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Precisamos articular estratégias globais contra supremacia branca

Passados o pesadelo Bolsonaro e os momentos mais graves da pandemia, o movimento negro organizado voltou a demonstrar sua força no Fórum Permanente para as Pessoas Afrodescendentes da ONU
Imagem mostra pessoas negras sentadas e de costas em evento da ONU.

Foto: Reprodução

7 de junho de 2023

Por: Manuela Thamani e Thales Vieira

Os quatro anos de governo Bolsonaro impunham um perigo iminente: a desmobilização da sociedade civil negra. Abertamente racista, o governo representado pelo antigo presidente até que tentou levar a cabo um plano para o desmonte do terceiro setor, seja com uma comunicação constante ensejando ódio e descrédito, seja acabando com todo e qualquer tipo de apoio governamental ou acabando com os espaços de participação social.

Passados o pesadelo Bolsonaro e os momentos mais graves da pandemia, o movimento negro organizado voltou a demonstrar sua força no Fórum Permanente para as Pessoas Afrodescendentes da ONU, ocorrido em Nova York, entre os dias 30 de maio e 2 de junho.

Organizações, movimentos e coletivos negros brasileiros mostraram, mais uma vez, sua enorme capacidade de articulação ao formar a maior delegação presente no Fórum, a despeito das dificuldades logísticas e financeiras com um dólar valendo cinco vezes mais do que o real. A composição de organizações históricas com décadas de contribuição, como Geledés, Ceert e Criola, e outras mais jovens, como a Articulação de Negras Jovens Feministas, a Mahin Consultoria Antirracista e nós, do Observatório da Branquitude, dão a certeza de que a memória da incidência internacional negra será preservada e os aprendizados serão levados para a frente.

O Fórum Permanente para as Pessoas Afrodescendentes da ONU é um mecanismo consultivo estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas “como plataforma para melhorar a segurança, qualidade de vida e meios de subsistência das pessoas de ascendência africana”. Este fórum desempenha o papel de uma plataforma na qual pessoas afrodescendentes, ao redor do globo e representadas por órgãos governamentais, internacionais e organizações da sociedade civil, podem compartilhar suas perspectivas e desafios, visando promover a igualdade racial e combater a discriminação racial nos estados-nação, em diálogo com as estratégias transnacionais.

Durante os dias do Fórum, essas três esferas estabeleceram um diálogo construtivo, apresentaram suas agendas, destacaram questões particulares e enriqueceram o debate com o objetivo de oferecer recomendações aos tomadores de decisão na ONU. Essas recomendações visam principalmente orientar a formulação de políticas e o desenvolvimento de programas de ação nos países membros. O governo brasileiro, por sua vez, foi representado presencialmente por Anielle Franco, ministra de Igualdade Racial, que fez a fala de abertura e, por vídeo, pelo presidente Lula e pelo ministro de Direitos Humanos e Cidadania, Silvio Almeida.

Leia também: Movimentos negros cobram políticas de reparação racial em Fórum da ONU

Colocando em relevo a delegação brasileira, é importante destacar uma grande conquista. O próximo Fórum Permanente para Pessoas Afrodescentes será sediado no Brasil, decisão essa que configura a relevância do nosso país para debater as discrepâncias aqui existentes ao que tange raça, bem como nos dá oportunidade para descortinar o mito da democracia racial em nível global. Para nós, do Observatório da Branquitude, trata-se de uma oportunidade única para ressaltar como a supremacia branca tem se articulado para manter o status quo em todas as esferas, incluindo os espaços de poder dentro da própria ONU.

Desde o início do evento, quando foi divulgada a agenda oficial da ONU, notamos que o debate sobre branquitude não estava sendo tratado de forma central em nenhum dos espaços de explanação (main session, side event ou special event). Ao longo dos dias, notamos que essa discussão aparecia como subtexto, nunca ocupando a posição de destaque que nós, do Observatório da Branquitude, consideramos fundamental para o debate e a compreensão plena do tema sobre equidade racial. Se somos o principal alvo da agenda supremacista, devemos estar articulados globalmente para freá-la.

Embarcamos para Nova York com esse compromisso e, em parceria com outras quatro organizações brasileiras (Geledés, Mahin Consultoria Antirracista, CEERT e Peregum) elaboramos um texto recomendando prioridade absoluta para essa temática, tanto aos Estados, como para as agências da ONU. A mensagem impactante sobre a agenda supremacista branca foi verbalizada em uma das plenárias do Fórum e incluída no documento final de recomendações — uma vitória das organizações brasileiras.

Além dos debates ocorridos na plenária principal da ONU, organizamos e participamos de uma série de debates ocorridos na Universidade Columbia. Esse evento foi construído com muitas mãos: além das organizações já mencionadas, também articularam o núcleo de justiça racial da FGV e o projeto Seta.

Três mesas de debate aconteceram em sequência, a primeira sobre perfilamento racial em que Thales Vieira (codiretor executivo do OdB) apresentou um texto contundente e emocionante sobre o papel da branquitude nas hierarquias do sistema de justiça. Uma segunda mesa teve a participação empolgante de Regina Santos, fundadora do MNU e Anna Venturinni, representando o MIR. Já Manuela Thamani (co-diretora executiva do OdB) mediou a mesa sobre Educação e Relações Raciais e instigou os participantes a refletirem sobre o papel da branquitude nesses assuntos cruciais.

A partir dessa experiência, nós, do Observatório da Branquitude, seguimos com o compromisso de continuar trabalhando para ampliar a conscientização sobre os impactos da branquitude e a sua relação com o racismo estrutural e cada vez mais articular estratégias globais de enfrentamento à supremacia branca.

Manuela Thamani e Thales Vieira são diretores do Observatório da Branquitude.

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