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Copa mobiliza vizinhanças nas periferias com a esperança do hexa

Democrático e inclusivo para a torcida, o futebol desperta memórias afetivas em pessoas periféricas

Imagem: Caio Oliveira

Foto: Imagem: Caio Oliveira

24 de novembro de 2022

“A gente que mora em comunidade tem pouco para se divertir. Então, quando surge um evento que podemos nos sentir parte, mesmo como apenas torcedores, é mágico. A Copa do Mundo faz isso, une a favela apesar das dores e dificuldades que o povo enfrenta”, avalia Malu Campos Silva, estudante e moradora de Heliópolis, região periférica de São Paulo. 

Pela primeira vez na história, o Catar recebeu de uma vez mais de 3,2 mil visitantes brasileiros nos primeiros dez dias do mês de novembro, devido à Copa do Mundo sediada no país – número que pode ter triplicado na última semana. No entanto, muitos brasileiros – em especial, aqueles que fazem parte da camada mais pobre da sociedade – não podem viajar, o que não os impede de torcer pelo Brasil em suas respectivas comunidades. 

Para o publicitário, artista visual e colagista Uendel Nunes, o futebol está presente na identidade e cultura do povo brasileiro. “2022 é um daqueles anos em que a gente veste a camisa da seleção com com um propósito: acompanhar a Copa do Mundo e aguardar o tão esperado hexa do Brasil”, ressalta.

“Cresci neste contexto de celebrar a Copa do Mundo, então, a ideia de registrar a Copa em comunidades é uma forma de resgatar aquilo que já vivi”, explica o artista, autor do projeto editorial “Hoje tem Brasil”, voltado a mostrar como o evento esportivo serve como entretenimento para pessoas de favelas e comunidades. 

Cada local um estilo de torcida

O artista visual comenta que diversas pessoas, com maior poder aquisitivo, assistirão os jogos em espaços fechados ou em eventos privados, cobrados para transmitir os jogos: os famosos camarotes. Grande parte deles funcionarão de forma exclusiva para isso, oferecendo serviços antes, durante e após os jogos do Brasil, com telão, cerveja, open bar e outras coisas. 

“Na favela também existe esse tipo de aglomeração para acompanhar os jogos, e acontece geralmente nos bares, nas ruas, quando existem os telões, ou até mesmo em casa. Logo, o editorial feito na Favela da Rocinha (RJ) busca apresentar ao mundo uma amostra de como a cada gol marcado do Brasil serão escutado gritos, fogos de artifícios, vuvuzelas e apitos surgindo das lajes, janelas, becos e casas dos moradores, ilustrando como essas pessoas, em sua maioria pretas, vivenciam o futebol dentro das favelas”, destaca.

Para a estudante Malu Campos, a oportunidade de assistir aos jogos do Brasil em sua comunidade soa mais atraente do que acompanhar a Copa do Mundo junto aos colegas de sala. Bolsista e graduanda em engenharia civil pela PUC-SP, ela conta à Alma Preta Jornalismo que se sente deslocada em festejos que unem os companheiros de curso.

“Eu escuto a galera falando que vai assistir os jogos em camarotes que cobram mais de um salário mínimo de entrada, outros que tiveram condição de ir ao Catar acompanhar a Copa presencialmente. Essas coisas não têm nada a ver comigo, afinal, eu cresci em uma família preta e pobre que enfeitava a rua com recortes de sacola plástica na Copa”, descreve. 

“Na verdade, eu acho muito mais divertido o conceito caótico de torcer pelo Brasil no clima de favela: samba, suor e cerveja. Botar TV na rua e reunir vizinhos. Isso me traz ótimas lembranças”, relembra. 

Ferramenta de transformação

Para o artista Uendel Nunes, o futebol tem o poder de unir pessoas pretas e periféricas até mesmo pela questão da identificação, sabendo que muitos ídolos do esporte vieram de comunidades e alcançaram o estrelato devido à carreira de jogador. 

“A Copa, portanto, é o ápice. É o momento de celebrar tudo isso, ter contato com outras culturas. É um intercâmbio cultural muito grande, até para quem não vai e acompanha de casa. O futebol é democrático do ponto de vista do entretenimento e do lazer”, salienta. 

Ele destaca que manter escolinhas de futebol em bairros mais pobres é uma forma de incluir a juventude negra no esporte e também no lazer, levando em consideração a falta de acesso dessas pessoas a outras modalidades esportivas.

“O futebol nas favelas e periferias é um agente poderoso de transformação das vidas, mesmo que esses jovens não se tornem jogadores profissionais. Aprender sobre competitividade, educação, lazer, saúde, hierarquia, já é transformador”, enfatiza. 

Memórias

“Meu avô era o torcedor mais brasileiro que tinha! Ele fazia as rezas dele em todos os jogos do Brasil e tinha a camisa da sorte para assistir às partidas. Na conquista do pentacampeonato, em 2002, ele tem certeza que o Brasil ganhou por causa da simpatia que ele fez. Eu lembro disso com muita alegria e saudade, pois foi a última Copa que ele assistiu antes de partir”, emociona-se Malu. 

Uendel Nunes, por sua vez, diz que a Copa da África do Sul, em 2010, foi a edição mais marcante de sua vida. Ele, que estudou em escola pública, relembra que o colégio em que era aluno promoveu uma imersão cultural na época do campeonato, valorizando diversos aspectos da diáspora africana e dispensando os jovens mais cedo das aulas para acompanhar os jogos. “Aquele ano foi tudo muito bom”, ressalta.

“Em matéria de diversão, na favela não importa se você entende ou não de futebol. Você faz parte daquilo tanto quanto quem está no estádio. É um só sentimento, uma torcida e a vontade de gritar gol entalado na garganta de todo mundo. Para mim, não há lugar melhor para acompanhar a Copa. Não troco por nada”, finaliza Malu Campos. 
Leia também: ‘Pelé: vida, polêmicas e reinado do único atleta a vencer três Copas’

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