuficiente para recuperar”, define.

O PIB é o conjunto de riquezas produzidas dentro do país num determinado ano. Então, se o índice está fraco, é sintoma que as pessoas não estão produzindo, não estão empregadas, e não estão
consumindo.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados na sexta-feira (27), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o total de desempregados chegou a 12,6 milhões em agosto.

“A questão é que se o empresário não tem perspectiva de lucro futuro, ele para de contratar as pessoas e até corta mais. E quando corta, ele derruba a atividade econômica, parte do PIB”, explica Espírito Santo.

Rosana ficou desempregada em 2015, quando o patrão a despediu sob o motivo de pouco dinheiro para pagar as contas. “Eu fui mandada embora da loja em que trabalhava há sete anos. O meu chefe sempre falava que a economia estava ruim, e no dia que me dispensou disse que não estava mais sendo possível manter uma funcionária lá”, lembra.

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