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Racismo no futebol: “Falsa ideia de subordinação e dominação das pessoas pretas”, diz psicólogo

12 de novembro de 2019

Torcedor do Atlético e expulsão de Taison confirmam retrocesso social no futebol

Texto / Juca Guimarães | Edição / Pedro Borges | Imagem / Reprodução – Instagram

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No último final de semana, dois casos de racismo em eventos esportivos geraram repercussão na opinião pública. Outra vez, o futebol foi cenário para os embates que há décadas permeiam a luta antirracista e o posicionamento que todos nós temos que ter diante do racismo.

“O futebol desde sua construção é um antro machista, onde é comum a incidência de situações de desordem legitimando poder, pois os sujeitos estão mais vulneráveis a externalizar suas emoções mais profundas”, disse o psicólogo Everton Mendes, da equipe de psicologia do Instituto Afro Amparo de Saúde.

Na Arena Mineirão, no jogo entre o Cruzeiro e o Atlético Mineiro, pelo Brasileirão, um torcedor atleticano fez declarações racistas e cuspiu no rosto de um segurança negro, contratado para evitar confusões entre as torcidas.

O torcedor fazia parte de um grupo que tentou invadir uma área restrita do estádio para provocar a torcida do Cruzeiro.

A cena chocante foi gravada e viralizou nas redes sociais. O torcedor branco usou a frase “Olha a sua cor” numa tentativa de ofender e menosprezar o segurança.

Em entrevista às rádios, o segurança anunciou ter feito boletim de ocorrência e disse ter ficado sem reação na hora. Apesar do treinamento exigido pela profissão, a ‘ficha caiu’ só depois que viu as imagens que circularam pela internet. Ele contou também que só pode limpar o rosto mais de meia hora depois da cusparada. Os colegas do segurança ficaram indignados com a agressão.

A Polícia Civil de Minas Gerais disse que identificou o torcedor do Atlético e que ele será acusado de injúria racial, com pena prevista de um a três anos, caso seja condenado. No entanto, o nome do torcedor não foi revelado.

O clube divulgou uma nota, no próprio domingo, lamentando o fato. O ex-jogador Reinaldo, atleta do clube durante os anos 70 e 80 e símbolo da luta antirracismo no Brasil, comentou em entrevista ao site do O Globo que o caso foi um episódio constrangedor: “rastaquera demais”.

O psicólogo Mendes comenta que a atitude do torcedor não foi uma reação tomada por emoção e sem raciocinar.

“As pessoas tendem a adaptar seus discursos a determinadas situações e contextos conforme as normas sociais vigentes. Sendo assim, o futebol desde sua construção é um antro machista, onde é comum a incidência de situações de desordem legitimando poder, pois os sujeitos estão mais vulneráveis a externalizar suas emoções mais profundas”, disse o psicólogo.

Por outro lado, Mendes destacou o aspecto positivo do discernimento demonstrado pelo segurança.

“A postura adotada pelo segurança coloca em xeque a segurança emocional do agressor que foi feita a partir do entendimento [falso] sobre subordinação e dominação de pessoas pretas. Ação essa que de forma inconsciente se apresenta como um gesto de resistência e altivez dele diante da branquitude”, disse Mendes.

Na Ucrânia, o craque Taison também tomou uma posição de altivez contra o racismo, mas não teve a empatia do árbitro e foi punido com um cartão vermelho.

Taison joga pelo Shakhtar Donetsk e disputava uma partida contra o Dínamo de Kiev quando torcedores adversários subiram o tom para ofensas racistas e fascistas.

O atleta brasileiro retrucou as ofensas e gesticulou para a torcida. Após a expulsão, ele saiu chorando do gramado.

Pelas redes sociais, o jogador deu uma resposta contundente citando Racionais MCs e Angela Davis.

“Amo minha raça, luto pela cor, o que quer que eu faça é por nós, por amor. Jamais irei me calar diante de um ato tão desumano e desprezível. Minhas lágrimas foram de indignação, de repúdio e de impotência. Impotência por não poder fazer nada naquele momento. Mas somos ensinados desde muito cedo a sermos fortes e a lutar. Lutar pelos nossos direitos e por igualdade. O meu papel é lutar, bater no peito, erguer a cabeça e seguir lutando sempre! Em uma sociedade racista, não basta não ser racista, precisamos ser antirracistas.”, escreveu.

O jogador Dentinho, também negro e colega de time do Taison, disse que por três vezes também foi xingado e que torcedores do Dínamo de Kiev imitavam macacos quando ele pegava na bola.

A psicóloga Beatriz Silva Machado dos Santos, da clínica Alethéia de psicologia, falou sobre o caso de racismo na Ucrânia e como o jogador deve ter se sentido.

“Jogar em um país estrangeiro é estressante. Exige adaptar-se a um idioma, comida, costumes, clima e ainda ter que lidar com o ‘desenraizamento’: ter que abandonar – mesmo que voluntariamente – a sua origem, sua família, seus amigos e a referência existente de vida em busca de possibilidades de um futuro melhor”, disse Beatriz.
A psicóloga afirma também que a agressão racista vai muito além de uma provocação.

“Ser vítima de racismo é extremamente traumático, principalmente nessas condições. É ser desumanizado, bestializado, violentado e humilhado longe dos seus. Entendo a reação agressiva como uma tentativa de se proteger de tamanha hostilidade e violência”, disse,

Beatriz lembrou também de um caso icônico que aconteceu em 1995, durante o campeonato inglês, envolvendo um jogador francês, que também teve uma reação radical.

“Não foi pensada, elaborada ou premeditada. Foi a resposta possível em meio a tanta dor. Quem não se lembra da famosa voadora dada por Eric Cantona há uns 24 anos atrás em um torcedor racista e dos afetos que nos provocam até hoje?”, disse.

Pela voadora no torcedor fascista, Cantona pegou oito meses de suspensão no futebol.

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