A Igreja Católica é um dos símbolos de poder mais expressivos do mundo. Ao longo da história, também foi fundamental para perpetuar práticas condenáveis e desumanas, entre elas a escravidão, em diferentes tempos e contextos. Mais do que uma instituição religiosa, a Igreja atua na organização de valores morais, estruturas de autoridade e formas de poder que atravessaram séculos.

Segundo o professor Sergio Sezino Douets Vasconcelos, no artigo “Igreja Católica e a escravidão no Brasil Colônia: uma abordagem cultural”, “[…] A história da presença do cristianismo no continente latino-americano, do seu relacionamento com os negros e negras, é marcada por grandes ambiguidades. Milhões de homens e mulheres foram barbaramente escravizados e sumariamente introduzidos no cristianismo e no projeto colonial europeu. Através da catequese e do batismo cristão, foram obrigados a abandonar sua cultura e religião ancestral e a ‘converterem-se’ ao cristianismo. Salvo raras exceções, ela foi conivente com a escravidão, utilizando ela própria da mão de obra escrava para sua sustentação econômica, tendo também servido de base ideológica para a justificação religiosa da escravidão”.
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Essa constatação é fundamental, inclusive no mês em que se celebra a tardia e incompleta abolição da escravidão no Brasil, assinada em 13 de maio de 1888.
A escravidão ajudou a estruturar desigualdades que permanecem organizando o presente. E a Igreja Católica teve participação direta nesse processo, seja pelo silêncio, pela legitimação moral ou pela própria atuação institucional em diferentes territórios colonizados, cujo a escravidão se colocou como sistema de dominação e exercício de poder.
Nesta semana, a principal liderança da instituição fez um pedido de desculpas. Leão XIV — o primeiro pontífice a fazer um reconhecimento tão explícito sobre o tema — admitiu publicamente o envolvimento histórico da Igreja Católica com a escravidão.
“É impossível não sentir profunda dor ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, afirmou.
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A fala do papa é, sem dúvida, importante e deve ser celebrada como um avanço, entretanto, é preciso refletir sobre o momento atual da Igreja e perguntar se esse aceno pode ter relação com o declínio do catolicismo no mundo e quais serão os próximos passos da instituição diante desse reconhecimento. Porque, ao sair da ignorância e do silêncio, espera-se, no mínimo, alguma atitude de reparação e promoção da equidade para os descendentes daqueles que sofreram com a mão — ou com a chibata — da Igreja ao longo de séculos.
No Brasil, o último Censo revelou que, de 2010 a 2022, houve “[…] redução do percentual de católicos apostólicos romanos (56,7%) e aumento de evangélicos (26,9%) e pessoas sem religião (9,3%). Em 2010, os católicos eram 65,1% da população de 10 anos ou mais; os evangélicos, 21,6%; enquanto os sem religião correspondiam a 7,9% dos declarantes”.
Em diferentes partes do mundo, também se observa o declínio do número de adeptos da Igreja Católica. Em um cenário de perda de influência institucional, o pedido de desculpas também pode ser lido como tentativa de reaproximação com territórios historicamente atravessados pela violência colonial, racial e escravocrata.
Portanto, o que precisamos observar é o que acontece depois desse pedido de desculpas. A Igreja vai rever sua forma de atuar no mundo? Vai discutir o papel que teve na consolidação da escravidão e das hierarquias raciais em países da América Latina, do Caribe e do continente africano?
Vamos crer que o pedido de desculpas seja apenas o começo de uma discussão muito maior sobre a presença — ou o declínio — da Igreja Católica ou uma tentativa apenas de reaproximação em territórios onde atuou de forma direta e/ou conivente com os horrores da escravidão.
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