Mulheres negras enfrentam questões específicas ligadas à interseccionalidade de gênero e raça. No esporte, essa realidade não é diferente: elas enfrentam o racismo e as desigualdades de gênero para alcançar o centro do cenário esportivo.
A partir desse pensamento do feminismo negro, a pesquisadora e profissional da educação física Ellen Scherrer idealizou o Feminismo Negro no Esporte (FNE), projeto do qual também é coordenadora-geral. A iniciativa decidiu aproximar o movimento da prática esportiva ao perceber que não havia estudos ou organizações dedicadas a discutir a presença e a representação de mulheres negras no esporte brasileiro.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
“Que universalidade é essa quando falamos de mulheres no esporte? Quem são essas mulheres? A partir desses questionamentos, percebemos que algo precisa mudar. Desde o início do esporte, a mesma base se replica. É necessário falar de diversidade, de pessoas que realmente estão no esporte, que praticam e estudam”, explica Ellen em entrevista à Alma Preta.
O projeto, que nasceu em 2021 durante a pandemia, cresceu de forma independente e passou a reunir profissionais de diversas áreas. Entre eles estão a Yordanna Lara, coordenadora de gênero e feminismos e Leonardo Peçanha, coordenador de políticas LGBTQIAPN+, que ressaltam a importância da atuação política do coletivo dentro de entidades, federações e instituições esportivas.
Também integram a equipe Adriana de Paula, coordenadora de esportes paralímpicos, Vitória Veiga, coordenadora de esporte e antirracismo e Dani Nunes, coordenadora de políticas públicas.
A partir dos questionamentos, o coletivo passou a mapear a presença de atletas negras e negros e questionar espaços como o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), federações, ONGS e outras instituições, propondo mudanças no esporte de alto rendimento.
Nesse sentido, contribuíram para a construção de documentos sobre a diversidade e inclusão, como a 2ª edição do Tratado pela Diversidade e Contra a Intolerância no Futebol Paulista da Federação Paulista de Futebol (FPF).
“Tem esse tratado no basquete da Liga Nacional de Basquete (LNB), que leva para a federação, e a federação entende que precisa ampliar. Não é só o tratado antirracista, a gente precisa falar de diversidade, de raça, capacitismo, LGBTfobia, violência contra a mulher. O FNE tem feito esses movimentos de refletir e provocar essas instituições que são tão importantes no esporte de rendimento”, aponta Scherrer.
A produção acadêmica como ferramenta de mudança no esporte
O projeto também atua no Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, dentro do Grupo de Trabalho (GT) Temático de Relações Étnico-Raciais e se posiciona como um espaço de resistência e política no combate ao racismo e à discriminação.
Segundo a historiadora e antropóloga Yordanna, especializada em relações étnico-raciais e de gênero, o objetivo é levar o pensamento político e teórico para dentro das instituições esportivas. “É um posicionamento político, é uma teoria de produzir ciência e de olhar criticamente a sociedade. E é também um método, tanto para produzir ciência quanto para olhar a sociedade e viver”, afirma.
Para ela, o esporte também é uma ferramenta de diálogo social, que funciona como um olhar para a sociedade. “Nossa história hoje transforma a história de mulheres negras amanhã, assim como veio de muito longe. Então a gente fala sobre esse lugar da continuidade, da transformação e de trazer memória”, acrescenta.
Com integrantes de diferentes regiões do país, o coletivo busca soluções fora do eixo Rio–São Paulo e promove pesquisas acadêmicas que dialoguem diretamente com as entidades esportivas de forma interseccional.
“A universidade ainda pensa o esporte de forma muito masculina, cisgênera, branca e heterossexual. E é esse o lugar em que atuamos: propor o debate dos atravessamentos na produção de ciência”, analisa a antropóloga.
Para além das atletas, o FNE busca valorizar a memória de mulheres negras que atuam como técnicas, treinadoras e profissionais do esporte, explica o pesquisador e escritor Leonardo, professor de educação física do Ambulatório Identidade da Policlínica Piquet Carneiro da UERJ (PPC/UERJ). “Nossa contribuição é dar visibilidade às histórias dessas mulheres e ampliar a representatividade”, diz.
Memória e representatividade
Em 2024, o coletivo produziu o “Centenário de Negritudes Esportivas do Brasil”, um levantamento histórico que resgata a trajetória e a memória de atletas negros nas Olimpíadas. O material marca o pioneirismo de Alfredo Gomes, primeiro homem negro a ser porta-bandeira do país nos Jogos de Paris de 1924.
O documento deu origem a uma celebração que reuniu grandes nomes e contou com a presença de uma das maiores atletas do atletismo brasileiro, Wanda dos Santos, que faleceu em junho deste ano aos 93 anos. “Foi a última homenagem em vida para ela. O Centenário tem um marco muito importante que é homenagear essas mulheres em vida”, destaca a idealizadora sobre o evento.

Narrativas negras ampliaram produção para podcast
O projeto também criou um podcast, dando voz a mulheres negras como protagonistas e potências para desconstruir o imaginário tradicional. Com 13 episódios já lançados, os temas incluem corpo negro trans no esporte, lesbofobia e o esporte, fisioterapia esportiva, gestão, surfistas negras, entre outros.
“O objetivo é trazer histórias na sua diversa amplitude da existência e ocupar esse lugar da potência. Falamos de atletas olímpicas como Edinanci, que participou do podcast, de Adriana Valeska, praticante de Crossfit do interior de São Paulo, considerada uma das cinco melhores do país, e também do projeto surfistas negras”, conta Ellen.
Entre os episódios de destaque, está a participação da ex-atleta de remo e futebol americano Mayara Faria, que falou sobre sua trajetória no esporte e as violências sofridas por ser uma mulher lésbica, incluindo a perda de patrocínio ao se assumir publicamente.
Outro episódio de destaque é com a ex-judoca olímpica Edinanci Silva, que se tornou a primeira mulher brasileira a disputar quatro Olimpíadas. Ela abordou os preconceitos e desafios enfrentados ao descobrir ser uma pessoa intersexo, condição biológica que se refere ao corpo com características tanto masculinas quanto femininas.
“Ele é muito atual, porque dialoga com o que vem acontecendo com a atleta sul-africana Caster Semenya há anos. E Edinanci relata que o que vem acontecendo agora lembra o que ela viveu na época dos Jogos Olímpicos de Sydney, quando descobriu ser uma pessoa intersexo e enfrentou diversas questões”, relata Leonardo sobre o episódio.
Segundo o coletivo, a expectativa é que a terceira temporada seja lançada no próximo ano.