Pesquisar
Close this search box.

Imigração, racismo, xenofobia e a seleção francesa de futebol

18 de julho de 2018

A seleção de futebol da França é um termômetro da relação entre o país e os imigrantes. A presença de sujeitos negros e árabes, hoje problematizada, já foi descrita como a vitória do multiculturalismo na edição de 1998

Texto / Márcio Farias e Pedro Borges
Imagem / CNN

A seleção francesa, atual campeã mundial, tem como seus destaques os jogadores Kylian Mbappé, Paul Pogba, Antoine Griezmann, Blaise Matuidi, N’Golo Kanté, Samuel Umtiti e o goleiro e capitão Hugo Lloris. Entre os sete, apenas Lloris é branco e nasceu na França, assim como os pais. Griezmann é branco, nascido na França e tem ascendência portuguesa e alemã, enquanto os demais são negros, filhos de imigrantes ou são eles mesmos imigrantes.

As redes sociais e a opinião pública foram tomadas por debates sobre o caráter “francês” da atual campeã mundial, as políticas de imigração adotadas pelo governo de Emmanuel Macron, a violência sofrida pela comunidade negra no país e o oportunismo da branquitude e do capitalismo. Outros questionaram também a própria seleção brasileira, composta por maioria afrodescendente.

Para compreender este cenário, faz-se necessário retomar o processo de colonização francês no território africano e as características dos fluxos migratórios moderno, do eixo Sul do mundo para o Norte, em especial para a França após a década de 1970.

Apesar de menos destacada do que Portugal e Espanha, a França também teve presença significativa em ilhas da América Central, como o Haiti, Guiana Francesa e Martinica, países que, como o Brasil, utilizaram força de trabalho negra e escravizada para a produção agrária.

A França foi também um dos principais agentes no processo de colonização do continente africano. A presença mais intensa no continente ocorre depois da Conferência de Berlim, entre 1894 e 1895, quando as nações europeias partilharam o continente africano. O pedaço destinado aos franceses foi tão grande que hoje engloba os seguintes países e parte deles: Senegal, Mali, Burkina Faso, Níger, Costa do Marfim, Congo, Gabão, Chade, Camarões, Ubangui-Char e Madagascar.

A imigração para a Europa já acontecia destas colônias e ex-colônias, em menor grau, para países como a França, já nas primeiras décadas do século XX. Uma das causas, permanente para se explicar um processo de imigração, é o histórico desigual de desenvolvimento do capitalismo, que constrói países sem uma acumulação própria e com mercados internos frágeis.

Este intercâmbio a médio prazo entre França, África e América Central levou ao país três jovens fundamentais para compreender o processo: Aimé Césare, da Martinica, Léopold Sédar Senghor, de Senegal, e Léon Damas, da Guiana Francesa.

São estes jovens que, na posição de estudantes na França, fundam em 1935 o movimento estético, cultural e político chamado de “Négritude”, para construir identidade negra positiva e questionar os valores depositados sobre os diferentes grupos raciais. É interessante refletir que um dos mais relevantes movimentos de negros no enfrentamento ao racismo no século XX surge justamente do processo de migração.

Anos mais tarde, entre 1950 e 1970, o capitalismo viveu o seu período de ouro e, pressionado pela disputa com o socialismo, criou o Estado de Bem-Estar Social, que garantiu melhorias nas condições de vida dos trabalhadores do centro do capitalismo.

Na França, porém, o racismo e a xenofobia transformaram-se na principal barreira a ser enfrentada pelos imigrantes negros para conquistarem a cidadania francesa e acessarem os serviços públicos, ou seja, alcançarem o Estado de Bem-Estar Social

Estes são alguns elementos que instigam a tensão entre os “cidadãos natos”, os sujeitos brancos que ocupam os melhores postos de emprego, pautados na ideia de “supremacia nacional”, e os trabalhadores imigrantes, de maioria negra ou árabe, que assumem os postos mais precarizados.

Após as duas gerações campeãs do mundo, a melhor seleção francesa, que é uma das mais badaladas da história, é a semifinalista de 1986, com craques como Michel Platini. O perfil daquela equipe condizia com o momento da época, de barreiras aos imigrantes, e que gerou um time composto majoritariamente por brancos.

A tensão se arrasta e ganha um importante episódio em 1997, quando estudantes franceses se rebelam e passam a exigir a cidadania plena para os imigrantes em um país que carrega no seu histórico a ideia da negritude.

Na Copa de 1998, sediada na França, a equipe já é composta por uma maioria de imigrantes. Esses eram os casos de Zinédine Zidane, descendente de argelinos, e Patrick Vieira, nascido em Senegal. A seleção assume naquele momento o tom de país “multicultural”.

corpozidane

(Foto: Associated Press)

A França daquela época precisava de imigrantes para cumprir com funções trabalhistas que os europeus não queriam exercer. Acrescenta-se, para essa situação, uma população europeia cada vez mais idosa e com taxa de natalidade muito baixa, o que torna ainda mais latente a necessidade por imigrantes.

A crise de 2008 abala o mundo e, principalmente, as economias estadunidense e europeia. Diante de maior disputa por empregos, os franceses passam a almejar, por necessidade, as profissões que antes eram desempenhadas pelos imigrantes. O imigrante volta a ser visto como problema.

A tensão segue e em 2010 ocorrem ataques promovidos por fundamentalistas islâmicos na França, como resposta à maior repressão sobre os imigrantes árabes e africanos. A nova direita ganha força na Europa e figuras como Marine Le Pen, com discursos contra a imigração, crescem.

Na Copa de 2010, na África do Sul, a equipe passou por uma série de problemas internos envolvendo alguns dos principais atletas do time, como o lateral e capitão Patrice Evra, de origem senegalesa. A equipe foi eliminada de maneira precoce e após o episódio, cerca de 30 torcedores invadiram a sede da Federação Francesa de Futebol (FFF) e pediram a não convocação de atletas “pretos e muçulmanos”.

Mesmo ainda sob os reflexos da crise econômica, a vitória na Copa de 2018 não gerará manifestações de ódio contra a população negra e árabe. A conquista abre a possibilidade de descrever todos como “franceses”, mesmo que perdurem o cotidiano de violência nas comunidades negras da França e o pedido por política anti-imigratória, racista e xenófoba.

Se derrotados, de maneira também precoce, como ocorreu em 2010, provavelmente não seriam amados e idolatrados.

Mesmo com diferentes formas de tratamentos para a solicitação de um passaporte, quando se compara um jogador de alto nível ou empresário a um trabalhador sem formação, esse é o limite de adoração do negro em sociedades marcadas pelo racismo.

Apesar de todas as singularidades, vale recordar a frase de Romelu Lukaku, atacante da Bélgica: “quando as coisas vão bem, eles me chamam de atacante belga. Quando não correm bem, sou o atacante belga descendente de congoleses.”

A discussão vale também para os atletas brasileiros. Neymar, idolatrado e amado antes do torneio, rapidamente se tornou chacota, piada e odiado em âmbitos nacional e mundial. Gabriel Jesus, exaltado como craque do Jardim Peri, zona Norte de São Paulo, hoje é ordenado, em rede nacional, a voltar de onde veio. Fernandinho, astro do Manchester City (ING), não ficou atrás e depois da derrota recebeu ofensas racistas.

Todas estas são demonstrações de que, independente do país ou da condição social, nenhum negro está protegido do racismo.

Leia Mais

Quer receber nossa newsletter?

Destaques

AudioVisual

Podcast

EP 153

EP 152

Cotidiano