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Mulheres Quilombolas em marcha

5 de dezembro de 2016

Há pouco mais de um ano Brasília era tomada pela 1ª Marcha de Mulheres Negras. Confira o depoimento de três mulheres quilombolas que participaram o ato histórico na capital do Brasil.

Entrevistas / Ana Carolina Fernandes
Edição de imagem / Pedro Borges

Em 18 de novembro do ano de 2015 aconteceu a 1ª Marcha das Mulheres Negras. O evento teve seu lócus em Brasília, a capital federal, e para lá se dirigiram mulheres negras de todos estados do Brasil. A Marcha das Mulheres Negras foi organizada com o intuito de pautar as causas do feminismo negro, dar visibilidade a este grupo de mulheres e demarcar suas especificidades na luta feminista.

“Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver”. Este era o lema da Marcha das Mulheres Negras. As mulheres quilombolas se uniram a este grupo e também marcharam em Brasília. Este mês completa-se um ano desta marcha histórica para o Brasil e principalmente para as mulheres negras. Buscamos por depoimentos de três mulheres quilombolas que participaram da marcha para rememorar quais foram seus sentimentos durante o acontecimento.

As quilombolas, remanescentes dos povos africanos escravizados no Brasil, estão distribuídas entre as mais de 3 mil comunidades existentes no pais. A luta da mulher quilombola em defesa de seus direitos enquanto mulheres negras, e de seu povo quilombola, é uma luta que se fortalece na vivência compartilhada, na transmissão de saberes das mais velhas para as mais novas, na evocação da ancestralidade e no reconhecimento da necessidade de estarem em luta. Estas mulheres fazem de suas vidas um exercício de transformação do Brasil, planejam uma nação livre do racismo, articulam maneiras de vencer a violência contra a mulher e defendem seus territórios tradicionalmente ocupados.

Depois desta breve apresentação, vamos agora nos aproximar um pouco mais das histórias destas mulheres, seus sonhos e anseios de luta:

Isabela da Cruz

Quilombo Paiol de Telha- Paraná- 26 anos

Participar da Marcha das Mulheres Negras em 2015, foi um processo transformador na minha vida, e na minha militância em defesa dos direitos das mulheres, jovens e meninas quilombolas. Aprendi muito nesse ano que passou, sobretudo o que significa o movimento de mulheres negras, e a importância de nos tratarmos umas as outras com afeto, atenção, e respeito mútuo.

Aprendi também, com os meus erros, o que não fazer. Como não ser. Aprendi a reconhecer meus limites e a superá-los. Sem dúvida foi um processo saboroso e doloroso. Mas ver ao final 50 mil mulheres negras de todo o Brasil e América Latina, marchando em Brasília, defendendo umas as outras, trocando sorrisos e experiências, me fez sentir parte de algo maior. Muito maior que qualquer dor poderia mensurar. Me fez perceber que não estou sozinha, não estamos sozinhas. Nenhuma de nós está. E isso me dá mais força pra continuar marchando, caminhando, dançando, brincando nessa vida. Seguimos em marcha, ela não começou em 2015, tão pouco se encerrou naquele ano! Seguimos em marcha, pelo Bem viver, por nós… por amor. Pelas que já se foram, e pelas que ainda virão. O Brasil também é quilombola.

Sandra Andrade

Quilombo Carrapatos da Tabatinga-MG- 52 anos

A marcha pra mim, e acho que pra nós, todos os quilombolas, foi um momento único de reconhecimento da força das mulheres quilombolas.

A gente achava que a gente não tinha condições de trazer as nossas mulheres, mas com muita luta as comunidades se mobilizaram em seus locais e a gente conseguiu trazer cinquenta ônibus só de mulheres quilombolas! Isso pra nós foi uma superação! E mostramos que a gente tem força, com união a gente tem força!

