Há 100 anos, no dia 19 de maio, nascia o líder revolucionário negro que acreditava na autodefesa da população negra como resposta ao racismo. El-Hajj Malik Al-Shabazz, mundialmente conhecido como Malcolm X, tornou-se um dos símbolos mais expoentes do combate ativo às múltiplas expressões do racismo.
Nascido no estado de Nebraska, nos EUA, em 1925, Malcolm X experienciou a desumanização e a brutalidade da discriminação racial desde muito novo, o que moldou o senso crítico que, futuramente, seria utilizado para mobilizar a população afro-americana.
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Ao longo da vida, o líder foi classificado pelo FBI como um homem de mente perigosa, radical e de potencial perigoso, por sua atuação e articulação intransigente contra o local ocupado pelo negro na sociedade estadunidense que, à época, vivia o ápice da segregação racial.
A Alma Preta selecionou três pontos necessários para compreender o pensamento do homem considerado uma das principais figuras do movimento pelos direitos civis nos EUA e que, segue influenciando a luta por justiça racial em todo o mundo.
1. Autodefesa como estratégia coletiva de resistência
Com uma visão mais radical em relação aos demais líderes negros da época, Malcolm X defendeu o direito dos negros à autodefesa, inclusive armada, como resposta às agressões racistas.
O pensamento de autodefesa de Malcolm X não se limitava ao enfrentamento individual e envolvia também a formação de comunidades politicamente organizadas, disciplinadas e preparadas para agir diante da opressão, que incluía ataques da Ku Klux Klan, linchamentos sistêmicos e intensa brutalidade policial.
Em um de seus discursos, o líder declarou ser legítimo que pessoas negras se defendessem e buscassem justiça “por todos os meios necessários”, defendendo o direito de se proteger e reagir em vez de aceitar as agressões passivamente.
Malcolm reforçava que a branquitude não abriria mão voluntariamente dos privilégios que possuía e que a justiça legal era um sistema historicamente utilizados para oprimir negros, defendendo a articulação comunitária e estratégica da comunidade afro-americana.
2. Autoestima e reconstrução da identidade negra coletiva
Assim como nos demais países da Diáspora Africana, os afro-americanos foram sistematicamente ensinados a rejeitar suas origens africanas, traços físicos e sua cultura. Malcolm X teve um papel fundamental no processo de reconstrução da autoestima da população negra nos Estados Unidos.
Com críticas aos mecanismos institucionais e midiáticos que promoviam a branquitude como modelo de beleza, civilidade e inteligência, o ativista denunciou categoricamente os padrões estéticos como formas de dominação.
Em um de seus discursos mais emblemáticos, proferido em Los Angeles, em 1962, Malcolm perguntou à plateia negra: “Quem te ensinou a se odiar?”. O questionamento se tornou um marco simbólico de sua crítica ao racismo estrutural e internalizado.
“Quem te ensinou a se odiar? Quem te ensinou a odiar a textura do cabelo? Quem te ensinou a odiar a cor da pele (…)? Quem te ensinou a odiar o formato do seu nariz e o formato dos seus lábios?
Quem te ensinou a se odiar do topo da cabeça às solas dos pés? Quem te ensinou a odiar sua própria espécie? Quem te ensinou a odiar tanto a raça à qual você pertence a ponto de não querer ficar perto um do outro? (…)”, trecho do discurso de Malcolm X, em Los Angeles, no ano de 1962.
Malcolm X acreditava que a libertação do povo negro só seria possível quando cada indivíduo se orgulhasse de sua identidade, desde a textura do cabelo até a cor da pele e os traços faciais.
3. Internacionalização da luta antirracista
Em 1964, Malcom X viajou para países do continente africano e estabeleceu diálogos com líderes muçulmanos e pan-africanistas, o que o fez compreender o racismo como um dispositivo de dominação racial imperialista, e não um problema isolado da sociedade norte-americana.
A articulação o fez romper com teses separatistas e defender uma frente internacional de solidariedade negra, com a participação dos movimentos negros estadunidenses e das lutas de libertação no Oriente Médio e na África.
Ao retornar aos Estados Unidos, o líder utilizou a projeção para denunciar o racismo americano como uma grave violação aos direitos humanos em fóruns globais, como a Organização das Nações Unidas (ONU).
De modo contundente, Malcolm X descrevia as condições impostas aos afro-americanos como crimes estatais, exigindo intervenção de organizações internacionais.