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“Bandido bom é bandido morto”

10 de março de 2016

Texto: Francy Silva / Ilustração: Moska Santana

A banalização da violência contra jovens negros

Entre Dorvi e os companheiros dele havia o pacto de não morrer. Eu sei que não morrer, nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas. Meu filho dorme. Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito… (EVARISTO, 2015, p. 109).

Era fevereiro de 2010. Por volta do meio-dia, ouvi três disparos secos. Em pouco tempo, todos nós já sabíamos: o barulho viera da rua de cima. Dois jovens encapuzados e de motocicleta haviam disparado contra três garotos. Um deles, de 15 anos, conseguiu fugir antes de ser atingido. O segundo, também de 15 anos, levou um tiro nas costas, perto da coluna, o que o deixaria durante um bom tempo na cadeira de rodas. O terceiro, de 17 anos, fora atingido com um tiro na cabeça e morreu na hora. Os três eram meus alunos. Os três eram negros e pobres. Os três eram traficantes e usuários de drogas.

Jonas, o garoto morto, era filho de mãe solteira e tinha mais cinco irmãos. Dois deles também estavam envolvidos no mundo do tráfico. Jonas estava cursando o primeiro ano do Ensino Médio. Era um bom aluno. Faltava muita aula, mas quando estava presente era muito participativo. Aos poucos, Jonas começou a mudar o seu comportamento em sala de aula. Tornou-se rebelde e agressivo. Desconfiei que estivesse usando drogas. Algum tempo depois, ele abandonou definitivamente a escola. Minhas suspeitas se confirmaram. Jonas tornara-se traficante e usuário de crack e caiu na armadilha de ficar devendo aos seus parceiros que não perdoaram a dívida. Como não tinha dinheiro para pagar o que devia, Jonas acabou pagando com a própria vida. Morreu poucos meses depois de entrar no mundo das drogas.

Dias antes de sua morte, o encontrei na rua. Falei pra ele voltar pra escola, que estava fazendo falta. Disse-me sorrindo “vou voltar, professora!”. Não voltou. Partiu aos dezessete anos. Tão garoto, tão cheio de sonhos…

 

“Acerto as contas, as minhas, levo o concluído e entrego ao bacana. Nunca falhei. Ele retira o que é dele e devolve o que é meu. Hoje não terá devolução alguma. Devo. Falta. A dívida do outro é minha dívida. É? O apartamento da chefia é bonito. Olhando para baixo vê o mar. Quero a morte lenta e calma. Quero boiar no profundo do mar. Quero o fundo do mar-amor, onde deve reinar calmaria. É lá no profundo fundo que vou construir um castelo para a morada de meu filho, Bica, predileta minha, vai também. Ela sabe que da ponta da escopeta também sai carinho […]. O mar lá embaixo abrindo todo, todo. Grande é o mar. Quando não estou com a minha arma por perto, me borro de medo. Tenho vontade de chorar. Olhando o mar lá de cima, vi que pequeno sou eu […]. Quero o fundo do mar. Quero a predileta minha e o meu putinho que nasceu. Um dia vou ser navegante […]. Quero fazer uma viagem profunda, pro fundo do mar-amor. Predileta minha, o putinho meu e eu, os três… A viagem funda que afunda. A vida vale? A dívida é minha? Com quem dividir essa dívida? Essa dúvida?” (EVARISTO, 2015, p. 104).

Crack ganhou muitos usuários primeiro nos EUA na década de 1980, com o uso entre as comunidades negras e latinas. Foto: Robson Ventura/Folhapress

Crack ganhou muitos usuários primeiro nos EUA na década de 1980, com o uso entre as comunidades negras e latinas. Foto: Robson Ventura/Folhapress

Oito meses depois da morte de Jonas, estava voltando da faculdade quando fui informada do assassinato de outro jovem. Mateus tinha sido meu aluno por duas vezes, e abandonara a escola nas duas ocasiões.  Mateus havia sido abandonado pela mãe ainda bebê e fora criado pela avó doente mental e pelo pai, usuário de drogas. Tinha sido meu aluno em 2009 e havia abandonado as aulas no meio do ano. Em 2010, voltou a estudar. Estava empolgado no início do ano letivo. Sempre muito crítico e participativo, era o primeiro a terminar as atividades, sem dúvida, o melhor aluno da turma.

