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E as nossas demandas?

8 de março de 2016

Texto: Roberta Lima / Ilustração: Melissa Fonseca

Ser mulher negra periférica e poder sair de casa para estudar em outra cidade é um privilégio que poucas mulheres negras têm. Poder fazer esse trajeto me faz sim mais privilegiada, já que a maioria das mulheres periféricas tem como destino tomar conta de casa e dos irmãos quando não são mães precocemente. É perceptível a diferença de qualidade de vida que tenho ao comparar a minha vida no extremo sul da cidade de São Paulo e em Araraquara, onde posso morar sem me preocupar com os problemas que assolam a periferia paulistana. É importante enfatizar a disparidade entre a minha vida na cidade em que estudo e na cidade em que nasci. Nesse embate é importante pensarmos para quem e como estamos militando, principalmente quando pensamos no movimento negro e na periferia, lugar onde a população é majoritariamente negra.

Reafirmar as mazelas do espaço em que nasci e cresci não é negar os problemas da cidade na qual eu resido, mas é provar que vivo sim em uma bolha, que é rompida quando volto pra minha cidade, para um bairro com um dos maiores índices de violência, onde a maioria das mulheres negras não tem o privilegio de estudar fora ou em qualquer lugar. Local onde o acesso à educação, saúde, lazer, moradia e transporte são precários. Um espaço em que nossas vidas valem menos, bem menos. E se não somos violentadas nas ruas, nos becos e nas vielas muitas vezes somos violentadas na própria casa pelo companheiro.

Eu enfatizo toda essa minha experiência pra dizer o que muitas militantes já vêm apontando e o que os dados nos mostram. Enquanto discutimos a forma padrão de militância temos mulheres negras sofrendo violência fora e dentro de casa. Se pararmos pra pensar, mesmo no meio universitário, onde temos toda essa desconstrução, há inúmeros casos de violência contra as mulheres, o que pensar da realidade para além dos muros da universidade?

Na bolha chamada universidade pública “discutimos” sobre racismo, machismo e todos os ismos que podemos imaginar e isso é o mínimo que devemos fazer, já que é inegável que o espaço da universidade nos proporciona um ambiente de reflexão e desconstrução, ou pelo menos deveria. No entanto, é na periferia que encontramos um disparate entre o nosso discurso e a realidade. E esse abismo nos traz algumas questões: Essas discussões dentro da universidade ultrapassam o meio universitário? Nós, pretas que ocupamos esse espaço privilegiado, estamos realmente pensando nas demandas que o movimento negro, mais especificamente nas demandas das mulheres negras, aquelas que não podem ocupar esse lugar de privilégio, mulheres que entram na universidade pela porta da limpeza terceirizada? Será que não estamos nos distraindo com pequenas discordâncias dentro do movimento?

Uma das coisas que mais me encucam é pensar se realmente estamos fazendo algo para os nossos. Estamos propondo algo para além das discussões nas redes sociais? Estamos pensando na violência que a mulheres negras não universitárias estão expostas?

De acordo com o mapa da violência de 2015, o número de mulheres negras mortas cresceu 54% em 10 anos (de 2003 a 2013). No ano de 2013, em torno de 2.875 mulheres negras foram mortas, enquanto que o número de mulheres brancas assassinadas caiu 10% no mesmo período.

São tantas as pautas do movimento e são tantas mortes que entram pra estatística. Qual será o nosso papel dentro desse meio elitizado e branco que é o mundo acadêmico? E eu falo como estudante negra e periférica de ciências sociais. Como romper com uma estrutura branca conservadora? Como trazer as demandas e pautas invisibilizadas da população negra periférica? Especificamente, como colocar em pauta a vida da mulher negra? Como fazer isso quando estamos em menor número nesses espaços.

Enquanto eu não encontro as respostas para tantas perguntas feitas, tenho certeza que toda vez que eu retornar para o extremo sul da zona sul de São Paulo eu vou tomar uma dose de realidade pra não deixar morrer a ideia de dias melhores para as mulheres negras que ali resistem.

Roberta Lima é estudante de ciências sociais, preta, periférica e feminista. Faz parte do Coletivo Negro Abisogun e do grupo de estudos MIN ( Militância Intelectual Negra) do NUPE da Unesp Araraquara.

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