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Covid-19 na periferia aumenta internações e mortes da população negra

Dados de boletim epidemiológico do Ministério da Saúde indicam que população negra corresponde a 37,8% dos mortos e a 30,7% das internações

20 de abril de 2020

Dados do Ministério da Saúde mostram que o número de pessoas negras hospitalizadas e mortas em decorrência do Covid-19, o novo coronavírus, aumentou significamente em uma semana. Os dados se referem a sexta-feira (17), quando o país registrou 33.682 casos confirmados, com 50.225 hospitalizações e 2.141 mortes.

Apesar de as pessoas autodeclaradas brancas corresponderem a 59,1% dos mortos pela doença no país, a letalidade entre os negros teve alta de 5% em sete dias e chegou a 37,8%. No caso das hospitalizações por Síndrome Respiratória Aguda Grave, decorrente da infecção pelo vírus, o número de pacientes negros subiu 7,6% no mesmo período e chegou a 30,7%.

Um dos fatores que podem explicar o aumento significativo das vítimas negras em apenas uma semana é a contaminação do Covid-19 nas áreas mais vulneráveis, conforme destaca o biomédico Jonathan Vicente, em entrevista para a Alma Preta.

“Sabemos que a população negra é majoritária nas periferias, onde as condições de moradia tendem a ser aglomeradas, o que pode facilitar a disseminação do vírus”, afirma.

Vulnerabilidade

Segundo o biomédico, essa população ainda está mais vulnerável por depender do Sistema Único de Saúde (SUS), que está sobrecarregado. De acordo com informações do Ministério da Saúde, quase 80% dos usuários do SUS são negros.

“Os hospitais da Zona Leste de São Paulo (SP) como o Tide Setubal, Ermelino Matarazzo e o do Tatuapé estão funcionando quase no limite. Os problemas que afetam essa população já existiam e, com a pandemia, ficaram ainda mais aparentes”, salienta.

O Covid-19 também pode ser fatal para quem tem diabetes, asma ou hipertensão, doenças crônicas pelas quais a população negra está mais vulnerável. Um relatório de Política Nacional de Saúde da População Negra lançado em 2017 pelo Ministério da Saúde, por exemplo, indica que a hipertensão é mais alta entre os homens e tende ser mais complicada em negros. A diabetes, por sua vez, atinge com mais frequência os homens negros, 9% a mais que os brancos, e as mulheres negras, em torno de 50% a mais do que as brancas.

Subnotificação do perfil racial

A incorporação dos indicadores de raça/cor na pandemia do Covid-19 é resultado da mobilização do movimento negro no início de abril. Os boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, por outro lado, ainda apontam a existência de muitas hospitalizações e mortes sem a identificação racial. Entre os óbitos, em 385 casos essa informação foi ignorada, bem como em 2.141 internações.

Para Jonathan Vicente, a subnotificação dificulta o controle da disseminação do vírus e o aprimoramento de terapias. “A subnotificação é algo bem prejudicial uma vez que impossibilita termos a dimensão do que realmente está acontecendo com o sistema de saúde e consequentemente controlar a disseminação da doença e pensar no que pode ser feito para aprimorar os tratamentos disponíveis”, aponta o biomédico.

A situação de vulnerabilidade da população negra em meio à pandemia não se restringe ao Brasil. Embora os Estados Unidos tenha um sistema de saúde completamente distinto – privado -, em ambos os países, os negros são atingidos de forma desproporcional pelo Covid-19. É o que defende o biólogo Gustavo Silva, que dirige um laboratório de pesquisa na Universidade de Duke, em recente entrevista à Alma Preta.

“Isso demonstra que nos dois países os negros são mais suscetíveis às complicações do vírus devido ao menor acesso aos leitos, aos profissionais de saúde e à infraestrutura como um todo, de forma que são impactados de forma semelhante tanto nos EUA como no Brasil”, ponderou.

  • Nataly Simões

    Jornalista de formação e editora na Alma Preta. Passagens por UOL, Estadão, Automotive Business, Educação e Território, entre outras mídias.

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