Este momento da marcha a gente pode ver o quanto as mulheres contribuem para a luta da causa quilombola. Esta marcha mostrou que nós podemos, que nós somos fortes. Porque os nossos antepassados foram, e nós herdamos isso deles. Eu falo, foi um momento de superação mesmo, eu chorei de ver quantos ônibus iam chegando! Eu pensei, eu não acredito! Meu povo conseguiu! E aí juntamos as mulheres negras urbanas com as rurais e mostramos a força da mulher negra. Esse momento a gente não vai esquecer nunca! Porque está estampado nas fotos, na alegria das mulheres de estarem ali, você vê em cada rosto a satisfação: “eu tô aqui, eu tô contribuindo!” E não tem nada que pague este momento pra nós… foi superação total!

As nossas griôs, as nossas mais velhas, todas quiseram vir! Veio até mulher de cadeira de rodas pra poder mostrar que estavam ali, pra passar essa força pras outras mulheres. Eu deito e sonho até hoje! Nós fizemos isso, a gente conseguiu, nós mostramos pro Brasil! Nós éramos 50 mil mulheres aqui nessa esplanada!

Foi muito emocionante ver aquele monte de mulheres… as de outros estados… sem se conhecer, a gente se abraçava e parecia que a gente era uma família e eu acho que é isso, porque os nossos antepassados foram separados quando vieram ser escravizados no Brasil, separou pai, mãe , irmão, e por isso eu acho que a gente tem um pouquinho do nosso sangue espalhado por todo esse Brasil. Eu acho que nós os negros, somos uma nação irmã. A gente se olha e parece que a gente já viu a pessoa, a gente se abraça com amor, com o coração, a gente sente a irmandade. Aquelas mulheres, meninas, idosas, a gente pensava que era nossa vó, tia, prima, irmã, aquela alegria! Essa integração das mulheres foi a coisa mais linda que eu já vi!

Mãe Tiana

Quilombo Carrapatos da Tabatinga-MG- 82 anos

O que eu senti foi uma alegria e ao mesmo tempo uma tristeza muito grande. Há muitos anos atrás, eu fui trabalhar ali em Brasília, junto com meu filho, pra construir Brasília, e agora eu tive que ir lá pra defender nossos direitos porque eles estão todos defasados, porque o negro não está sendo respeitado!

Então, na hora que eu estava cantando ali, chamando as minhas companheiras de luta, de fé e de esperança, tive ao mesmo tempo muita alegria, mas tive muita tristeza também. Porque eu acho que não precisava do negro sofrer tanto neste país que a gente lutou pra construir.
As negras, as quilombolas não devem desistir de lutar! Nós não estamos vencidas ainda não! Eu tenho muita esperança que nós não vamos perder! Não desistiremos de lutar pelo certo! Pelo certo, nós damos nossa vida e o errado a gente tem que combater sempre.

Eu queria mandar o meu abraço para todas que participaram desta marcha, a luta continua, não vamos parar! Quero dar um abraço uma por uma e parabenizar a todas porque, a luta continua e pra este momento eu gostaria de deixar um canto:

Ogum, Ogum dilê, não me deixa sofrer tanto assim…
Ogum, Ogum dilê, não me deixa sofrer tanto assim…
Quando eu morrer eu vou, eu vou pra aruanda!
Saravá Ogum, salve toda nossa banda!
Quando eu morrer eu vou, eu vou pra aruanda!
Saravá Ogum, salve toda nossa banda!
Ogum, Ogum dilê, não me deixa sofrer tanto assim…

Salve Senhor Ogum! Dê força pra nós lutar sem correr mais sangue! Dá força pra nós lutar, pra nós vencer! Porque só a força de Ogum pode combater o mal! Que ele dê força à todas as quilombolas e às mulheres negras, porque nós somos muito fortes! Nós vamos vencer e nunca vamos ser vencidas, se Deus quiser!

Ana Carolina Fernandes é mestranda em Antropologia Social-PPGAS UnB- [email protected]

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