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Pretas Cervejeiras debatem racismo, machismo e diversidade entre mulheres

Conheça o projeto que usa a cerveja como fio condutor para desmistificar a ideia de que a bebida é branca e europeia

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

Pretas Cervejeiras: Projeto usa a cerveja como fio condutor para desmistificar a ideia de que a bebida é branca e europeia

26 de março de 2021

Uma foto antiga, em que mulheres da Ala das Baianas da escola de samba Cidade Alta – atual Império Serrano (RJ), estão sentadas em uma mesa típica de bar com muitas garrafas de cerveja serviu de inspiração para o projeto Pretas Cervejeiras, iniciativa criada para fomentar a discussão de temas de interesse das mulheres negras, como racismo, machismo e diversidade, utilizando a cerveja como fio condutor.

“Em uma exposição sobre samba, vendo essa foto, eu e algumas amigas percebemos a pouca representatividade feminina, já que a proposta da exposição era contar a história do samba, com foco no Rio de Janeiro. Tudo era muito vago e essa foto ‘inspiração’ despertou na gente uma alegria muito grande, pois aquela cena era muito familiar e natural para todas nós”, conta a idealizadora do projeto Juliana Baraúna.

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A fotografia que serviu de inspiração para o projeto Pretas Cervejeiras. (Foto: Reprodução)

A cervejeira conta que mulheres sentadas em uma mesa, tomando cerveja, fazia parte do cotidiano de todas as pioneiras do projeto e que o Pretas Cervejeiras se entende atualmente também como uma plataforma de discussão sobre o conhecimento cervejeiro.

“Brincamos que somos a Nath Finanças da cerveja! Pegamos as informações sobre a cultura da cerveja com base nas nossas origens, para desmistificar a ideia de que a cerveja é uma bebida branca e europeia e, para isso, utilizamos também pesquisas sobre a produção de cerveja feita por mulheres africanas, por exemplo”, explica.

Juliana avalia que o sistema cervejeiro nacional não é diferente da sociedade, pelo contrário, é reflexo dele. “O que buscamos por meio de iniciativas como essa é a modificação de padrões pré-estabelecidos, fazendo com que, de fato, a cerveja seja de todos e todas”, esclarece.

Através das plataformas digitais, e com planos de lançar um podcast sobre o tema em breve, o grupo pretende eliminar o machismo intrínseco no nicho cervejeiro. “O homem branco, por entender que nós, mulheres negras, não temos conhecimento específico, logo deduz que não temos consciência de escolha, inclusive no paladar, o que não é uma verdade. É uma das coisas que queremos desmistificar, inclusive o mito de que as mulheres necessariamente preferem cervejas mais leves ou de paladar adocicado”, diz.

Dentre os assuntos que Juliana prioriza nos encontros do grupo, destaca-se a segurança de poder existir em conjunto com outras mulheres com o mesmo interesse para se protegerem. “Não existe a preta cervejeira, e sim, as Pretas Cervejeiras. Essa ideia grupal serve para que a gente consiga proteger umas às outras de assédio, racismo, machismo, etc. Criamos uma espécie de redoma”, afirma Juliana.

As idealizadoras

Além da jornalista, cineasta, diretora e pesquisadora de novas tecnologias para TV e cinema, Juliana Baraúna, a equipe conta com mais mulheres: a empresária Jaciana Melquiades; a pesquisadora em Biotecnologia, mais especificamente com processos fermentativos de cerveja e sommelier Maria Eduarda Vitorino; A especialista em cosmetologia, empresária e dona de bar Stefani Nascimento; e a empresária, designer de joias, historiadora e curadora de arte Thayná Trindade.

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Da esquerda para direita: Thayná Trindade, Stefani Nascimento, Juliana Baraúna, Madu Vitorino e Jaciana Melquiades. (Fonte: Divulgação)

“Somos poucas ainda no mercado, mas o ponto central é poder nos ‘aquilombar’. Para mulheres que querem se tornar mestres cervejeiras, para além do conhecimento técnico e o acesso – que já é negado à mulheres negras – pensem em segurança e aquilombamento, com a ideia de coletivo em mente”, sugere.

A idealizadora ainda acrescenta que é importante buscar referências em pessoas que já executam o ofício e que estejam minimamente alinhadas com os valores das interessadas. “Estudar muito. É uma carreira que exige bastante conhecimento em química e biologia, principalmente”, complementa.

Pandemia e perspectivas de futuro

Para o projeto Preta Cervejeiras, a pandemia prejudicou os encontros presenciais dessas mulheres, momento em que, de acordo com a idealizadora, eram discutidas as pautas de maneira mais intimista. “Queremos muito voltar a nos encontrar, depois de todas devidamente vacinadas. Enquanto isso não é possível, investimos nas plataformas, como YouTube, para ter esse contato e troca com o público neste momento tão difícil”, afirma.

Juliana diz que para o futuro, o projeto pretende alcançar o maior número de pessoas possíveis, mesmo que não sejam consumidoras de cerveja. A cervejeira diz que a ideia é poder também oferecer bolsas de estudo para pessoas que desejam se aprofundar nesta área.

“Estamos desenvolvendo muitas novidades para essas mulheres, como o treinamento Preta Cervejeiras, e também com a oportunidade de estudo sobre essa área no Instituto Cervejeiro. A ideia daqui para frente é difundir o conhecimento e fomentar debates para inserir mulheres nesse nicho”, finaliza.

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