Numa das aulas, escreveu um poema que dedicou a uma colega. Estava apaixonado. Achei que naquele ano ele não desistiria. Desistiu mais uma vez. Eu e outras professoras tentamos convencê-lo a voltar pra escola, mas as tentativas foram frustradas. Durante o tempo em que frequentou as minhas aulas, Mateus nunca me desrespeitou, jamais alterou o tom de voz, mesmo quando estava irritado. Gostava de ficar quieto em seu canto. Tinha dia que participava ativamente das aulas, mas normalmente preferia o silêncio. Sabia que algo o angustiava. Perguntava o que estava sentindo, mas ele dizia que não era nada. Que estava tudo bem. Não estava. Nunca esteve. E eu me sentia impotente por não poder fazer nada que o fizesse sentir-se melhor.

Em meio ao caos, Mateus encontrou refúgio no crack. Foi assassinado, porque assim como Jonas, ficou devendo aos traficantes. Depois da sua morte, lembrei-me então de uma atividade que tinha realizado no primeiro dia de aula. Pedi para que os alunos e alunas escrevessem uma carta dizendo quais eram os seus objetivos naquele ano. Que falassem dos seus sonhos e expectativas. Ao final do ano letivo, abriríamos as cartas para ver se o que tinham desejado havia se concretizado. Abri a carta do Mateus. Nela ele falava do seu maior sonho: conhecer a sua mãe. Dizia também que queria se tornar uma pessoa melhor. Não fazer mal aos outros. Queria ser bom, fazer o bem. Não teve tempo de realizar os seus sonhos. Morreu aos dezenove anos. Mateus queria ser bom, mas esse mundo é muito ruim.

Desde a morte de Mateus, muitos outros garotos, majoritariamente negros, foram assassinados em minha cidade natal, um município com menos de sete mil habitantes. Em seis anos, já foram inúmeras mortes, todas seguindo o mesmo padrão. Os primeiros assassinatos, em uma cidade tão pequena, provocaram certo pânico na população. Mas, com o passar do tempo, as pessoas passaram a se acostumar com as mortes. Afinal, não estavam morrendo “pessoas de bem”, mas bandidos. E “bandido bom é bandido morto”, especialmente se for negro e pobre.

 

“Porra, o cara me deu um banho e eu estou escorregando na água dele, com sabão de lavar cachorro. O prazo está terminando e o meu também. Busco aquele puto no inferno, pois sei que os homens de Baependi vão me buscar também. Eles me catarão debaixo da saia da minha mãe, se preciso for. E a gente combinamos de não morrer. Que merda, selamos agora a própria morte. […] Penso no risco que estou correndo. Risco não, tudo já é certo. A solução está definida. O destino traçado. Não há recuo. Não estou aflito. Não estou desesperado. Não estou calmo. Não estou inocente ou culpado. Apenas estou sabendo que daqui a pouco, questão de um dia e meio, não estarei mais. Nem eu, nem ele. Acabo com ele, mas isto não resolve. Outros acabarão comigo. Nosso trato de vida virou às avessas. Morremos nós, apesar de que a gente combinamos de não morrer. A morte às vezes tem um gosto de gozo? Ou o gozo tem um gosto de morte? […]. Vou matar, vou morrer. É lá no mar que vou ser morrente. Mar-amor, mar-amar, mar-morrente. É no profundo do fundo, que guardarei para sempre as lembranças do meu putinho e da dileta minha”. (EVARISTO, 2015, p 106-107).

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Na última semana de janeiro de 2016, mais um garoto negro virou estatística. João tinha 16 anos. Foi meu vizinho desde que nasceu. Posso assim dizer, que o vi nascer e morrer. João sempre foi um menino de poucas palavras, meio arredio e desconfiado. João guardava em si uma revolta. Algumas pessoas diziam que era por causa das muitas surras que levara do pai. Um homem que acreditava que ao castigar o filho poderia livrá-lo do mau caminho.

João seguiu outros caminhos. Aos dez anos já traficava. Era mais um garoto que vendia drogas para poder ter dinheiro para comprar aquilo que o seu pai, trabalhador rural assalariado que sustentava uma família composta por cinco pessoas, não podia lhe oferecer. O pai batia cada vez mais no filho, à medida que ia percebendo que esse estava cada vez mais envolvido no mundo das drogas. Sempre lhe disseram esse era um caminho sem voltas, mas por muito tempo acreditou que poderia resgatar o seu menino. Desistiu quando o filho tornou-se muito agressivo. João passou a ser temido na cidade. Ganhou o respeito que sempre quisera. Deixou de ser mais um menino negro excluído e marginalizado para ser o centro das atenções. A fama lhe trouxe muitos inimigos.

