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Cardoso de Lima lança romance que aborda saúde mental e discussões raciais

"Há pessoas que se sentem representadas nas minhas obras, e é por elas que continuarei a escrever", diz o autor de 'O que dizem os sussurros'

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27 de fevereiro de 2023

O analista de TI e escritor paulistano Cardoso de Lima lançou o seu segundo romance, intitulado ‘O que dizem os sussurros’ (2023, Editora Letramento), que está em pré-venda no site da editora. Na obra, o autor conta histórias sobre pessoas que adoecem mentalmente e não conseguem encontrar saídas para o sofrimento, além de questionar sobre ‘ser negro’ nos espaços de poder da sociedade brasileira,

Leitor voraz, Cardoso de Lima considera autores como Albert Camus, Vladimir Safatle, Silvio de Almeida, Kabengele Munanga e Paul Beatty suas principais influências. Ele também cita duas obras como inspiração: o livro de contos ‘A ossada de um moleque’, de Gabriel Sânpera, e o romance “Estou aqui porque chorei”, do autor independente Murillo Leme. 

Em ‘O que dizem os sussurros’, o personagem principal, o investigador particular Roberto Antunes é convidado para averiguar um surto coletivo de suicídios em uma cidade no interior do estado de São Paulo. Ele é um homem preto, que ocupa espaços de poder na sociedade, mas não é aceito nesses lugares.

“Antunes é a personificação do negro que é ‘o único do lugar’ há muito tempo e que não é feliz. E sua infelicidade não tem a ver simplesmente com sua ‘unicidade no espaço ocupado’, mas sim com a podridão estrutural de tais ambientes. Precisamos pensar continuamente em formas de mudar a sociedade atual. Uma sociedade que gera doenças, vai se limitar em gerar as curas”, explica o autor. 

Ao longo da história são descritas algumas experiências vividas pelo personagem, como os olhares, o desconforto, o não pertencimento. Em simultâneo, os conflitos e questionamentos sobre sua negritude e a discussão sobre saúde mental, dialogam com as vivências do autor. 

“Sempre estive nestes espaços durante toda a vida. Nesta posição de desconforto, de não pertencimento. Convencia a mim mesmo que eu deveria ocupar aqueles espaços, que era uma espécie de ‘privilégio’ ser o ‘único ou o primeiro negro’ a estar presente em determinados ambientes”, relata Cardoso de Lima. 

O escritor explica que trazer a temática racial para o romance era inevitável, já que é algo que sempre esteve presente em sua vida. “Qualquer história que eu escreva terá algo sobre a minha negritude. É a base de como enxergo a vida e o mundo. Além disso, vejo a negritude brasileira com certas particularidades e diferenças em relação à negritude africana e a negritudes de outros povos negros em diáspora pelo mundo”.  

Questões sobre saúde mental no romance 

Cardoso de Lima tem distimia, que consiste no transtorno depressivo de longa duração e de caráter moderado. A partir disso, ele explica que é inevitável não falar sobre saúde mental, já que essas questões o cercam. E, ainda, destaca que poucas são as histórias sobre saúde mental na produção literária no país. 

“É papel da literatura suscitar questões que não debatemos diariamente. O Brasil é o país com o maior número de casos de transtorno de ansiedade do mundo. Temos uma sociedade estruturada para gerar cansaço, ansiedade e sofrimento psíquico. Essa sociedade doentia consegue combater o racismo? Acredito que não. Essa é a história que queria contar com este romance durante o meu processo criativo”, defende o autor. 

Protagonismo preto na literatura brasileira

Em relação ao seu livro de estreia, ‘Um preto de classe média’ (2021), ela conta que o novo romance trouxe maturidade para lidar com o mercado editorial brasileiro: “Ainda tenho esperança de viver de literatura, mas já sei que não é algo factível. Passou a ser um sonho, algo distante. Todo ano temos um novo escritor que sai do anonimato e passa a viver de literatura, é verdade. Mas, toda semana, duas apostas também ganham na mega-sena, não é mesmo? A gente continua a apostar”. 

Cardoso de Lima diz que precisamos de mais leitores, para que mais obras possam ser publicadas e, consequentemente, mais produções literárias com protagonismo preto. O autor ainda explica haver uma quantidade de autores que estão fora do radar dos leitores, e que ele só descobriu ao fazer novas amizades durante um pouco mais de dois anos como autor. 

“Quais outras obras falam sobre pretos na classe média? Sobre as relações de racismo e saúde mental? Sobre como o nosso modelo social pautado na competição e cansaço gera impactos gigantescos no combate ao racismo? Por este motivo, tenho a sensação de que é meu dever contar estas histórias. Mesmo que sejam poucas, há pessoas que se sentem representadas nas minhas obras, e é por elas que continuarei a escrever”, acrescenta o autor.

A publicação é fruto do programa ‘Temporada de Originais’, da Editora Letramento, no qual o escritor foi selecionado. A editora tem o objetivo de viabilizar os trabalhos de novos autores de maneira acessível. Para participar da seleção, basta seguir as instruções e preencher o formulário disponível em seu site.

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