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Grupo extremista deixa dezenas de civis mortos no Mali

Foi a primeira vez que a cidade de Talataye, na região africana do Sahel, foi atacada por jihadistas do Estado Islâmico no Grande Saara; área fica em cruzamento de influência de grupos armados e terroristas rivais

Imagem do grupo extremista que atacou a cidade de Talataye, no Mali.

Foto: Imagem: Reprodução/A Referência

14 de setembro de 2022

Um ataque de grupo associado ao Estado Islâmico deixou dezenas de civis mortos na última semana na cidade de Talataye, no Mali, país da África Ocidental, segundo informações de autoridades locais na última sexta-feira (9).

Foi a primeira vez que a localidade na região africana do Sahel foi atacada por integrantes do “Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS)”. A cidade, em grande parte isolada das redes de comunicação e situada em área desértica, fica em um cruzamento de influência de grupos armados e terroristas rivais, com confrontos recorrentes.

O número exato de mortos permanece desconhecido. Segundo informações em anonimato publicadas no Africanews, uma autoridade local disse que 45 civis foram mortos enquanto o grupo armado tomava a cidade e queimava casas e o mercado. Já um combatente do Movimento para a Salvação de Azawad (MSA), formado por tuaregues (povo seminômade no Norte da África), calculou o número de mortos em 30.

Na terça-feira (6), integrantes do EIGS travaram uma batalha na área com rivais do Grupo de Apoio ao Islã e Muçulmanos (GSIM) afiliado à Al-Qaeda e outros grupos armados, incluindo o MSA, de acordo com informações publicadas pelo VOA News.

“O Estado Islâmico no Grande Saara é uma organização militar e terrorista de ideologia jihadista salafista, nascida em 15 de maio de 2015 de uma separação de Al-Mourabitoune (outro grupo jihadista), causada pela fidelidade de um de seus comandantes ao Estado Islâmico”, explica Mohammed Nadir, professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Motivação dos grupos armados que atuam no país

Segundo Alexandre dos Santos, jornalista e professor de África no Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), os jihadistas que atuam na região da África Ocidental querem instaurar uma espécie de califado islâmico. Entretanto, essa instauração seria de acordo com uma leitura muito restrita do Islã. Há grupos que se uniram em coalizão e outros que permaneceram rivais.

“Todo mundo se dividiu. Dentro do movimento dos tuaregues, tem aqueles que se radicalizaram e se juntaram a esses movimentos mais radicais e aqueles que estão estabelecendo um acordo de paz com o governo”, destacou.

O professor de relações internacionais Mohammed Nadir, também coordenador do Laboratório de Estudos Árabes da UFABC, explica que os jihadistas acabaram por controlar a maioria das cidades do Norte do Mali.

“Hoje são vários grupos jihadistas armados ativos no Mali, como Ansar Dine, AQMI (Al-Qaeda no Magrebe Islâmico), MUJAO (Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental). O número total de jihadistas é estimado em 6.500 homens pela União Africana”, pontua.

Mali no continente africanoLocalização do Mali no continente africano | Crédito: Reprodução/InfoEscola

Além disso, Mohammed Nadir ressalta que os jihadistas se financiam através do tráfico na região, principalmente do ouro.

“De acordo com um estudo de 2019 do Instituto de Estudos de Segurança (ISS África), os grupos jihadistas do Sahel se autofinanciam por meio do tráfico local, como o tráfico de armas, uma forma de imposto sobre o gado e a mineração artesanal de ouro”, conta o coordenador do Laboratório de Estudos Árabes da UFABC.

Instabilidades políticas fragilizam mais a situação

O professor de África Alexandre dos Santos também comenta que as instabilidades políticas observadas no país acabam por aumentar ainda mais a influência dos grupos jihadistas. Em 2012, houve um golpe de estado no país africano. Depois, Mali sofreu mais dois golpes de estado ocorridos em menos de um ano: um em agosto de 2020 e outro em maio de 2021.

De acordo com o professor, em 2020, o presidente do país, Ibrahim Boubacar Keïta, foi derrubado com a acusação de que estava deixando a defesa do Mali nas mãos dos franceses, que participam de iniciativas de proteção e defesa de território na região. Em 2021, houve um golpe dentro de um golpe, já que a junta militar que havia assumido o país foi derrubada por um aliado.

“Esse movimento de derrubada dos governos fragiliza os acordos feitos e faz com que as pessoas fiquem sem saber exatamente o que vai acontecer. Isso encoraja movimentos jihadistas a atacarem regiões que eles não controlam ainda, porque eles sabem que existe uma desestabilização ali”, conta Alexandre.

Ainda de acordo com o professor de África no Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, os conflitos e as instabilidades políticas que geram mais desigualdade dentro do Mali acabam por também facilitar a entrada de jovens e pobres aos grupos radicais e terroristas.

“Essa região do Sahel é semidesértica e você tem populações muito empobrecidas. Então essas pessoas são muito facilmente cooptadas por esses movimentos jihadistas. São regiões que vivem numa emergência alimentar muito forte, porque há um avanço da desertificação”, comenta Alexandre.

“A população já está cansada dessa situação de instabilidade e eles veem que os franceses não estão ajudando absolutamente em nada. Então, no Mali especificamente, tanto o governo quanto as populações daquela região norte não querem mais a participação dos franceses. Eles querem que os próprios malianos ajudem no combate àqueles grupos jihadistas”, também complementa o professor de África.

Neste ano, o especialista independente da Organização das Nações Unidas (ONU) Alioune Tine relatou, após visita ao Mali, o aumento da violência no país praticadas sobretudo pelos extremistas. Esses grupos que atuam no norte do país, no centro e nos arredores da capital Bamako controlam 75% do território.

De acordo com a Missão de Paz das Nações Unidas no Mali (Minusma) foram mais de 1,3 mil violações e abusos de 1º de janeiro a 30 de junho deste ano, um aumento de cerca de 47% em relação ao ano anterior.

Leia também: Violência na RD Congo gera protestos contra missão da ONU

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