João passou a ser perseguido e viver na penumbra. Em dezembro de 2015, João cometeu um assassinato. Matou um traficante que estava lhe devendo. O jovem assassinado, branco e de classe média, era de uma família muito conhecida na cidade. A população ficou revoltada. Repensou, por um momento, a premissa de “bandido bom, bandido morto”. O rapaz usava e vendia drogas, mas era de uma boa família. Não podia ter morrido daquele jeito.

Depois do crime, João passou a ser ainda mais odiado pelos cidadãos de bem.  Sua cabeça foi colocada a prêmio. Todos queriam a morte do “negrinho criminoso”. O desejo dos “homens e mulheres de bem” foi realizado no dia 28 de janeiro. João foi morto com um tiro à queima roupa. Um tiro certeiro no peito. Foi atingido longe de casa, mas ainda teve forças de correr na tentativa de chegar à sua residência. Sucumbiu faltando alguns poucos metros para chegar ao seu lar. A mãe, que tinha acabado de voltar da igreja, correu desesperada ao encontro do filho. Chegou a tempo de ouvir a última respiração do seu menino. O pai foi poupado de assistir a essa cena, não estava em casa no momento em que o fato aconteceu. Estava trabalhando em uma fazenda distante. Soube apenas no dia seguinte da morte do filho.

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No velório, estava inconsolável. O homem rude chorava feito criança. Fui ao encontro dele na tentativa de falar alguma coisa que o confortasse, mas ainda não inventaram palavras capazes de consolar um pai ou uma mãe pela perda de um filho. Olhei para ele e balbuciei alguma coisa, uma dessas frases bem clichês. Ele me disse em um choro compulsivo: “perdi o meu filho para as drogas”. Eu não consegui falar mais nada. Não havia o que dizer. Enquanto os pais choravam desolados pela perda do filho, os “cidadãos de bem” celebravam a morte de mais um bandido. Mais um negro delinquente que havia escolhido viver na criminalidade.

Para essas pessoas, viver no mundo do crime é simplesmente uma escolha que esses garotos fazem.  É como se eles já tivessem nascido dizendo “mãe, eu quero ser bandido quando crescer”. Os “cidadãos de bem” não compreendem ou não querem compreender que quando um jovem entra no mundo da criminalidade não é uma mera escolha. Há uma série de fatores que contribuem para que um garoto torne-se um usuário de drogas, traficante ou um assassino. Sobretudo, se esse jovem for pobre, negro e da periferia. Nascer pobre e preto em um país racista, excludente e desigual é um fardo pesado demais que esses meninos têm que carregar.

Vivemos em uma sociedade capitalista. A sociedade do consumo, das aparências, em que as pessoas são valorizadas pelo o que tem ou demonstram ter, não pelo o que realmente são. A maioria dos jovens que entra na criminalidade quer ter o celular de última geração, um tênis maneiro, um casaco de marca. Nascidos sob a marca da diferença e da exclusão, o ter lhes proporciona uma sensação de poder, uma sensação de que eles existem no mundo. É uma maneira de se auto afirmarem, de conseguirem reconhecimento e respeito. Esses garotos, negros e pobres, na maioria das vezes, são marginalizados muito antes de se tornarem marginais. E quando os “cidadãos de bem” celebram a morte desses jovens, pensando que estão se livrando de um problema, talvez não consigam perceber que eles também fazem parte do problema. Quando um “cidadão de bem” vibra com a morte de um garoto envolvido no mundo do crime, ele não está contribuindo para o fim da violência, mas colaborando com ela.

A violência é um problema social. E já que fazemos parte de uma mesma sociedade, somos, em alguma medida, culpados pelas mortes desses jovens. Somos vítimas, mas também algozes. Em vez de comemorar a morte desses jovens que estão vivendo na criminalidade, é preciso pensar em estratégias eficientes que possam evitar que esses garotos entrem no mundo do crime e\ou tentar recuperar aqueles que estão nele.

“Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel” (EVARISTO, 2015, p. 108).

* Os excertos destacados no texto foram retirados do conto “A gente combinamos de não morrer”, do livro Olhos D’água, de Conceição Evaristo, grande escritora afro-brasileira. Olhos D’água foi indicado ao Prêmio Jabuti 2015 e conquistou o 3º lugar, na categoria contos e crônicas.

* Todas as histórias narradas são verídicas.

Francy Silva é Mulher, Negra, Nordestina, Feminista, Militante do Movimento Negro. É integrante do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros – NEAB Viçosa. Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas, estuda a produção literária de escritoras negras brasileiras e escritoras dos países africanos de língua portuguesa. Atriz nas horas vagas e professora por vocação. Acredita na educação como uma importante arma no combate ao racismo e a todas as práticas discriminatórias.

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