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Heterossexualidade compulsória: como isso afeta as mulheres negras?

Psicóloga explica que ou a mulher negra se anula para o amor e para o prazer, ou ela deve seguir à risca todo o padrão heteronormativo para ser minimamente aceita socialmente

Imagem: Reprodução/Jéssica Kidermann

Foto: Imagem: Reprodução/Jéssica Kidermann

8 de novembro de 2022

“Você é uma mulher negra. Com mais de 30 anos. Tudo é esperado de você pela sociedade, postura, filhos, consolidação da carreira. E, claro, que você cumpra os estereótipos da mulher negra ou sobreviva de migalhas de afeto. Se descobrir lésbica a essa altura da vida é um ato de muito autoamor. E esse amor derruba toda hierarquia machista construída pela heterossexualidade compulsória”. É o que explica a psicóloga clínica Ana Clara Evangelista.

A terapeuta avalia que obrigatoriamente, a sociedade espera não só uma atração pela pessoa do sexo oposto, mas sim por todos os comportamentos, símbolos e características estereotipadas do gênero oposto. Logo, no caso das mulheres, é exigida a atração pela masculinidade padrão, marcada pela dominância, força, violência, autoritarismo e insensibilidade emocional.

Além disso, dados do estudo “Homossexualidades Femininas: Subjetividades Políticas” mostram que a mulher negra está sujeita à heterossexualidade compulsória três vezes mais do que mulheres não-negras no Brasil. Isso se dá devido ao ambiente patriarcal em que foram submetidas e aos diversos estereótipos dos quais são encaixadas desde a infância. 

Para elas, segundo cientista social Kátia Bárbara Santos, autora do artigo, as construções das noções de sexo, de masculinidade e de feminilidade agem como estratégias que escondem o caráter sexual verdadeiro das mulheres negras, restringindo suas possibilidades de dar e receber amor para, assim, corroborar com a heterossexualidade compulsória e também com a solidão da mulher negra.

Logo, a cientista social pontua que à medida que a relação entre mulheres subverte a heterossexualidade compulsória, ela dimensiona também até que ponto estas relações têm o poder de ressignificar as diversas realidades pelas quais as relações são construídas.

“Sobretudo, além de estipular os elementos de atração que devem marcar presença no subconsciente de cada um, a heterossexualidade compulsória de mulheres negras as incentiva a corresponder cada vez mais aos estereótipos que lhes foram colocados”, diz o artigo. 

“À mulher negra resta ser só ou estar fadada a um casamento mediano, simplesmente por que para ela as opções são menores: ou ela se anula para o amor e para o prazer, ou ela deve seguir à risca todo o padrão heteronormativo para ser minimamente aceita socialmente”, destaca a psicóloga Ana Evangelista. 

“Acho que não sou hétero”

A estudante de Recursos Humanos, Alynne Macedo, de 32 anos, viveu a maior parte da vida acreditando que era uma mulher hétero. Paciente da psicóloga Ana Evangelista, ela conta à Alma Preta Jornalismo que foi durante o processo terapêutico que se deu conta de que estava reproduzindo a heterossexualidade compulsória em seu casamento, que já durava oito anos. 

“Cheguei em um ponto na terapia que acreditava que existia um problema muito grande comigo. Eu era casada há oito anos, tinha uma casa, um marido disposto a me entender. E nada fazia sentido dentro de mim, mas eu não conseguia explicar nem para mim, quanto mais para a Ana [psicóloga]”, relembra Alynne.

A estudante conta que em uma das sessões de terapia, que ocorreu na manhã após ela ter relações sexuais com seu até então marido, tudo veio à tona. Muito abalada pelo vazio que sentia, Alynne desabafou com Ana que era possível que ela não sentisse atração sexual pelo marido.

“Eu lembro que falei para a Ana: ‘estou cansada de não sentir nada. Nem bom nem ruim. Sexo não é ruim, mas também não é bom. O relacionamento não é ruim, nem bom. Sinto que estou apenas cumprindo tabela’. E foi no meio desse desabafo que eu finalmente confessei ‘acho que não sou hétero’. Foi o pior momento da minha vida e também o melhor”, emociona-se. 

A psicóloga, então, acolheu esse momento de desabafo de Alynne e passou a tentar elencar, junto à paciente, as razões pelas quais ela sentia não ser hétero ou bissexual, e sim, uma mulher negra e lésbica.

“Foi um momento delicado, pois várias verdades dela iriam se dissipar. Logo, o meu papel de psicóloga girou em torno de ajudá-la a assimilar essa nova realidade que veio à tona com tanto custo. Naquela semana conversamos por três vezes e creio ter sido importante para sua autoafirmação enquanto mulher lésbica”, menciona Ana. 

Resoluções

Allyne relembra que a terapia e também momentos de introspecção foram essenciais para ela se compreender naquele momento, afinal, ela sequer havia pensado sobre o assunto até então e tampouco já havia se relacionado com mulheres. 

Após alguns dias, ela decidiu então conversar com seu marido. Com medo de magoá-lo, Alynne relembra que essa foi a primeira vez que ela disse em voz alta a frase “sou uma mulher lésbica”. 

“A conversa começou com essa frase. Nem eu acreditei no que havia acabado de dizer. A gente se abraçou, choramos juntos e ele me perguntou o que eu queria fazer da minha vida. E eu respondi ‘viver’. E mostrei para ele um artigo que falava sobre heterossexualidade compulsória, indicado pela Ana”, comenta.

“Ficamos em silêncio por algumas horas. Depois de 22 dias ele foi embora, mas deixando entre nós uma amizade muito especial”, completa. 

Aprendizados

“Acredito que cabe ao terapeuta o acolhimento que o próprio paciente não encontra em si para que o auxílio em momentos assim possa ensinar a forma que ele deve se tratar. Com o caso da Allyne, aprendi muito sobre o valor da minha profissão e o quanto é necessário dar voz às aflições de mulheres negras”, pondera a psicóloga Ana Evangelista. 

Para Alynne, no entanto, o processo terapêutico serviu para que ela pudesse elaborar internamente o quanto a heterossexualidade compulsóra fazia parte de suas vivências há muitos anos, bem como a importância do autoconhecimento para lidar com questões que outras mulheres negras jamais ouviram falar. 

“Fazer terapia, infelizmente, ainda é um privilégio de onde eu venho. Na periferia, a gente não tem acesso a esses assuntos”, avalia.

A estudante ainda ressalta que há muito o que aprender sobre si daqui para frente, mas que já teve a oportunidade de vivenciar sua sexualidade de maneira mais livre e sem julgamentos internos. 

“Acho que de abril para cá, eu já aprendi muito. Tive uma experiência com uma mulher incrível, estamos nos conhecendo melhor e nos relacionando aos poucos, mas tenho plena consciência do que sou”, relata. 

“Sem a terapia talvez eu nunca tivesse tirado esse fardo da heterossexualidade das minhas costas. E ter prazer em ser e sentir é algo que vira uma chave na cabeça da gente. Espero que outras mulheres também alcancem esse privilégio”, finaliza. 

Leia também: ‘Visibilidade: o caminho político e social da mulher negra lésbica no Brasil’

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