Os dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (6), revelam que os adeptos a religiões de matriz africana mais que triplicaram desde 2010. A Umbanda e o Candomblé, que somavam cerca de 588,7 mil pessoas (0,3%) em 2010, passaram para aproximadamente 1,8 milhão de pessoas (1%) da população com dez anos de idade ou mais em 2022.
Esse crescimento ocorre em um cenário de revalorização das tradições de matriz africana, especialmente entre as populações negras (pretas e pardas). Os dados mostram que, entre os adeptos de religiões de matriz africana, 33,2% se declaram pardos, 23,2% se declaram pretos e 42,9% se identificam como brancos. Pretos e pardos, somados, compõem 56,4% do total de seguidores dessas religiões.
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A porcentagem de representação reforça a centralidade da população negra no cultivo e preservação das religiões afro-brasileiras, sobretudo quando considerada em conjunto (pretos e pardos), mesmo diante da significativa presença branca.
Religiosidade negra também cresce entre evangélicos e sem religião
Entre os evangélicos, a população negra forma o grupo majoritário, com 61,1% dos fiéis. Os pardos representam 49,1% e os pretos, 12%. Entre os que se declaram sem religião, os negros também representam proporção maior que a média da população: 59,3%, sendo 45,1% de pardos e 14,2% pretos.
Já no catolicismo, os negros são maioria mas em proporção menor do que o da população total, de 55%. São 53,3% de negros católicos, sendo 44% pardos e 9,3% pretos, e 45,9% de brancos.
O espiritismo mantém uma base majoritariamente branca (63,7%), com menor presença reduzida de negros: são 26,3% de pardos e 9% de pretos.
Diversidade religiosa e novos perfis educacionais
A elevação do número de adeptos das religiões afro-brasileiras também acompanha melhorias nos indicadores educacionais. A taxa de analfabetismo entre praticantes de Umbanda e Candomblé é de 2,4% — inferior à média nacional (7%) e menor que entre católicos (7,8%) e evangélicos (5,4%).
A maior parte dos praticantes das religiões de matriz africana completou o ensino fundamental (14,7%) ou o ensino médio (39,92%), com 25,5% tendo acesso ao ensino superior completo.
Sudeste e Sul concentram maior proporção de adeptos a religiões afro
As regiões com maior percentual de pessoas que se identificam com religiões de matriz africana são o Sul (1,6%) e o Sudeste (1,4%). O estado com maior proporção de seguidores é o Rio Grande do Sul, com 3,2% da população adepta de Umbanda e Candomblé.
Apesar de o Nordeste contar com forte presença histórica de terreiros e casas de axé, a autodeclaração religiosa nesses estados aparece em proporção menor no Censo.
Especialistas indicam que isso pode estar relacionado ao medo da intolerância religiosa e à associação entre ancestralidade e religiosidade que nem sempre se traduz em pertencimento formal a uma religião.
Crescimento aponta para reconhecimento e afirmação identitária
A ampliação das religiões de matriz africana representa um movimento de afirmação das tradições negras no campo da espiritualidade, marcado pela valorização de saberes ancestrais, fortalecimento das casas de axé e resistência à intolerância religiosa.
“As transformações sociais têm resultado em modificações na metodologia do Censo ao longo de todas essas décadas. Códigos, banco descritor, estrutura classificatória e incorporação de novas declarações religiosas foram sendo necessários para retratar a diversidade religiosa no Brasil da forma mais fidedigna possível”, afirma em nota Maria Goreth Santos, analista do IBGE.
Este texto foi atualizado em 9 de junho de 2025, às 17h20, para correção das informações relativas à proporção racial entre os adeptos das religiões de matriz africana.