Neste 26 de julho, Dia de Nanã, mulheres negras e comunidades de matriz africana em todo o país reverenciam a orixá considerada a mais velha do panteão iorubá. Cultuada nas religiões afro-brasileiras como o candomblé e a umbanda, Nanã representa o princípio da criação, a sabedoria das mais velhas e o elo entre a vida e a morte.
“Nanã é a mãe ancestral, a mãe da criação”, explica a ialorixá Mônica Ribeiro de Yemojá, em entrevista à Alma Preta. Sua ligação com o barro primordial, a lama e os manguezais — lugares onde a vida começa — simboliza o papel que ocupa na cosmogonia africana e afro-brasileira. Segundo Mônica, Nanã domina os elementos da natureza que formam a base da existência. “Ela fornece a lama para modelar os seres humanos”, afirma.
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Essa lama, que habita os manguezais, não é apenas matéria-prima para a criação. Na visão de mundo iorubá, é também um território sagrado onde se localiza o início da vida e, ao mesmo tempo, o retorno a ela. Nanã acolhe os mortos, ancestraliza os que partiram, e assim mantém o ciclo vital em movimento.
Orixá da sabedoria, guardiã das matriarcas
Nanã é lembrada como avó do panteão, símbolo de maturidade, introspecção e contemplação da vida. “O que Nanã tem para nos ensinar é que o tempo pode ser nosso aliado”, diz Mônica. Na tradição do candomblé queto, essa ancestralidade vivida e incorporada pelas mais velhas sustenta as casas de axé e suas comunidades. “A forma de organização dos terreiros é matriarcal. A matripotência organiza o modo de viver dos pretos na diáspora“, reforça a ialorixá.
Esse protagonismo das mulheres mais velhas encontra eco nas histórias de resistência de matriarcas como Iyá Nassô e Iyá Adetá, que fundaram os primeiros candomblés no Brasil. Nanã se conecta diretamente a essas figuras, que mantiveram vivas tradições, comunidades e modos de vida mesmo diante da violência colonial.
O Dia de Nanã também acontece dentro do Julho das Pretas, campanha que celebra as lutas das mulheres negras na América Latina e no Caribe. Neste contexto, Nanã ressurge como um símbolo potente. “Ela representa a energia das matriarcas, das avós, bisavós, daquelas que lutaram pela existência e manutenção de suas comunidades”, afirma Mônica Ribeiro.
No mês em que se lembram figuras como Tereza de Benguela e outras líderes negras, reverenciar Nanã é reconhecer a trajetória daquelas que sustentaram coletividades inteiras com sua sabedoria e força. Para a ialorixá, isso exige um compromisso que vai além do discurso. “É importante não transformar o discurso da ancestralidade em mercadoria”, alerta. “Na sabedoria iorubá, idade é posto.”
Como honrar Nanã fora do terreiro
Mesmo quem não faz parte de uma casa religiosa pode homenagear Nanã. A ialorixá orienta: “Honre as mulheres mais velhas do seu convívio, sejam mães, avós, tias, amigas ou vizinhas”. O respeito à experiência e ao saber acumulado por gerações é a essência do culto a essa orixá.
Nanã é também mãe de Omolu (ou Obaluaiê), orixá das doenças e da cura. Nas narrativas sagradas, ela rejeita o filho ao vê-lo nascer com feridas pelo corpo, mas ele é acolhido por Yemanjá. A história evidencia a complexidade da vida e os aprendizados que vêm com o tempo.
Entre os muitos itans — relatos sagrados que contam as origens dos orixás — um se destaca na fala de Mônica Ribeiro. “Nanã fornece a lama para Oxalá modelar os seres humanos e assim povoar a Terra”, conta. O barro se transforma em corpo, e a vida ganha forma a partir da matéria ancestral.
Esse itan invoca o papel que mulheres negras exercem em contextos de abandono: moldam, sustentam e mantêm o mundo girando. É nesse barro sagrado que também se molda o futuro.