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Universidade para Todos

15 de março de 2016

Texto: Miriam Alves / Edição de Imagem: Pedro Borges

Quando ingressei na UFMG, não imaginava que passaria por diversas situações de opressão, desde professora de Filosofia da Educação que não gostava de alunos pobres, pois segundo ela, reduzia a excelência de ensino da Faculdade, a agressão física sofrida por um ex-companheiro e às vezes em que não pude contar com a assistência estudantil. Sem dúvida, passar no vestibular foi a realização de um grande sonho, estava cheia de expectativa, pois era a primeira da minha família a ingressar no ensino superior, mas essa expectativa, também trouxe desafios…

Perceber o racismo e o racismo institucional foi algo doloroso, mas que me deu forças para suportar tudo aquilo. Obviamente o fato da Faculdade de Educação ter um departamento de Ações Afirmativas, e ter ao longo de minha trajetória quatro professores negros que contribuíram com a discussão étnico-racial em sala de aula, foi um diferencial. Privilégio este que não faz parte da realidade da maioria dos que ingressam na academia.

Muito se discute sobre a importância da Lei 10.639 e sua falta de implementação na educação básica, mas quase nunca nos questionamos: e no ensino superior? Onde está uma educação para relações étnicas raciais? Onde está uma educação que respeite a diversidade sexual, cultural e religiosa? Será que nós acadêmicos não precisamos?

Com a ocupação preta da Reitoria em 2013, pelo Coletivo de Estudantes Negros, coletivo no qual eu atuava na época, tivemos uma pequena conquista, a criação em 2014 da PRAE (Pró-Reitoria de Assistência Estudantil), responsável por promover Ações Afirmativas. Nessa época o Movimento Estudantil e o DCE simplesmente nos ignoraram. Foi um momento importante, pois está com os meus, o que tornou aquela situação em um processo de muito aprendizado.

Ocupação Preta USP Estudantes negros por todo o país tem ocupado espaços de privilégio das universidades como forma de protesto

Com a entrada cada vez mais ostensiva dos guardas no Campus da UFMG, tivemos inúmeros conflitos, devido a práticas que reforçavam o racismo institucional e a criminalização da pobreza. Muitos jovens têm sido impedidos de acessar as dependências da universidade, com a alegação de que não tem “cara de estudante”. Ou seja, os estereótipos definem os lugares sociais a qual temos que ocupar, e definitivamente nossos corpos são tão rejeitados, como nossos saberes.

Mesmo com a adoção das cotas raciais, faltam referências teóricas e autores negros para construirmos novas bases epistemológicas. Temos que ocupar lugares de representatividade, para sermos ouvidos e vistos como parte do corpo universitário; e é fundamental pensar um novo projeto político pedagógico, sem uma concepção bancária e eurocêntrica, que possa frear o maquinário elitista.

Outra pequena conquista são as formações transversais, entre elas: Saberes Tradicionais, e a disciplina História da África e Cultura Afro Brasileira, que será ofertada a partir desse semestre para alunos de todos os cursos. O que só foi possível após muitos conflitos e disputa, e ainda não podemos perder de vista os enormes desafios a ser enfrentados, daqui para frente, para que cada vez mais a universidade se torne o lugar do povo, para que de fato se torne preta e favelada!

Sabemos que quanto mais conquistamos espaços, mais o racismo se desmascara, em postagens raivosas nas redes sociais, ou pichações racistas nos banheiros contra alunos cotistas. Ou simplesmente a anulação pelo mito da democracia racial, que faz com que alunos brancos, ocupem vagas reservadas a estudantes negros. É necessário barrar as fraudes no ensino superior, reforçando o dever das universidades em criar mecanismos de controle e fiscalização para que os alunos negros sejam contemplados com a garantia plena de seus direitos.

Coletivo Negrada - UFES Movimento Negro do Espírito Santo fez denúncia de fraude no vestibular da UFES

O racismo institucional cria desigualdades e mecanismos que garantam a manutenção de privilégios da branquitude, e quando analisamos a política de cotas raciais, vemos que a mesma tem profundas brechas.

Segundo o antropólogo José Jorge de Carvalho, em entrevista pra Afropress: “A Lei federal 12.711/2012 significou um avanço parcial inegável, na medida em que fez aumentar o número de estudantes negros, porém fez um alerta aos colegas professores, estudantes e apoiadores das cotas de que, ao mesmo tempo em que amplia as vagas para inclusão dos negros, a lei pelo seu formato restritivo, impede a construção de uma plena igualdade étnica e racial no ensino superior”

Atualmente, a Lei oferece sub-cotas para negros e indígenas com duplo condicionamento de origem e renda. Ela tem caráter restritivo; impossibilita o ingresso de alunos oriundos das classes populares e acirra as desigualdades, além de gerar maior competição entre grupos já marginalizados.  Se a nota de corte dos cotistas é superior a dos não cotistas, não se trata de melhor desempenho, mas sim que a competição entre alunos negros têm aumentando. E pelo próprio vestibular ser um sistema meritocrático, temos um maior ingresso de alunos de institutos técnico e federais, que possuem maior qualidade de ensino e renda.

UFMG Alunos da UFMG relatam que pessoas “sem cara de estudante” foram impedidas de entrar no campus pela guarda universitária

Nesse caso, o jovem negro da periferia continuará sendo vítima do genocídio com raras exceções como o estudante Douglas Damasceno, de 20 anos, morador da comunidade Alto Vera Cruz em Belo Horizonte, que foi um dos primeiros colocados em medicina na UFMG. O extermínio da juventude é sistêmico e tem se agravado com o fechamento de escolas e turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos) em todo país nos últimos anos, mais uma barreira para que o sonho de ingressar no ensino superior continue sendo sonho de poucos.

Nem todos terão a mesma oportunidade que Douglas; oportunidade esta que não é garantia de permanência, uma vez que, os cortes de verba no ensino superior, é um entrave para continuidade das bolsas e assistência estudantil. O epistemicídio tem sido uma das armas mais vorazes utilizada contra nosso povo, e é nossa dever reverter o processo de aniquilação que encarcera nossos jovens e reflete no número de obituários.

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