A Educafro ajuizou em 27 de agosto uma ação civil pública contra o Flamengo por racismo institucional e estrutural. A ação aponta o histórico de exclusão de negros no clube e pede a adoção de medidas de combate ao racismo, além de uma indenização de R$ 100 milhões como reparação.
O documento da ação, ao qual a Alma Preta teve acesso, descreve um “abismo significativo” entre a utilização comercial da imagem de pessoas negras e periféricas, que compõem a maioria da torcida rubro-negra, e as políticas permanentes de combate à discriminação.
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“O Flamengo usufrui do afeto e da paixão dessa massa, mas não retribui com políticas públicas de inclusão ou com a promoção de lideranças negras em seus quadros”, diz trecho do processo.
A ação também destaca episódios de falas preconceituosas feitas pelo diretor da base do Flamengo, Alfredo Almeida.
“Em julho de 2025, Alfredo Almeida, cidadão português e diretor da base do Flamengo, proferiu declarações de cunho flagrantemente discriminatório, afirmando que ‘a África tem valências físicas’ enquanto ‘se quisermos ir para a parte mental está em outras zonas da Europa, do globo’.”.
A suposta omissão diante de episódios de racismo e a falta de implementação de cotas raciais em cargos de diretoria também são apontadas pela ação.
Em entrevista à Alma Preta, o fundador da Educafro, David Raimundo dos Santos, recorda que este não é um caso isolado e que a entidade já levou à Justiça denúncias de racismo, como no episódio envolvendo Vinícius Jr. na Espanha.
“Esta não é a primeira ação de racismo no esporte. Processamos a federação espanhola no caso do racismo com o Vini Jr. O debate ultrapassa as quatro linhas do campo. Estamos falando de racismo nas estruturas de poder e da mensagem superficial que os dirigentes estão passando para a sociedade”, aponta.
Para Santos, o caso atual deve ser compreendido como reflexo de uma questão racial mais ampla, a permanência do racismo em espaços de decisão e liderança no esporte.
“Estamos falando de racismo nas estruturas de poder e da mensagem superficial que os dirigentes estão passando para a sociedade”, complementa.
Indenização deve ser destinada a projetos para a população negra
A entidade pede que o valor da indenização fique sob a administração do Ministério Público para ser destinado a projetos direcionados à população negra no Brasil. Além do pagamento, a ação pede que o Flamengo seja sentenciado a implementar, no prazo de 90 dias, políticas institucionais permanentes de combate ao racismo.
As políticas devem incluir criação de comissão de igualdade racial com participação da sociedade civil; adoção de cotas raciais em cargos de direção e liderança; programas contínuos de educação antirracista para dirigentes, funcionários e atletas; campanhas públicas de combate ao racismo; democratização do acesso aos jogos e outras medidas.
Segundo David Santos, o processo representa um marco transformador nas dinâmicas entre as instituições esportivas e seu público, com a devida valorização da participação de pessoas negras.
“Então a gente entende que esta ação vai mudar para sempre, a relação dos clubes com os torcedores, respeitando mais os torcedores, especialmente os torcedores afro-brasileiros”, pontuou.
Santos defendeu que a ação também é um processo pedagógico para transmitir novos conhecimentos e oportunidades para as comunidades organizadas de torcidas, do movimento das mulheres e do movimento negro.
“Nós entendemos que onde houver ofensas de direitos, o que falta é a comunidade agir com determinação, garra e capacidade técnica. A gente está agora oferecendo a capacidade técnica, inclusive com esse modelo de ação que pode ser usado livremente por quem quiser”, concluiu.
A reportagem solicitou um parecer oficial ao Flamengo sobre o processo, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto para manifestação.