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Nerie Bento, um corpo negro e político pela emancipação de artistas das periferias

Conheça a trajetória de Nerie Bento, mulher negra referência em assessoria de imprensa no segmento do Hip Hop e supervisora de curadoria artística em São Paulo

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nataly Simões | Imagens: Black Pipe

A imagem mostra a assessora de imprensa e supervisora de curadorias e programação do Centro Cultural São Paulo, Nerie Bento

26 de maio de 2021

“Um dia, na faculdade de jornalismo, um professor falou que podíamos cuidar da assessoria digital dos locais em que a gente trabalhava. Aí eu tive essa sacada”. Assim começa a trajetória profissional de Nerie Bento, de 36 anos, assessora de imprensa de artistas do Hip Hop e supervisora de curadoria e programação do Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Nascida em uma família militante da Cohab II, Zona Leste de São Paulo, que tinha em seu convívio práticas como incentivo à leitura, Nerie demonstrou desde a juventude a aptidão para a comunicação.  Começou a trabalhar aos 14 anos, como “toda menina de periferia”, diz. Atuou ainda como diarista, operadora de telemarketing, vendedora de materiais de segurança, mas sempre se interessou pela área comercial.

A profissional lembra que, na época em que era universitária, trabalhou em uma loja de impermeabilizantes. Baseada no comentário do professor, ofereceu para o chefe o serviço de marketing digital. “Eu cheguei no meu chefe e disse: vou cuidar das redes sociais e você vai me pagar R$ 300 a mais no meu salário. E ele respondeu ‘ok’. Foi aí que a minha história com assessoria e marketing digital começou”, relata.

Empoderamento feminino e Hip Hop

Engajada na transferência de saberes entre a cultura do Rap e do Hip Hop com a sociedade, Nerie já trabalhou com importantes nomes do rap como a família Sabotage, Oshun, Preta Rara, Slam das Minas, entre outros. De acordo com a assessora, os artistas a procuram por conta da postura antirracista de seu trabalho e o acolhimento à profissão das artistas mulheres.

Nerie foi responsável pelo documentário que representa o marco zero do Rap feminino no Brasil, chamado “O Protagonismo das Minas: A Importância das Mulheres no Rap”. “Trabalho com construção de conhecimentos, portanto, dou palestras e aulas para que os artistas do hip hop aprendam coisas úteis para o cotidiano. Assuntos como a elaboração de releases, como cuidar das redes sociais, maneiras de negociar com contratantes, etc. Trabalho com a profissionalização dos artistas do hip hop”, explica.

A assessora considera que é importante dar visibilidade para os artistas, em sua maioria negros, pois antigamente não existiam editais voltados à cultura Hip Hop. Além disso, com o protagonismo masculino na cena, as mulheres tinham poucas oportunidades para ingressar nos mesmos espaços que os homens. “Com muita briga conseguimos fazer com que hoje os projetos das mulheres sejam aprovados. Eu fiz parte dessa conquista também”, celebra.

Leia também: Artistas negras falam sobre caminhada e resistência no Hip Hop

Nerie também atua na curadoria do Programa de Ação Cultural de São Paulo (Proac) e de outros editais de Hip Hop fora do estado paulista. O objetivo é sempre o mesmo: espaço igualitário para homens e mulheres, incluindo as transexuais. No Centro Cultural de São Paulo, trabalha como supervisora de curadoria e programação de Artes Visuais, Música, Cinema, Literatura, Teatro, Moda e Dança. Embora cada um desses setores possua um curador responsável, a supervisão cuida para que as curadorias estejam de acordo com o que a gestão espera de um projeto.

O espaço de uma mulher negra

“Eu sou um corpo preto. Uma mulher negra que mora em Itaquera [Zona Leste], trabalha e dialoga com artistas das periferias. Existo também para atuar como um corpo político. Penso na minha função como uma ponte entre as pessoas que convivo e o espaço que trabalho. Desejo e busco a inclusão desses artistas”, compartilha Nerie.

Para o futuro, o desejo da comunicadora é continuar a se dedicar à periferia, à visibilidade de artistas negros, indígenas e LGBTQIA+, e a ser essa ponte entre pessoas de realidades diferentes, como “um corpo preto e político nos espaços” em que está inserida.

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