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‘Se os direitos humanos fossem respeitados, não veríamos as situações vistas na pandemia’

10 de dezembro de 2020

Longe do discurso de programas policialescos, os direitos humanos significam garantia de dignidade de vida para todos

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Dayane Oliveira

Há menos de um mês quase todo o estado do Amapá ficou sem energia elétrica após um incêndio nas subestações que atendiam 13 das 16 cidades. Com isso, houve consequências diretas no abastecimento de água, no fornecimento de alimento, e até hospitais foram impactados pela crise, que durou mais de vinte dias.

A situação do Amapá, que passou por tudo isso durante a pandemia de Covid 19, o novo coronavírus, é um exemplo de desrespeito aos direitos humanos. “Se os direitos humanos fossem consolidados, não veríamos as situações que vimos na pandemia”, explica a ativista de direitos humanos Rebecca Souza.

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Homem chora durante protesto no Amapá em razão do apagão. Foto: Dayane Oliveira

No dia 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou e proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mesmo parecendo algo distante ou abstrato, a defesa dos direitos humanos faz muita diferença na vida de todas as pessoas.

“Ter acesso a saúde, educação, segurança alimentar. Tudo isso é direito humano. A gente tende a acreditar que direitos humanos são leis, são grandes manifestações, mas tudo o que a gente vive são direitos humanos. Ter religião ou não ter é um direito humano, por exemplo”, reforça Rebecca, que também é sacerdotisa no Templo de Nahemah, em Belém.

Para ela, ser uma ativista foi um caminho bem natural, herdou o engajamento dos pais e sempre conviveu com esses debates. “Sou uma pessoa de identidade étnica, sou romani, que chamam de ‘cigana’, sou do Norte do país. Então, lutar por direitos humanos acaba sendo uma obrigação moral”, destaca.

A ativista lembra que a certeza em defender os direitos humanos veio mais forte aos 14 anos, quando começava os estudos e se preparava para ser sacerdotisa do templo da sua família.

“Sempre passei pelo desconhecimento das pessoas. Falavam que cigano era uma religião ou ouvia piadas que cigano rouba crianças, que é enganador, que lê mão, carta. Passava por essa intolerância étnica. Mas nesse período passei a conviver com simbolismos dos estudos, como tatuagens ritualísticas, etc. E conviver com isso no meio de adolescentes que só entendem a ideia cristã, foi muito complicado”, salienta Rebecca, contando que foi na diretoria da escola exigir que fizessem uma semana de diversidade religiosa. Ela teve que procurar todos os convidados e no fim o evento foi realizado.rebecca souza

A defensora dos direitos humanos Rebecca Souza. Foto: Danilo Castro/Acervo ONU Mulheres

Para explicar a importância dos direitos humanos, Rebecca sempre narra um pouco da história de sua família. “Imagina que você é de uma família em que todo mundo tem cabelo comprido. Um dia, fazem uma lei em que todos com cabelo comprido vão ter que ficar restritos ao local onde vivem e lá vão sofrer violência, negação de alimentos, de acesso à saúde. Isso, um dia aconteceu com pessoas da minha etnia”, diz.

“Defender direitos humanos é entender que quem sofreu holocausto foram pessoas como nós, pessoas da nossa família. Quem sofre remoções forçadas são pessoas como nós. Se você consegue entender que isso aconteceu com a minha família, que isso é criminoso, então entende a importância desses direitos”, pontua.

Ela ressalta que a defesa de direitos deve ser ainda mais engajada neste período de pandemia e após. “Vimos aqui, em Belém, a polícia tendo que conter as pessoas que queriam invadir o hospital em busca de atendimento. Se os direitos humanos estivessem consolidados, isso não aconteceria”, finaliza.

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