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Novas vozes e perspectivas: a história de mulheres negras em ascensão no jornalismo esportivo

Em entrevista a Alma Preta, Day Natale, Denise Bastos e Duda Gonçalves contam suas conquistas, desafios e caminhos no cenário esporte
As jornalistas negras Day Natale, Duda Gonçalves e Denise Bastos.

As jornalistas negras Day Natale, Duda Gonçalves e Denise Bastos.

— Arte produzida pela Alma Preta com imagens de acervos pessoais.

8 de junho de 2025

A presença de profissionais negros e negras em programas jornalísticos da grande mídia ainda é limitada, conforme relevam dados da pesquisa “Diversidade racial e de gênero na imprensa”, elaborada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (GEMAA).  A desigualdade de raça e de gênero é ainda mais evidente nas editorias esportivas.  Apenas 17% das autorias são de mulheres, e, entre elas, somente 3% são de mulheres negras. Os homens brancos assinam cerca de 80% do conteúdo produzido.

Apesar desse cenário de exclusão, nos últimos anos jornalistas negras têm conquistado esses espaços e se destacado como repórteres, apresentadoras, comentaristas e narradoras esportivas.  Elas representam vozes que por muito tempo foram silenciadas e abrem espaço para novas perspectivas. 

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As jornalistas Day Natale, Denise Thomaz Bastos e Duda Gonçalves são exemplos de profissionais negras que têm se destacado na cobertura esportiva. Em entrevista à Alma Preta, elas compartilharam suas trajetórias e os desafios que enfrentam enquanto mulheres negras no setor majoritariamente branco e masculino.

Representatividade no esporte

Com 20 anos de trajetória na TV Globo, Denise Thomaz Bastos é um dos nomes que fazem história na comunicação esportiva brasileira. Nascida e criada na periferia de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, iniciou a carreira na emissora aos 16 anos como jovem aprendiz, atuando em áreas como administração, operação de câmera e produção do SPORTV.

A jornalista Denise Bastos, da TV Globo na Copa do Mundo Feminina.
A jornalista Denise Thomaz Bastos, da TV Globo na Copa do Mundo Feminina. Foto: Arquivo/TV Globo

Apaixonada por esportes e cria de projetos sociais, Denise uniu a paixão e a comunidade ao criar em 2017 o projeto “Na Quebrada”, com foco em dar visibilidade à periferia por meio do Globo Esporte.  

“Como o principal programa de esporte do Brasil, que fala com essas pessoas, não têm essas pessoas na tela?”, questionou a profissional. “A gente selecionou pessoas de periferia que encabeçavam projetos nas regiões Norte, Sul, Leste, Oeste e fez um dia de cocriação para entender como aqueles líderes se viam, como gostariam de se ver, o que faziam. Aí montamos um programa para essas pessoas se sentirem  representadas”, recorda.

Denise sempre priorizou narrativas periféricas. Em sua estreia como repórter, a jornalista cobriu a Taça das Favelas de 2019 e atuou como produtora do documentário “Taça dos Sonhos”. Nos anos seguintes ela continuou a acompanhar as modalidades femininas de grandes eventos esportivos e se consolidou como repórter do SPORTV e do Premiere.

“Eu comecei a acompanhar o futebol feminino, que tinha pouquíssima visibilidade. Em 2019 consegui ir para o como produtora para a França e em 2023 fui para a Copa Feminina de Futebol na Austrália. Esse foi o meu primeiro grande trabalho como repórter”, conta.

Quebrando barreiras 

Em sua trajetória, Denise tem rompido desafios e inspirado novas gerações de jornalistas negras. “Fizemos uma transmissão só com mulheres e eu era a única mulher negra. Não sei se fui a primeira que fiz uma final olímpica do futebol feminino em rede nacional, mas é importante chegar aqui. Muitas pessoas quebraram várias barreiras”, destaca.

Apesar dos avanços recentes, um dos desafios mais enfrentados por profissionais negras do jornalismo é atuar em espaços dominados por pessoas brancas e homens. “A gente não é vista nesses espaços e muitas vezes, quando é, é vista como alguém que não devia estar ali. Você tem que se provar o tempo inteiro”, aponta Denise.

Inspirada por Glória Maria, Denise hoje faz parte do coletivo “Herdeiras de Glória Maria”, criado por jornalistas negras, e participou do documentário “Glória”, disponível no Globoplay.

A potência da nova geração

Duda Gonçalves iniciou a carreira em 2019 como estagiária na Rádio Inconfidência, em Belo Horizonte. Após atuar como assessora e repórter do Atlético Mineiro, a jornalista passou pelo jornal O Tempo, onde trabalhou por um ano.

Em 2022, ganhou projeção nacional ao vencer o programa “Narra Quem Sabe”, da ESPN, que busca revelar vozes femininas para narração esportiva. A conquista abriu portas para sua contratação como repórter setorista da ESPN em Belo Horizonte, cargo que ocupou por quase três anos.

