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Mandatos coletivos de mulheres negras mudam a cor da politica no NE

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21 de janeiro de 2021

Além de lutar em espaços hegemonicamente brancos, mandatos coletivos de mulheres negras ainda lutam por reconhecimento

Texto / Flávia Ribeiro | Edição / Lenne Ferreira | Imagem / Redes sociais da mandata Nossa Cara

Representando apenas 6% do total de pessoas eleitas para vereança, as mulheres negras lutam contra racismo, machismo, intolerância religiosa, classismo, dentre outras opressões, e algumas precisam lutar ainda para serem reconhecidas como co-vereadoras em mandatos coletivos. Unir mais de uma pessoa com objetivos semelhantes, ainda que com trajetórias bem diversas, tem sido a fórmula para firmar mandatos coletivos pelo Brasil. O formato tem sido um caminho para coletivos femininos chegarem ao poder e mudar estruturas de espaços hemegemonicamente brancos.

pretas TRE

 

No período eleitoral tem se tornado comum acompanhar projetos de campanhas plurais, onde uma pessoa pede voto para todes e falam da plataforma política, mas só um nome é vinculado à candidatura, que a cabeça de chapa. Quando eleitos, esses mandatos coletivos dividem os salários e as decisões. A modalidade é relativamente nova e ainda não têm previsão legal, uma vez que “o mandato é pessoal e intransferível”, conforme define a legislação eleitoral brasileira.

Ainda assim, Laina Crisóstomo, Gleide Davis e Cleide Coutinho conseguiram vários feitos históricos. Foram as primeiras eleitas em um mandato intitulado “Pretas por Salvador”. Além disso, conseguiram ser diplomadas e tomaram posse juntas, ou seja, foram reconhecidas pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE). “É um formato inédito aqui em Salvador. É motivo de muito orgulho e de muita responsabilidade. Isso traz várias questões. Um olhar diferenciado da perspectiva de ocupação de poder. Somos as primeiras, mas, com certeza, terão outras porque elas vão ver nisso essa possibilidade”, analisa Laina.

Mesmo com o reconhecimento da justiça eleitoral, a “mandata coletiva”, como elas preferem que sejam nomeadas, vem travando enfrentamentos no espaço parlamentar. “A gente vem sendo contestada, mas conseguimos algo muito potente que foi ser diplomada e tomar posse as três juntas. São 43 vereadores, só 8 são oposição, os outros são base do governo, então isso já era esperado”, afirma a co-vereadora, que concedeu a entrevista durante o processo de organização e ocupação de gabinete.

Tendo em comum o fato de serem mulheres negras estreantes no cargo, a ‘mandata’ traz pessoas bem diversas. Laina é advogada feminista, lésbica, fundadora Tamojuntas e conhecida pelo enfrentamento da violência contra a mulher. Cleide Coutinho é feminista negra, evangélica e membra Setorial Estadual de Mulheres do PSOL/ BA e dirigente do Movimento Nacional de Luta pela Moradia; e Gleide Davis é estudante/pesquisadora das áreas: gênero, raça, classe e saúde mental (UFBA). “Somos extremante diversas, mas trazemos um processo de sororidade e de autocuidado que existe muito entre as mulheres negras” destaca a advogada.

“É repensar a ideia de representatividade”

A capital do Ceará também elegeu uma mandata coletiva pela primeira vez. A “Nossa Cara” traz Louise Anne de Santana, professora; Adriana Gerônimo, assistente social; e Lila M. Salu, educadora popular. Com idades entre 30 e 32 anos, elas são negras, periféricas, ativistas e admiradoras de outras mandatas. “É uma experiência que já vem acontecendo há uns anos e em formatos variados como as ‘Juntas’, em Pernambuco, e as ‘Muitas’, em Belo Horizonte. A gente dá um salto de três coletivas, para, hoje, quando temos mais 16 espalhadas pelo país e nós somos uma delas. O modelo foi contestado desde o início. Já na primeira semana, após o lançamento da campanha, foi contestada” pontua Lila.

Ao contrário do que aconteceu em Salvador, somente Adriana, que era a cabeça de chapa, tomou posse, mas as decisões serão compartilhadas. Além das contestações à candidatura, das pautas que carregam, elas tiveram que lutar também contra a desinformação, já que houve até quem pensasse que seriam três salários de vereadoras.

Agora, na câmara municipal, o principal objetivo é aproximar o legislativo da população, com a proposta de um novo jeito de fazer política. “Para nós é repensar a ideia de representatividade. A gente sai desse lugar de que um homem branco, cis, hetero diz o que é bom e o que não é para gente e ampliar para um espaço mais coletivo. Onde não só as pessoas que se candidataram e foram eleitas são as que pensam sozinhas, porque a “Nossa Cara’ é pensada em um corpo muito maior, sem a ideia maior de representatividade única. É um anseio de nós, enquanto movimento, enquanto população, enquanto povo, de sermos representadas como somos e de como agimos, que é de forma coletiva e em movimento. Um movimento cotidiano de disputa de um bem-estar para nós e para as outras” ressalta Lila.

 

*imagem interna: Pretas por Salvador / TRE-BA

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