Duda Gonçalves no Campeonato Paulista de Futebol 2025 pela TV Record.
Duda Gonçalves no Campeonato Paulista de Futebol 2025 pela TV Record. Foto: Acervo Pessoal

Em 2024, a mineira recebeu da TV Record o convite para atuar como repórter responsável pela cobertura do Campeonato Paulista de Futebol. Aos 26 anos, Duda já coleciona coberturas de grandes eventos esportivos.

“Final de Libertadores, final de Sul-Americana, seleção brasileira, Campeonato Paulista. São muitas competições, muitos eventos marcantes na minha carreira”, relembra.

A profissional também foi a jornalista mais jovem a cobrir uma final de Libertadores pela ESPN, no Equador, em 2023. “Fiz uma final de Libertadores com 23 anos, não é qualquer pessoa que faz, ainda mais em uma televisão tão grande e relevante como a ESPN”, destaca. “Era uma competição que eu sempre assistia, sempre acompanhava em casa e nunca imaginei viver como profissional de forma tão rápida”, conta.

Duda também foi reconhecida com o Prêmio Destaque do Esporte Mineiro, em 2023. Entre os momentos mais significativos da carreira, a jornalista cita a cobertura da morte de Pelé.  

“A Libertadores de um jeito muito especial por ter vivido tantas vezes aquela competição como torcedora, e o Pelé por ser o nosso maior atleta de futebol. Por representar tudo que representa e por ser também essa personalidade que o jornalismo esportivo venerava e ao mesmo tempo se preparava para a  perda”, explica.

Duda também enfatiza a importância da representatividade de raça e de gênero na profissão.  “A gente ainda está movimentando essa estrutura devagar, fazendo algumas rachaduras. Acabei de chegar na Record, que até outro dia não tinha nenhuma repórter negra no esporte. Eu considero esses movimentos importantes e não temos que parar”, celebra.

Reafirmando a identidade

Impulsionada pela paixão pelo esporte, Day Natale é uma das mais novas comunicadoras promissoras no esporte. A jornalista da capital paulista escolheu a profissão em 2018, após cogitar seguir na área da educação física e já passou por veículos como a Rádio Gazeta, o site Torcedores e a revista AzMina, onde escreveu sobre esporte a partir de uma perspectiva de gênero.

Day Natale na abertura das Olimpíadas de Paris, em frente ao Arco do Triunfo. Foto: Acervo Pessoal

A primeira grande experiência de Day no meio esportivo ocorreu em 2020, com o estágio na TV Globo. “Era minha Disney na época, porque eu tava na TV, que era o que eu queria, sempre quis ser repórter de vídeo”, afirma. 

O sonho de se tornar repórter ganhou ritmo com o trabalho para as redes sociais de produtos da Conmebol, Libertadores e Sul Americana. Depois, atuou como produtora no SBT e na Bandeirantes, até retornar à reportagem em 2023, em trabalhos no Campeonato Paulista e no Canal Goat. “Meu primeiro jogo foi Água Santa e Portuguesa, na Arena Inamar e foi animal” , comenta.

No ano seguinte, a profissional conquistou uma vaga na Cazé TV, onde já cobriu eventos como o Mundial Feminino Sub-20, na Colômbia, a Libertadores Feminina, o Paulistão e os Jogos Olímpicos de Paris.

Durante as olimpíadas, Day viveu um dos momentos mais emocionantes da carreira ao cobrir a vitória da judoca Bia Souza, que conquistou a medalha de ouro.

“Foi muito emocionante ver uma mina preta vencendo ali e de certa forma me vendo num lugar muito legal também. Não era sobre mim ali, era sobre ver uma mulher negra vencendo a Olimpíada em Paris, abrindo o cenário de medalhas de ouro também do Brasil na ocasião”, lembra

Day Natale entrevistando a judoca campeã Bia Souza, em Paris.
Day Natale entrevistando a judoca campeã Bia Souza, em Paris. Foto: Acervo Pessoal

Com referências como Glória Maria, Cynthia Martins e Denise Bastos, Day reforça a importância da representatividade. “Eu acho que primeiro é você se entender nesse lugar e se entender nesse lugar contraria o que a gente vê. Cresci vendo a falta de referências e eu tinha algumas”, conta.

Segundo o estudo “Perfil Racial da Imprensa Brasileira”, 85% das jornalistas negras relatam discriminações de gênero e raça no cotidiano da profissão. “Como eu trabalho com redes sociais e administro o que chega, não tem controle”, aponta Day.

Ao levar sua identidade e personalidade para o trabalho, a jornalista acredita que fortalece a autoestima de outras pessoas negras. “É muito importante a gente falar sobre autoestima, sobre cabelo, sobre personalidade, sobre o quanto o esporte brasileiro passa fundamentalmente pela presença de mulheres e pessoas negras.  Mostrar essa parte de vitória de autoestima, de acolhimento, de conexão é muito importante”, defende.

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  • Thayná Santana

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